Passei o polegar sobre o cartão mais vezes do que gostaria de admitir.
Conrado Almeida. Delegado de Polícia.
As letras pretas pareciam pesar mais do que um simples pedaço de papel deveria.
Acabei guardando-o no bolso interno da mochila.
Não porque pretendesse ligar.
Mas porque não consegui jogá-lo fora.
Isso me irritava.
Na primeira vez que o delegado entrou na padaria, tive certeza de que ele era igual a todos os outros.
Mais um homem disposto a olhar para mim e enxergar apenas o sobrenome Borges.
Agora...
Ele tinha me entregado o próprio telefone.
Não fazia sentido.
Ou fazia, e eu ainda não conseguia entender.
Balancei a cabeça.
Quanto menos eu pensasse em Conrado Almeida, melhor.
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Quando fechamos a padaria, a noite já tinha tomado conta da comunidade.
Seu Joaquim insistiu em desligar as luzes comigo.
Enquanto eu colocava a mochila nas costas, ele permaneceu parado junto à porta.
— Tem certeza de que vai sozinha?
Sorri para tranquilizá-lo.
— Faço esse caminho todos os dias.
Ele não sorriu de volta.
— É justamente por isso que estou preocupado.
A preocupação dele era sincera.
Depois da visita daqueles homens, todos pareciam andar mais atentos.
Até os clientes falavam mais baixo.
Até as crianças brincavam menos na rua.
A comunidade inteira parecia prender a respiração.
Toquei de leve o braço dele.
— Eu chego em casa rapidinho.
Seu Joaquim suspirou.
— Se acontecer qualquer coisa...
— Eu sei.
Ele assentiu, embora continuasse com a expressão fechada.
Nem ele acreditava nas palavras que eu tinha acabado de dizer.
E, no fundo...
Nem eu.
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As vielas estavam estranhamente silenciosas.
Ainda havia gente nas portas das casas.
O cheiro de churrasco continuava no ar.
Uma televisão ligada escapava pela janela de uma sala.
Mas alguma coisa tinha mudado.
Os homens da segurança conversavam em grupos pequenos.
Observavam cada rosto desconhecido.
Cada carro que subia o morro.
Cada movimento fora do comum.
O clima de tranquilidade tinha desaparecido.
Foi então que ouvi meu nome.
— Eva.
Levantei a cabeça.
Caio estava apoiado na varanda de uma casa simples.
Usava jeans, camiseta preta e boné.
Sem os homens ao redor, parecia apenas mais um morador voltando do trabalho.
Mas eu conhecia meu irmão.
Sabia que ele nunca aparecia sem motivo.
Subi a escada rapidamente.
Assim que entrei, ele fechou a porta.
Ficamos sozinhos.
Cruzei os braços.
— Você não devia estar aqui.
Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.
— Também senti sua falta.
Revirei os olhos.
— Não tenta me enrolar.
O sorriso desapareceu.
Esperei alguns segundos.
— Quem era aquele homem?
Caio caminhou até a janela antes de responder.
— Rogério.
O nome não significava nada para mim.
— Nunca ouvi falar.
— Espero que continue assim.
Meu estômago apertou.
— O que ele quer?
Silêncio.
Longo demais.
— Caio.
Ele respirou fundo.
— Quer tomar tudo o que é meu.
Franzi a testa.
— O morro?
Ele me encarou.
— O morro é só o começo.
A resposta fez um frio percorrer minhas costas.
Pela primeira vez desde que entrara naquela casa, percebi algo raro no rosto dele.
Preocupação.
Não era medo por si mesmo.
Era medo por mim.
— Você precisa sair daqui.
Soltei uma risada incrédula.
— Está falando sério?
— Muito.
— E deixar a tia Marta sozinha?
— Eu cuido dela.
Balancei a cabeça.
— Não.
Ele deu um passo na minha direção.
— Eva...
Ergui a mão antes que continuasse.
— Passei a vida inteira pagando pelas consequências das suas escolhas.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Mas não vou abandonar minha casa por causa delas.
Caio permaneceu em silêncio.
Conhecia aquele silêncio.
Era o que surgia sempre que ele não encontrava argumentos.
— Você escolheu esse caminho.
Eu não.
Então não decide por mim.
Ele abaixou a cabeça por um instante.
Quando voltou a olhar para mim, parecia mais cansado do que eu jamais o vira.
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Saí dali poucos minutos depois.
A rua estava praticamente vazia.
Peguei o celular para mandar mensagem para minha tia avisando que estava chegando.
Antes que pudesse desbloquear a tela, ele vibrou.
Número desconhecido.
Atendi.
— Alô?
Nenhuma resposta.
Só uma respiração lenta.
Controlada.
Os pelos da minha nuca se arrepiaram.
— Quem está falando?
Silêncio.
Logo depois, a ligação caiu.
Fiquei olhando para a tela.
Meu coração batia rápido demais.
Então o telefone tocou outra vez.
O mesmo número.
Respirei fundo antes de atender.
— Eva Borges?
Uma voz masculina.
Grave.
Desconhecida.
— Quem é?
— Avise ao seu irmão.
Uma breve pausa.
— Ninguém consegue esconder você para sempre.
A ligação foi encerrada.
Continuei segurando o telefone junto ao ouvido por alguns segundos.
Sem conseguir me mover.
Eles tinham meu número.
Sabiam meu nome.
Sabiam exatamente onde eu estava.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
Guardei o celular e comecei a caminhar mais depressa.
Precisava chegar em casa.
Precisava ver minha tia.
Olhei discretamente para trás.
Ninguém.
Continuei andando.
Foi então que ouvi passos.
Lentos.
Firmes.
Atrás de mim.
Meu coração disparou.
Acelerei.
Os passos também.
A rua parecia cada vez mais estreita.
Cada sombra parecia esconder alguém.
Virei a esquina quase correndo.
Uma mão segurou meu braço.
O grito escapou antes que eu pudesse impedir.
— Calma!
Virei bruscamente.
Conrado.
Ele soltou meu braço no mesmo instante.
— Desculpe.
Levei a mão ao peito, tentando controlar a respiração.
— Você enlouqueceu?
— Eu chamei seu nome três vezes.
Nem tinha ouvido.
Estava assustada demais.
Ele me observou por alguns segundos.
Seu olhar percorreu meu rosto, minhas mãos trêmulas e o celular que eu ainda segurava.
— O que aconteceu?
Meu primeiro impulso foi mentir.
Dizer que não era nada.
Que estava cansada.
Que tinha me assustado à toa.
Era o que eu sempre fazia.
Mas as palavras morreram antes de chegar à boca.
Lembrei da ligação.
Da ameaça.
Dos passos atrás de mim.
Da expressão preocupada de Caio.
E percebi que já não conseguia carregar tudo aquilo sozinha.
Engoli em seco.
— Eles ligaram.
A expressão de Conrado mudou imediatamente.
Toda a calma desapareceu.
— Quem?
— Os homens que estão procurando meu irmão.
— O que disseram?
Minha voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
— Que ninguém conseguiria me esconder para sempre.
O maxilar dele se contraiu.
Conrado não respondeu de imediato.
Em vez disso, observou a rua.
Os telhados.
As janelas.
As esquinas.
Como se esperasse encontrar alguém escondido na escuridão.
Quando voltou a olhar para mim, havia uma decisão estampada em seu rosto.
Já não era o delegado tentando arrancar informações da irmã de um criminoso.
Era um homem que finalmente acreditava em cada palavra que eu dizia.
— A partir de agora...
Sua voz permaneceu calma.
Mas firme.
— Você não vai andar sozinha.
Abri a boca para protestar.
Para dizer que não precisava de proteção.
Que conseguia cuidar de mim.
Nenhuma palavra saiu.
Porque, pela primeira vez desde o começo daquela história...
Eu já não acreditava nisso