Mar
Alguns dias haviam se passado, e a cada dia eu chorava mais e desejava voltar para o antigo abrigo, as vezes eu achava que preferia as coisas que Bernardo e Júlia faziam do que ser saco de pancada de um doente e as vezes ele me olhava de um jeito asqueroso e nojento, tinha tanto medo que ele… não quero nem imaginar isso.
(...)
Todos nós internos frequentávamos uma espécie de "escola", no caso, era seu Valério que dava as aulas, em uma sala vazia do abrigo. Pelo menos nesse lugar a gente tinha direito a educação.
O seu Valério passou algo escrito em uma lousa, e após acabar de escrever, se virou pra gente, e disse:
- Mariana, leia!
- Hã… Eu?
- Tem outra Mariana aqui? - Me olhou seriamente.
Eu não podia, eu queria ler, pois sabia que se eu não o obedecesse eu seria castigada e eu tinha muito medo dele, mas eu… não conseguia.
- Eu… Não posso.
- Como é? - Se aproximou de mim de forma agressiva.
- Eu… Quero ler, mas… Não estou conseguindo.
- Você é cega? - Me puxou pelos cabelos assustando eu e todos que viram a cena. Logo, me levou até a lousa e bateu o meu rosto na lousa. - LEIA AGORA!
- Desculpa, mas eu não posso. - Falei aos prantos, o deixando mais furioso.
- Eu leio! - Falou Caridade.
- Eu disse o teu nome, infeliz? - Apontou para uma frase qualquer. - Leia isso.
Enquanto eu soluçava de tanto chorar, tentei ler, e foi aí que escutei Caridade sussurrar:
- O nazismo.
- O nazismo. - Falei aos prantos.
- Muito bem! Agora aqui. - Apontou para uma frase qualquer.
- O nazismo foi uma ideologia… - Sussurrou Caridade
- Silêncio! Quem soprou?
Todo mundo ficou em silêncio, não se ouviu nem uma respiração sequer. O homem olhou atento para todos e se aproximou de Caridade, esquecendo de mim, mas eu não conseguia parar de chorar e fiquei com medo dele machucar a garota.
- Foi você, não é? - Muito trêmula, a garota negou com a cabeça. - Claro que foi, eu vi que vocês estão bem amiguinhas. Me espere no meu escritório. - A garota nem se mexeu, estava muito assustada. - AGORA!
Caridade saiu da sala e eu me senti muito m*l por ela, era tudo culpa minha, se não fosse por mim… Ah d***a, queria tanto poder fazer algo para ajudá-la, afinal, ela tinha se ferrado por minha causa, mas eu não sabia o que fazer.
(...)
Eu estava no quarto olhando a rua pela janela quando Caridade entrou aos prantos.
- Desculpa. - Falei. - É tudo culpa minha.
- Hey, não é, não. Eu te ajudei porque quis. - Falou, fazendo eu dar um leve sorriso. - Por que você não leu?
- Hã… É que…
Nisso, Vanessa apareceu nos chamando para jantar. Eu disse que já iríamos e comuniquei para Caridade a minha decisão. - Eu vou fugir. Não vou mais ficar aqui passando por tudo isso. - Ela me olhou assustada. - Vem comigo.
- Eu queria, mas tenho medo, se ele me achar vai me m***r. Acho que você não devia fazer isso também.
- Eu estou decidida! - Falei.
- Vou torcer por você, então.
- E eu vou contar tudo o que acontece aqui. Prometo. - Abracei a garota.
(...)
Era um pouco mais de meia noite, chamei por Caridade, que logo acordou.
- Estou indo. - Falei.
- Vou torcer para dar tudo certo.
- E eu prometo que vou contar tudo o que acontece aqui.
Caridade e eu fomos até a porta de entrada. A gente não sabia onde ou com quem ficava a chave, mas eu tive uma ideia para abrir a porta. Eu tinha um grampo de cabelo e com ele, consegui abrir a porta de entrada do abrigo. Fui vagarosamente com Caridade até o portão principal.
- Se cuida! - Falou.
- Você também!
Dei um último abraço na garota e então pulei o portão. Eu estava livre.
Mas agora não sabia o que fazer, ficava nas ruas ou voltava para o abrigo de Bernardo? Acho que eu preferia voltar, pois lá pelo menos eu tinha o que comer, mas eu sabia que ele e Júlia não me aceitariam facilmente. Ah, se pelo menos eu tivesse os meus amigos comigo, a gente poderia cantar como da outra vez e assim conseguiríamos dinheiro, mas agora eu não estava com eles, e sem eles, eu seria apenas eu, e não era a mesma coisa.
Pensei bem no que fazer e resolvi ir até o abrigo, iria colocar a boca no trombone, pois estava decidida a contar para Nico e Emilia onde eu estava e o que havia acontecido no abrigo do seu Valério, só acho que eu não teria coragem de contar o que Bernardo e Júlia faziam com a gente, acho que não acreditariam nisso.
Ai, meu Deus, me ajude, por favor!