— A partir de agora, você não vai dar mais um passo sozinha.
As palavras ficaram suspensas entre nós.
O movimento da comunidade continuava ao nosso redor. Uma televisão ligada em alguma casa transmitia um jogo de futebol. Crianças corriam pelo beco logo abaixo da viela. Uma panela bateu contra outra em alguma cozinha próxima.
O mundo seguia exatamente igual.
Só eu parecia incapaz de me mover.
Conrado mantinha os olhos fixos em mim. Não havia impaciência, nem o tom autoritário que eu esperava de um delegado acostumado a comandar operações.
Havia preocupação.
E isso me deixava muito mais desconfortável.
Dei um passo para trás.
— Não.
Ele piscou lentamente.
— Não?
— Eu disse que não.
Guardei o celular dentro da mochila antes que ele percebesse o quanto minhas mãos tremiam. O aparelho quase escorregou entre meus dedos, mas consegui fechá-la rapidamente.
Cruzei os braços.
Era uma tentativa inútil de parecer firme.
Conrado percebeu.
Eu sabia que percebeu.
Mesmo assim, não comentou.
— Eva...
— Eu sei me cuidar.
Minha voz saiu mais firme do que eu imaginava.
— Faz vinte e quatro anos que moro aqui. Conheço essas ruas melhor do que qualquer mapa.
Olhei para a viela estreita atrás dele.
As paredes cheias de grafites.
Os fios elétricos formando um emaranhado sobre nossas cabeças.
As casas construídas umas sobre as outras.
Eu conhecia cada detalhe daquele lugar.
Sabia quais escadas ficavam escorregadias quando chovia.
Sabia onde os cachorros costumavam dormir durante a tarde.
Sabia qual padaria fazia o melhor pão e qual mercadinho vendia fiado para quem realmente precisava.
A comunidade era minha casa.
Mesmo quando parecia querer me expulsar.
— Sei quando alguma coisa está errada — continuei. — Sei quais caminhos evitar. Sei quando é melhor voltar para casa mais cedo.
Conrado permaneceu imóvel.
— Reconhecer o perigo não impede que ele aconteça.
As palavras atingiram um ponto que eu tentava ignorar desde a ligação.
Porque ele tinha razão.
Eu reconhecera o perigo.
Mesmo assim, homens desconhecidos haviam descoberto meu endereço.
Tinham meu número.
Sabiam minha rotina.
Ainda assim...
Balancei a cabeça.
— E aparecer andando comigo vai resolver?
Ele não respondeu imediatamente.
Seu olhar percorreu o alto dos telhados, depois voltou para mim.
— Talvez não.
A sinceridade me pegou de surpresa.
Eu esperava uma resposta pronta.
Uma garantia.
Qualquer coisa.
Em vez disso, ele admitia que não tinha certeza.
Aquilo tornava tudo mais real.
— Então por que insiste?
Ele respirou fundo antes de responder.
— Porque não gosto de esperar o pior acontecer para agir.
A frase saiu simples.
Sem efeito dramático.
Mas havia alguma coisa nela.
Uma experiência antiga.
Como se ele estivesse falando de alguém que não conseguiu salvar.
Observei seu rosto por alguns segundos.
As olheiras discretas.
A barba começando a crescer no fim do dia.
A expressão séria que parecia permanente.
Era estranho.
Quando ele entrou na padaria pela primeira vez, achei que fosse apenas mais um policial convencido de que meu sobrenome dizia tudo sobre mim.
Agora...
Já não tinha tanta certeza.
Ainda desconfiava dele.
Mas começava a perceber que existia mais por trás daquela postura rígida.
Mesmo assim, não podia aceitar sua ajuda.
— Se alguém vir nós dois juntos...
Olhei para a rua principal.
Alguns moradores caminhavam carregando sacolas de mercado.
Uma senhora regava vasos de plantas na varanda.
Um grupo de adolescentes ria sentado sobre um muro.
Pareciam distraídos.
Mas, na comunidade, ninguém realmente deixava de observar.
— Amanhã vão dizer que a irmã do Caio anda acompanhada de um delegado.
Conrado permaneceu em silêncio.
— Depois vão inventar que estou entregando meu irmão.
Minha garganta apertou.
— E aqui...
Olhei diretamente para ele.
— Rumores matam.
Dessa vez ele não rebateu.
Apenas passou a mão pela nuca, como se finalmente compreendesse uma parte da minha realidade.
— Você vive carregando um peso que não é seu.
Sorri sem humor.
— Bem-vindo ao sobrenome Borges.
As palavras escaparam antes que eu pudesse pensar.
Conrado pareceu refletir sobre aquilo.
— Você tem raiva dele.
Demorei alguns segundos para responder.
— Do meu irmão?
Ele assentiu.
Olhei para o chão.
Era uma pergunta complicada.
Porque amar Caio nunca foi difícil.
Difícil era conviver com tudo o que vinha junto.
— Eu tenho raiva das escolhas dele.
Minha voz saiu baixa.
— Porque cada escolha que ele fez acabou sobrando para mim.
Conrado não desviou os olhos.
Escutava.
Apenas isso.
Sem interromper.
Sem julgar.
Era estranho ser ouvida daquela forma.
Continuei antes que mudasse de ideia.
— Quando eu era criança, ninguém me chamava de Eva Borges.
Era só Eva.
A menina que ajudava na festa junina.
Que vendia bolo para arrecadar dinheiro para a escola.
Que sonhava em fazer faculdade.
Sorri de leve ao lembrar.
— Depois ele cresceu.
Entrou para o crime.
E tudo mudou.
Respirei fundo.
— Hoje ninguém pergunta quem eu sou.
Perguntam de quem eu sou irmã.
O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que qualquer resposta.
Conrado abaixou a cabeça por um instante.
— Deve ser cansativo.
Ri sem vontade.
— Você não faz ideia.
Ao longe, uma moto acelerou, quebrando a tranquilidade da rua.
Esperei o som desaparecer.
Depois ajeitei a mochila nos ombros.
— Obrigada pela preocupação.
Ele ergueu o rosto.
— Mas eu não posso aceitar.
Passei ao lado dele.
Dessa vez, senti seu perfume discreto.
Cheiro de sabonete e café.
Estranhamente comum.
Estranhamente humano.
— Eva.
Parei sem me virar.
— Só me promete uma coisa.
Fechei os olhos por um segundo.
— Depende.
— Se acontecer qualquer coisa...
Ele fez uma pausa.
— Qualquer coisa.
Não tenta resolver sozinha.
Liga para mim.
Olhei para o cartão dentro da minha mão.
Nem percebi que ainda o segurava.
Passei o polegar sobre o nome impresso.
Conrado Almeida.
Delegado de Polícia.
Era apenas um pedaço de papel.
Mas parecia muito maior do que isso.
Sem responder, guardei-o na mochila.
Depois continuei andando.
Não olhei para trás.
Mas tive a estranha sensação de que ele permaneceu parado na mesma esquina, observando até que eu desaparecesse entre as vielas da comunidade.
Só quando dobrei a última esquina tive coragem de olhar para trás.
Conrado não estava mais lá.
Ainda assim, a sensação de estar sendo observada permaneceu.
Apertei a alça da mochila e continuei caminhando.
As ruas da comunidade nunca ficavam completamente silenciosas. Sempre havia alguém conversando na calçada, uma televisão ligada em volume alto ou o cheiro de alguma comida escapando pelas janelas abertas. Era um lugar vivo, pulsante.
Naquela noite, porém, tudo parecia diferente.
As conversas eram mais baixas.
Os risos, mais contidos.
Até os homens que faziam a segurança das entradas do morro pareciam mais atentos do que o normal.
A notícia de que gente de fora estava circulando pela comunidade já havia se espalhado.
Ninguém dizia isso em voz alta.
Mas todos sabiam.
Passei por Dona Celeste, que recolhia as roupas do varal antes que a garoa voltasse.
— Boa noite, minha filha.
Forcei um sorriso.
— Boa noite.
Ela segurou meu braço por um instante.
— Vai direto para casa hoje.
Meu peito apertou.
Nem ela explicou o motivo.
Nem eu perguntei.
As duas entendíamos.
Assenti apenas com a cabeça e segui andando.
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Tia Marta já me esperava acordada.
A panela de sopa ainda fumegava sobre o fogão.
Assim que entrei, ela levantou os olhos do bordado que fazia todas as noites.
— Você demorou.
Tentei sorrir.
— Passei na venda do seu Orlando.
Era uma mentira fraca.
Ela percebeu imediatamente.
Minha tia nunca precisou que eu dissesse as coisas.
Bastava olhar para mim.
— O que aconteceu?
Larguei a mochila ao lado da cadeira e me sentei devagar.
O cheiro da sopa normalmente me trazia conforto.
Naquela noite, m*l consegui senti-lo.
Contei tudo.
As ligações.
Os homens que procuravam Caio.
O encontro com Conrado.
As palavras dele.
Enquanto eu falava, tia Marta permanecia em silêncio, segurando a caneca entre as mãos.
Quando terminei, ela suspirou profundamente.
— Esse delegado parece preocupado com você.
Baixei os olhos.
— Também achei.
— E isso é r**m?
Sorri sem humor.
— Dependendo de quem estiver olhando... muito.
Ela franziu a testa.
— Você não confia nele.
Demorei alguns segundos para responder.
— Não é isso.
— Então o que é?
Passei os dedos pela borda da mesa.
— Se alguém me vir andando com um delegado...
Respirei fundo.
— Amanhã a comunidade inteira vai dizer que estou entregando o Caio.
Ela não respondeu.
Sabia que eu estava certa.
Ali, uma história m*l contada ganhava vida própria.
E, quando isso acontecia, era impossível controlar as consequências.
— Mesmo assim... — disse ela, por fim. — Você não pode enfrentar isso sozinha.
Meu sorriso desapareceu.
— Todo mundo continua dizendo a mesma coisa.
Minha tia segurou minha mão.
— Porque todo mundo está vendo o mesmo medo.
Engoli em seco.
Não queria admitir.
Mas fazia dias que eu vivia assustada.
Dormia pouco.
Comia quase nada.
Qualquer carro desacelerando na rua fazia meu coração disparar.
E, pela primeira vez desde que tudo começara, aquele medo deixava de ser apenas meu.
Eles sabiam onde eu morava.
Tia Marta também corria perigo.
---
Mais tarde, deitada na cama, tentei ler algumas páginas de um livro.
Não consegui.
As palavras embaralhavam diante dos meus olhos.
Fechei o livro.
Apaguei a luz.
Mesmo no escuro, continuei acordada.
O relógio marcava quase meia-noite quando ouvi um ruído vindo da frente da casa.
Um impacto seco.
Levantei a cabeça imediatamente.
Fiquei imóvel.
Silêncio.
Talvez tivesse sido um gato.
Ou o vento.
Estava prestes a me deitar novamente quando ouvi outro barulho.
Mais forte.
Como algo batendo contra o portão.
Meu coração acelerou.
Saí da cama sem fazer ruído.
Abri a porta do quarto devagar e caminhei pelo corredor escuro.
A casa inteira parecia prender a respiração comigo.
Olhei para a porta do quarto da tia Marta.
Continuava fechada.
Ela não tinha acordado.
Melhor assim.
Aproximei-me da janela da sala e afastei a cortina apenas alguns centímetros.
A rua estava vazia.
O poste da esquina piscava de tempos em tempos, lançando sombras irregulares sobre o asfalto.
Esperei.
Um minuto.
Dois.
Nada.
Quando meus olhos já começavam a se acostumar com a escuridão, algo branco chamou minha atenção.
Havia um envelope preso entre as grades do portão.
Meu estômago se contraiu.
Olhei novamente para os dois lados da rua.
Nenhum carro.
Nenhuma pessoa.
Mesmo assim, tive a sensação incômoda de que alguém ainda me observava.
Peguei a chave da porta.
Hesitei.
A voz de Conrado ecoou na minha cabeça.
"Não tente resolver sozinha."
Fechei os olhos por um instante.
Era só um envelope.
Respirei fundo e destranquei a porta.
O ar frio da madrugada arrepiou minha pele.
Desci os três degraus da varanda rapidamente.
Cada segundo do lado de fora parecia longo demais.
Arranquei o envelope das grades e voltei quase correndo para dentro.
Tranquei a porta.
Só então percebi que minhas mãos tremiam.
Sentei-me à mesa da cozinha antes de abri-lo.
Dentro havia apenas uma fotografia.
Reconheci a cena imediatamente.
Era eu.
Saindo da padaria naquela manhã.
A imagem havia sido tirada do outro lado da rua, escondida entre os carros estacionados.
Alguém me observava havia muito mais tempo do que eu imaginava.
Virei a fotografia.
No verso, letras recortadas de revistas formavam uma frase.
"Nós estaremos sempre um passo atrás de você."
Atrás.
Não à frente.
Atrás.
Como uma sombra.
Como alguém que seguia cada movimento meu.
A fotografia escapou dos meus dedos e caiu sobre a mesa.
Meu peito apertou tanto que precisei apoiar as duas mãos na madeira para recuperar o ar.
Não era apenas uma ameaça.
Era um aviso.
Eles queriam que eu soubesse que podiam chegar até mim quando quisessem.
E que nenhuma porta, nenhum muro e nenhum cadeado seriam suficientes para impedir.
Minha mochila estava sobre a cadeira.
Quase sem pensar, abri o bolso da frente.
O cartão de Conrado apareceu entre meus dedos.
Passei o polegar sobre seu nome.
Durante longos segundos, fiquei olhando para o número.
Bastava uma ligação.
Ele atenderia.
Eu tinha certeza.
Meu dedo chegou a tocar a tela do celular.
Mas parei antes de discar.
Se chamasse a polícia, toda a comunidade saberia antes do amanhecer.
E, se isso acontecesse...
Eu não seria a única a pagar o preço.
Guardei o cartão novamente.
Pelo menos por aquela noite.
Mas uma verdade se instalou dentro de mim, impossível de ignorar.
Eu continuava recusando a ajuda de Conrado.
Só que, pela primeira vez desde que tudo começara, já não tinha certeza se fazia isso por coragem...
...ou por medo das consequências de confiar nele.