Conrado
Meu celular tocou às seis e dezessete da manhã.
Eu ainda estava na segunda xícara de café quando o nome de Henrique apareceu na tela.
Se ele ligava tão cedo, era porque alguma coisa tinha saído do controle.
— Fala.
— Delegado, chegou uma denúncia anônima.
Sua voz estava mais séria do que o normal.
Deixei a caneca sobre a mesa.
— O que foi?
— Três informantes diferentes relataram a mesma movimentação durante a madrugada. Homens armados entraram no Morro da Esperança.
Meu corpo ficou imediatamente alerta.
— Do grupo do Caio?
— Não.
Silêncio.
Essa era a única resposta que eu não esperava ouvir.
— Tem certeza?
— As três fontes disseram exatamente a mesma coisa.
Passei a mão pelo rosto.
Boatos apareciam todos os dias.
Informantes exageravam.
Inventavam.
Confundiam.
Mas três denúncias independentes apontando para o mesmo fato significavam outra coisa.
Significavam problema.
Peguei a chave do carro.
— Reúna a equipe.
Desliguei antes mesmo que Henrique respondesse.
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Quarenta minutos depois, a sala de operações já estava cheia.
Um mapa da comunidade ocupava quase toda a mesa.
Henrique apontou para a parte mais alta do morro.
— A movimentação começou aqui.
Outro investigador deslizou algumas fotografias impressas.
— Os veículos chegaram pouco depois das duas da manhã.
Observei as imagens.
Carros escuros.
Vidros fechados.
Nenhuma placa verdadeira.
Profissional.
— Houve confronto?
Henrique balançou a cabeça.
— Nenhum.
Aquilo não fazia sentido.
Caio Borges controlava cada entrada da comunidade.
Ninguém atravessava aquele território armado sem autorização.
Ou ele permitiu a entrada.
Ou alguém finalmente conseguiu desafiar sua autoridade.
As duas hipóteses eram perigosas.
— Identificaram alguém?
Henrique empurrou outra fotografia.
Imagem granulada.
Cinco homens.
Todos armados.
Nenhum rosto conhecido pelos nossos arquivos.
— Tem mais uma coisa.
Levantei os olhos.
— Fala.
Ele respirou antes de continuar.
— Ontem à noite uma mulher foi abordada perto da própria casa.
Meu estômago se contraiu antes mesmo de ouvir o nome.
— Eva Borges.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Como descobriram?
— Um morador fez uma denúncia anônima. Disse que dois carros ficaram parados na rua por bastante tempo.
Olhei novamente para as fotografias.
Então o carro que passou em frente à padaria...
Não observava o comércio.
Observava Eva.
A percepção chegou como um golpe.
Até aquele momento eu acreditava que ela pudesse ser apenas uma porta de entrada para chegar ao irmão.
Agora começava a considerar outra possibilidade.
Talvez ela fosse o alvo.
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Passei a manhã inteira cruzando informações.
Nada encaixava.
As placas eram frias.
Os celulares usados durante a madrugada haviam sido descartados.
Nenhum rosto aparecia nos bancos de dados.
Era um grupo treinado.
Organizado.
Gente que sabia exatamente como evitar rastros.
Quanto mais eu investigava, menos respostas encontrava.
E isso nunca era um bom sinal.
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No início da tarde, voltei à padaria.
Dessa vez, não fui atrás de Caio.
Fui atrás dela.
O sino acima da porta anunciou minha entrada.
Eva levantou os olhos imediatamente.
Não sorriu.
Também não pareceu surpresa.
Como se já esperasse me ver outra vez.
— Delegado.
Assenti.
— Senhorita Borges.
Seu Joaquim alternou o olhar entre nós e entendeu o clima antes que qualquer palavra fosse dita.
— Vou conferir o estoque.
Desapareceu pelos fundos, deixando a padaria quase vazia.
Esperei alguns segundos.
— Você foi seguida ontem.
Ela ficou imóvel.
Foi apenas um instante.
Mas bastou.
— Não sei do que está falando.
— Sabe, sim.
Silêncio.
Ela respirou devagar, mantendo as mãos apoiadas sobre o balcão.
Controlada.
Mas seus dedos apertavam a madeira com força suficiente para denunciar a tensão.
— Quem eram aqueles homens?
— Não faço ideia.
— Eles falaram com você.
Pela primeira vez, a segurança dela vacilou.
Os olhos se arregalaram.
A respiração falhou.
— Como o senhor...
Ela interrompeu a própria pergunta.
Não precisava terminá-la.
— Faz muitos anos que observo pessoas.
Sua expressão endureceu novamente.
Mas era tarde.
Eu já tinha visto o suficiente.
— Eles procuravam seu irmão?
Depois de alguns segundos, ela fez um movimento quase imperceptível com a cabeça.
Sim.
— Eles ameaçaram você.
Outra pausa.
Outra confirmação silenciosa.
Senti um peso inesperado no peito.
Durante cinco anos, imaginei Eva Borges de inúmeras formas.
Cúmplice.
Mensageira.
Protegida.
Jamais imaginei encontrá-la assustada.
Ela parecia apenas uma mulher tentando sobreviver a uma guerra criada por outras pessoas.
— Eva.
Ela ergueu os olhos.
Havia cansaço neles.
Muito mais do que medo.
— Se esses homens vieram de fora...
Escolhi cuidadosamente as palavras.
— A situação mudou.
Ela soltou uma pequena risada sem humor.
— Engraçado.
Cruzei os braços.
— O quê?
— Você foi a segunda pessoa a dizer isso desde ontem.
Meu olhar encontrou o dela.
— Seu irmão esteve com você.
Ela percebeu o erro no mesmo instante.
Os lábios se comprimiram.
O arrependimento apareceu rápido demais.
Não respondeu.
Não precisava.
A confirmação estava estampada em seu rosto.
Meu dever era aproveitar.
Perguntar onde Caio estava.
Acionar a equipe.
Transformar aquela conversa na melhor oportunidade da investigação em cinco anos.
Era isso que qualquer delegado faria.
Mas alguma coisa me impediu.
Se eu a pressionasse naquele momento, perderia sua confiança.
E, pela primeira vez desde o início daquele caso, meu instinto dizia que existia algo maior do que prender Caio Borges.
Alguém estava entrando na cidade.
Alguém disposto a desafiar o homem mais poderoso do Morro da Esperança.
E Eva estava exatamente no meio dessa disputa.
Tirei um cartão do bolso.
Empurrei-o pelo balcão.
— Se eles aparecerem outra vez, me ligue.
Ela olhou para o cartão.
Depois para mim.
— Esse é seu número pessoal.
— É.
Uma sobrancelha dela arqueou discretamente.
— Achei que delegados não entregassem o telefone para pessoas que investigam.
— Eu também achava.
Por um instante, um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.
Frágil.
Cansado.
Mas verdadeiro.
Desapareceu quase no mesmo instante.
Ainda assim, foi suficiente para desmontar parte da imagem que eu havia criado dela.
Saí da padaria com mais perguntas do que respostas.
Cinco anos perseguindo Caio Borges tinham me ensinado a desconfiar de tudo.
Mas, naquele momento, uma única certeza permanecia.
A investigação tinha mudado.
Aquilo já não era apenas uma caçada a um chefe do crime.
Era o início de uma guerra.
E meu instinto dizia que, antes de conseguir alcançar Caio Borges, eu teria de impedir que Eva Borges se tornasse a primeira vítima dela.