Eva
Mentir nunca foi um talento meu.
Quando criança, bastava esconder um doce no bolso que minha tia Marta descobria antes mesmo de eu abrir a boca. Ela dizia que meus olhos contavam a verdade antes das palavras.
Infelizmente, parecia que o delegado Conrado tinha o mesmo dom.
Assim que perguntou quem estava no carro preto, senti meu coração disparar.
Não porque eu soubesse quem era.
Mas porque, por um segundo, achei que conhecia.
Aquele carro...
Eu o tinha visto outras vezes circulando pela comunidade. Sempre devagar. Sempre nos mesmos horários.
Nunca dei importância.
Até aquele momento.
— Não faço ideia — respondi.
Era meia verdade.
E meia mentira.
Conrado não disse nada.
Apenas continuou me olhando.
Não era um olhar agressivo.
Era pior.
Silencioso.
Paciente.
Como se desmontasse cada resposta, procurando rachaduras.
Sustentei seu olhar pelo maior tempo que consegui.
Quando ele finalmente foi embora, minhas pernas pareceram perder a força.
Continuei parada atrás do balcão, acompanhando o carro dele desaparecer no fim da rua.
— Eva...
A voz de seu Joaquim me trouxe de volta.
— Você tá branca.
Passei a mão no rosto, tentando parecer tranquila.
— É impressão sua.
Ele bufou.
— Eu te conheço desde menina.
Sorri sem vontade.
— Então sabe que eu fico assim quando me irrito.
Seu Joaquim cruzou os braços.
— Foi por causa do delegado?
Demorei alguns segundos para responder.
— Ele acha que eu escondo alguma coisa.
— E esconde?
Olhei para ele.
Meu peito apertou.
— Não sei.
A resposta saiu antes que eu pudesse pensar.
Porque era verdade.
Eu não escondia crimes.
Nem dinheiro.
Nem informações do Caio.
Mas escondia o medo constante de que o sobrenome Borges nunca me deixasse viver como uma pessoa comum.
Seu Joaquim apoiou a mão sobre meu ombro.
— Você não é responsável pelas escolhas do seu irmão.
Fechei os olhos por um instante.
— Tenta convencer o resto do mundo disso.
Ele sorriu com tristeza.
— O mundo demora a aprender.
Assenti.
Eu sabia.
Passava a vida inteira tentando ensiná-lo.
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Saí da padaria quando o sol já começava a desaparecer atrás dos morros.
O calor do dia dava lugar a uma brisa agradável.
As vielas estavam cheias.
Crianças corriam atrás de uma bola improvisada.
Uma senhora conversava com a vizinha enquanto estendia roupas no varal.
O cheiro de carne assando misturava-se ao de pão recém-saído do forno.
Era a comunidade que eu conhecia.
A que nunca aparecia na televisão.
Sorri ao passar por Dona Celeste.
— Indo pra casa, minha filha?
— Finalmente.
Ela riu.
— Sua tia já deve estar preocupada.
Provavelmente estava.
Tia Marta dizia que eu trabalhava demais.
Eu respondia que alguém precisava pagar as contas.
Nenhuma de nós mencionava Caio.
Nunca era necessário.
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— Eva!
Olhei para trás.
Duda vinha quase correndo, equilibrando uma sacola de mercado em um braço.
— Pensei que você já tivesse ido.
Esperei que ela me alcançasse.
— Seu Joaquim resolveu reorganizar metade da padaria antes de fechar.
Ela riu.
— Aquele homem vai trabalhar até os cem anos.
— E reclamar que ninguém trabalha direito.
Seguimos caminhando lado a lado.
— Então... — ela começou, curiosa. — É verdade que apareceu um delegado atrás de você?
Revirei os olhos.
— A notícia correu rápido.
— Aqui tudo corre rápido.
Era verdade.
Na comunidade, bastavam duas pessoas conversando na esquina para metade do morro saber antes do anoitecer.
— O que ele queria?
— O de sempre.
— Caio?
Assenti.
Duda soltou um suspiro.
— Um dia vão perceber que você é só você.
Sorri de lado.
— Espero estar viva quando esse dia chegar.
Ela segurou meu braço com carinho.
— Vai chegar.
Quis acreditar.
Mas já fazia anos que repetiam a mesma promessa.
E nada mudava.
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Nos despedimos na esquina da minha rua.
Faltavam poucos metros para casa quando diminuí os passos.
Havia um carro preto estacionado perto do portão.
Vidros escuros.
Motor ligado.
Não era de nenhum vizinho.
Meu estômago se contraiu.
Dois homens desceram assim que me viram.
Nenhum uniforme.
Nenhum distintivo.
Ternos escuros que destoavam completamente daquele lugar.
Um deles deu um passo à frente.
— Eva Borges?
Não respondi.
— Quem quer saber?
Os dois trocaram um rápido olhar.
Então a porta traseira do carro se abriu.
Um terceiro homem saiu.
Devia ter pouco mais de cinquenta anos.
Os cabelos grisalhos estavam impecavelmente penteados.
O relógio em seu pulso provavelmente valia mais do que a minha casa.
Ele caminhou sem pressa.
Como alguém acostumado a nunca ser interrompido.
Parou a poucos metros de mim.
— Finalmente nos conhecemos.
Sua voz era calma.
Educada.
Mas havia algo nela que fez um arrepio percorrer minha coluna.
— Quem é o senhor?
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Um amigo do seu irmão.
Mentira.
Caio jamais enviaria alguém para me procurar daquela forma.
— Meu irmão não manda recados por estranhos.
O sorriso desapareceu.
Foi rápido.
Mas suficiente para confirmar minha desconfiança.
— Você é inteligente.
Mantive a distância.
— Ainda não respondeu minha pergunta.
Ele ignorou.
— Diga ao Caio que o tempo dele acabou.
Meu coração bateu mais forte.
— Eu não sei onde ele está.
— Não precisa mentir para mim.
— Não estou mentindo.
Ele deu mais um passo.
Instintivamente recuei.
— Homens como seu irmão sempre acreditam que conseguem proteger quem amam.
Sua voz ficou ainda mais baixa.
— Até descobrirem que toda proteção tem um limite.
Meu sangue gelou.
Aquilo não era um recado.
Era uma ameaça.
Sem esperar resposta, ele voltou para o carro.
Os outros homens entraram logo depois.
O veículo arrancou lentamente, desaparecendo na curva da viela.
Só então percebi que minhas mãos tremiam.
— Eva!
Reconheci aquela voz antes mesmo de me virar.
Caio.
Ele vinha acompanhado de dois homens da segurança.
Assim que me viu, acelerou os passos.
Seu olhar percorreu meu rosto, minhas mãos, a rua vazia.
Procurando algum sinal de que eu tivesse me machucado.
— O que aconteceu?
Por um instante, deixei de ser a mulher de vinte e quatro anos que insistia em resolver tudo sozinha.
Corri até ele.
Meu irmão me envolveu em um abraço firme.
Seguro.
Familiar.
Fazia semanas que eu não o via.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti vontade de chorar.
Ele segurou meus ombros e me afastou apenas o suficiente para olhar nos meus olhos.
— Quem esteve aqui?
Respirei fundo.
Contei tudo.
O carro.
Os homens.
O desconhecido.
Cada palavra dita.
Cada ameaça.
À medida que eu falava, a expressão de Caio endurecia.
Quando terminei, ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Longos segundos.
— Eles chegaram antes do que imaginei.
Meu peito apertou.
— Quem são eles?
Ele desviou o olhar para o fim da rua.
Como se já calculasse os próximos passos.
— Gente perigosa.
Franzi a testa.
— Mais perigosa que você?
Um sorriso amargo surgiu em seu rosto.
— Muito mais.
Foi a primeira vez que vi medo nos olhos do meu irmão.
Não por ele.
Por mim.
E, naquele instante, compreendi que a vida que eu tentava manter distante do mundo de Caio acabara de bater à minha porta.
A guerra tinha começado.
E, desta vez, meu sobrenome talvez não fosse suficiente para me manter viva.