Capítulo 5

901 Words
Eva Fiquei imóvel. As batidas cessaram, mas meu coração continuava martelando no peito. — Eva... sou eu. O Luan. Reconheci a voz com clareza dessa vez. Mesmo assim, não destranquei a porta imediatamente. Aproximei-me em silêncio e olhei pela fresta da cortina. Era ele. Sozinho. Usava um boné escuro e uma jaqueta com o capuz abaixado. Tinha o rosto tenso, como se não dormisse havia horas. Só então girei a chave. — Você tem noção da hora? Ele entrou rapidamente e fechou a porta atrás de si. — Desculpa. Olhou para a janela antes de continuar. — Mas eu não podia esperar até amanhã. Cruzei os braços. — Aconteceu alguma coisa? Luan passou a mão pelo rosto. — Sim. Aquela única palavra foi suficiente para meu estômago se contrair. — Fala. Ele respirou fundo. — Confirmaram o que eu tinha ouvido. Senti um frio percorrer minha espinha. — Como? — Um dos rapazes viu dois homens perguntando por você perto da padaria. Meu corpo enrijeceu. — Perguntando o quê? — Seus horários. Onde você trabalha. Que horas sai. Que faculdade faz. Se mora sozinha. Fechei os olhos por um instante. Então não era impressão. Nem paranoia. Era real. — Quem são eles? — Ninguém conhece. Não são daqui. Isso é justamente o problema. Olhei para a cozinha, tentando organizar os pensamentos. — O Caio já sabe? Luan baixou a cabeça. — Ainda não consegui falar com ele. Meu irmão nunca desligava completamente dos negócios. Sempre havia alguém capaz de encontrá-lo. Se nem Luan conseguia... Era porque Caio realmente tinha desaparecido. — Isso nunca aconteceu antes, não é? — Não. Ele respondeu sem hesitar. — E é isso que está me deixando preocupado. O silêncio tomou conta da casa. Luan caminhou até a janela e afastou discretamente a cortina. Observou a rua por alguns segundos antes de soltá-la. — Você fez exatamente o que eu pedi para não fazer. Franzi a testa. — Fui para a faculdade. — Sozinha. Suspirei. — Não vou abandonar minha vida. — Talvez você não tenha essa escolha. A frase me atingiu como um tapa. — Não fala isso. Ele se virou para mim. — Você acha que eu quero dizer isso? A voz dele saiu mais alta do que o normal. Respirou fundo antes de continuar. — Eu conheço esse tipo de gente, Eva. Quando eles escolhem um alvo, não desistem fácil. — Eu não fiz nada. — Eu sei. — Nunca participei de nada. — Eu sei. — Então por que eu? Luan ficou em silêncio. A resposta era óbvia demais para ser dita. Porque eu era irmã de Caio Borges. A única família que ainda vivia no morro. A única pessoa capaz de fazer meu irmão perder a cabeça. Sentei devagar no sofá. De repente, tudo pareceu pesado. Muito pesado. Luan aproximou-se. — Escuta... Ele esperou até que eu levantasse os olhos. — Se eu pudesse tirar você daqui hoje, eu tirava. Sorri sem humor. — E colocar onde? Ele não respondeu. Porque não existia resposta. Eu não tinha parentes em outra cidade. Não tinha dinheiro para recomeçar. Não tinha ninguém. Só aquele pequeno sobrado. A padaria. A faculdade. Era pouco. Mas era a vida que eu havia construído longe das escolhas do meu irmão. — O delegado apareceu hoje. As palavras escaparam antes que eu pudesse pensar. Luan ergueu a cabeça imediatamente. — Conrado? Assenti. — Na saída da faculdade. Ele franziu o cenho. — O que ele queria? — Fez perguntas. Disse que achava que alguém estava me seguindo. Luan soltou uma respiração pesada. — Então ele percebeu. — Percebeu mais do que eu gostaria. Contei sobre o encontro. Sobre a desculpa do ônibus. Sobre o carro preto passando novamente. Luan ouviu tudo em silêncio. Quando terminei, ele permaneceu alguns segundos pensando. — Talvez isso seja bom. Olhei para ele como se tivesse enlouquecido. — Bom? — Se a polícia também viu esse carro, significa que não é coisa da sua cabeça. Balancei a cabeça. — Você está esquecendo um detalhe. — Qual? — Conrado quer prender o Caio. — Eu sei. — Se eu me aproximar dele, vou acabar entregando alguma coisa. — E se você não se aproximar dele... Luan parou no meio da frase. Não precisou terminar. Entendi perfeitamente. O risco era outro. Ficamos em silêncio. Foi estranho perceber que, pela primeira vez em muitos anos, nenhuma opção parecia segura. Luan consultou o relógio. — Vou colocar dois rapazes para ficarem de olho na rua. Abri a boca para protestar. Ele levantou a mão. — Não vão falar com você. Nem entrar na sua casa. Só vão observar. — Isso não vai chamar atenção? — Melhor chamarem atenção do que chegarem tarde. Assenti, sem vontade de discutir. Ele caminhou até a porta. Antes de sair, voltou-se para mim. — Promete uma coisa? — O quê? — Se acontecer qualquer coisa... qualquer coisa mesmo... você me liga antes de tentar resolver sozinha. Sorri de lado. — Está parecendo meu irmão. Pela primeira vez naquela noite, Luan sorriu. Foi um sorriso cansado. — Alguém precisa fazer esse papel enquanto ele não aparece. Abri a porta para que ele saísse. Esperei até vê-lo desaparecer na rua. Depois tranquei tudo novamente. A casa voltou ao silêncio. Mas, curiosamente, eu não me sentia mais protegida. Sentia apenas que a tempestade estava cada vez mais perto. E que, quando ela finalmente chegasse... Não pouparia ninguém.
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