Era um sábado. Me acordei e logo avistei que Euge ainda estava dormindo. Senti uma imensa dor no braço que Bernardo havia apertado na noite passada, levantei a manga da minha camisa, estava muito roxo, um hematoma h******l, e doía muito ao encostar ou ao mexê-lo. Tentei ignorar a dor para não chorar. E nisso, Euge se mexeu, acordando, em seguida.
- Bom dia! - Falou ao ver que eu já estava acordada.
- Bom dia!
- Os outros já acordaram?
- Não sei! Recém acordei.
- Vou tomar banho. Você me espera para ir tomar café?
- Claro!
A garota se retirou em direção ao banheiro que tinha em nosso quarto, e eu fiquei esperando-a enquanto massageava o meu braço machucado.
E nisto, bateram à porta.
- Quem é?
- Juan!
- Não tem ninguém. Favor tentar novamente mais tarde!
- Engraçadinha! - Falou o garoto ao entrar em meu quarto.
Juan se sentou ao meu lado, e ficou um pouco em silêncio. Eu ainda estava com muita raiva dele.
- Eu fiquei preocupado. Senti tua falta. Não sabia se você estava bem, se corria perigo, se tinha o que comer, se estava passando frio. Eu não fiquei chateado por você fugir e querer ser livre, fiquei chateado por eu não estar lá para te proteger.
- Por quê? - Perguntei surpresa com a fala do garoto.
- Porque… Eu… Eu me importo com você. Muito. Mesmo.
- Mas… Nós nem somos amigos. E eu te trato m*l.
- Não tem problema, eu sei que você faz isso pra não assumir que eu mexo com você. - Falou ao me fazer rir. - Vai tomar café?
- Tô esperando a Euge.
- Ok, nos vemos lá embaixo. - Fez menção em sair, mas logo voltou e se virou para mim. - Ah, fico feliz que esteja de volta, espero que não fuja mais, mas se fugir me avisa, eu vou junto. Pra onde você quiser.
Fiquei pasma com a fala do Juan, e o garoto deu um meio sorriso e saiu do meu quarto. Será que ele estava falando sério? Por que ele fugiria? E o Bernardo? Como ficaria nisso?
Esperei Eugênia sair do banho, e quando isso aconteceu, descemos para tomar café. Todos já estavam postos à mesa, faltava só a gente. E assim que Nico nos viu, ele disse:
- Até que enfim as Belas Adormecidas acordaram.
Euge e eu nos sentamos à mesa, e estava um clima de velório. As vezes, eu via Bernardo me encarando, e eu o encarava de volta. Estava com tanto ódio. Como Emilia e Nico não percebiam os monstros que eram Bernardo e Júlia?
- Amor, me passa a margarina? - Pediu Gimena para Nico.
O homem atendeu o pedido da irmã de Bernardo, e a mulher deu um selinho no namorado, notei quando Emilia olhou para os dois, acho que ela gostava de Nico, era uma pena que ele namorava a pessoa errada, e os dois viviam brigando, terminavam e voltavam, terminavam e voltavam, tomara que algum dia eles terminassem e não voltassem mais, pois Nico era uma boa pessoa, e merecia alguém como a Emilia, espero que algum dia ele perceba que Gimena não é a pessoa ideal para ele.
Assim que terminamos o nosso café, eu fiz sinal para Nano e para meus amigos (não incluo Juan nisso, até porque não somos amigos), e então, fomos para o quarto dos meninos.
- Queria falar com a gente? - Tato perguntou.
- O Bernardo foi ao meu quarto essa noite. - Falei.
- Quando? - Euge perguntou.
- Quando você estava dormindo.
- E o que ele queria? - Gastón perguntou.
- Ele disse que só não vai castigar a gente porque o Juan pediu.
- Sério? - Euge perguntou surpresa. - Eu te disse que ele é um cara bacana, bem diferente do pai.
- Eu não acho. - Disse Tato enciumado.
- Eu também não. - Falou Gastón.
- E tem mais. - Falei. - Ele… - Levantei a manga da minha camisa, mostrando o hematoma do meu braço.
- Aquele desgraçado fez isso? - Gas perguntou. Acenei positivamente com a cabeça. - Filho da p**a! Como ele teve coragem? Eu vou pegar aquele animal e enfiar a cabeça nele na privada até ele morrer por falta de ar.
- Não Gastón, você não vai fazer nada, porque você é do bem, não é igual a ele. - Disse Euge tentando conter o amigo.
- Mas… - Respirou fundo. - Ele não pode fazer isso. Já é demais!
- Como se ele tivesse limites. - Disse Tato indignado.
Ah, eu estava com tanta raiva! Preferia mil vezes estar na rua e não passando por isso. E para piorar, à tarde, tivemos que voltar a roubar, e Júlia ainda disse que sentiu falta do nosso trabalho. Que infeliz! Cara de p*u! Eu odiava esses dois e odiava ter que roubar. Eu me sentia a pior pessoa do mundo por isso, eu roubava dinheiro, celulares, joias, relógios, de pessoas inocentes, e eu me sentia tão m*l, eles deram duro para obter tudo isso para depois vir uma ladra de quinta (eu) e roubar isso deles. Não era justo! Não era certo! Ah, como queria poder mudar isso, como queria que isso acabasse de uma vez por todas.
(...)
À noite, Euge e eu estávamos no nosso quarto, e assim que terminamos de nos trocar para dormir, a loura disse:
- Amiga, preciso te contar algo, se eu não falar, acho que vou explodir.
- Fala logo! - Falei. - Já estou curiosa.
- Hoje o Tato e eu estávamos conversando. Sozinhos. - Frisou essa última parte. - E falamos sobre a nossa fuga e tal, e ele disse o quanto eu fui corajosa e tal, começou a me elogiar, e… E a gente quase se beijou.
- Não acredito! - Falei boquiaberta. - Mas por que "quase"?
- Ah, é que depois as crianças surgiram correndo e estragaram o clima. - Revirou os olhos.
- Ah, mas já é um ótimo avanço, porque até agora vocês não passaram de troca de olhares.
- Ai, amiga! - Deitou em minha cama, colocando os pés na cabeceira da cama, perto de mim. - Eu gosto tanto dele! Na verdade, nunca gostei de ninguém assim.
- Eu torço tanto por vocês. Quero ser madrinha, viu?
- E será!
Eu ri e fiz cócegas na garota, que riu também. Ah, era tão bom ter uma amiga, e eu torcia tanto por ela e pelo Tato, dava para ver que se gostam muito, e eles são tão fofos juntos, tomara que dê namoro logo.