Eva
Eu sempre achei que o medo tinha um som.
Uma porta batendo.
Passos apressados atrás de você.
Uma ligação no meio da noite.
Mas descobri que o pior tipo de medo era aquele que chegava em silêncio.
Aquele que entrava pela janela enquanto você dormia.
Que se sentava à mesa com você durante o café.
Que fazia parte da sua rotina sem pedir permissão.
Desde a fotografia no portão, eu não conseguia mais olhar para minha própria casa da mesma forma.
Cada sombra parecia esconder alguém.
Cada carro parado na rua parecia estar esperando.
Cada desconhecido que passava devagar demais chamava minha atenção.
Eu odiava aquilo.
O pior era perceber que, aos poucos, eu estava me tornando exatamente o que eu mais temia.
Uma pessoa que vivia com medo.
— Você quase não comeu.
A voz da tia Marta me tirou dos pensamentos.
Olhei para o prato.
Ela tinha razão.
O pão continuava inteiro.
O café já estava frio.
Forcei um sorriso.
— Estou sem fome.
Ela me encarou por alguns segundos.
Minha tia nunca acreditava nas minhas desculpas.
— Eva.
Suspirei.
— Eu estou bem.
Ela soltou o ar devagar.
— Você sempre fala isso quando não está.
Não respondi.
Porque ela estava certa.
Mas admitir seria pior.
Eu não queria preocupar mais ninguém.
Já tinha gente demais pagando pelos problemas que não eram delas.
Levantei da mesa e peguei minha mochila.
— Vou trabalhar.
Tia Marta segurou meu braço antes que eu saísse.
— Promete que vai tomar cuidado?
A pergunta parecia simples.
Mas carregava muito mais peso do que deveria.
Olhei para ela.
Para os cabelos grisalhos.
Para o rosto que envelheceu tentando cuidar de mim.
— Prometo.
Era uma promessa que eu não sabia se conseguiria cumprir.
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A comunidade estava diferente.
Eu percebia nos pequenos detalhes.
As conversas diminuíam quando alguém desconhecido passava.
As pessoas olhavam mais para os carros.
Os homens que costumavam ficar nas esquinas estavam mais atentos.
Ninguém precisava explicar.
Todos sabiam.
Alguma coisa estava acontecendo.
Cheguei à padaria e encontrei seu Joaquim levantando a porta de metal.
— Bom dia, menina.
— Bom dia.
Ele me analisou rapidamente.
— Dormiu?
Sorri de lado.
— Mais ou menos.
— Imaginei.
Ele não perguntou mais nada.
Era uma das coisas que eu gostava nele.
Seu Joaquim sabia quando falar e quando apenas ficar por perto.
Entrei e comecei a organizar os pães.
Por alguns minutos, consegui fingir que a vida era normal.
Clientes entrando.
Pedidos sendo feitos.
O cheiro de café fresco tomando conta do ambiente.
Quase consegui esquecer.
Quase.
Até o momento em que três homens pararam do outro lado da rua.
Eles não entraram.
Não compraram nada.
Apenas ficaram olhando.
Meu corpo ficou tenso.
Seu Joaquim percebeu.
— Conhece eles?
Balancei a cabeça.
— Não.
Mas uma parte de mim sabia.
Não precisava conhecer.
Algumas pessoas carregavam perigo no jeito de ficar paradas.
Depois de alguns minutos, eles foram embora.
Só então consegui respirar novamente.
— Eva.
Olhei para seu Joaquim.
— Você precisa conversar com alguém.
Baixei os olhos.
— Eu sei.
Mas não sabia com quem.
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No começo da tarde, a comunidade inteira parecia mais quieta.
Eu estava entregando um saco de pão para uma cliente quando ouvi um barulho estranho vindo da rua.
Não era alto.
Não era uma explosão.
Era pior.
Era um silêncio repentino.
As pessoas pararam.
Como se todos tivessem entendido algo antes de mim.
Olhei pela janela.
E vi.
Um grupo de moradores reunido perto da entrada da rua.
Ninguém falava.
Ninguém se aproximava.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— O que aconteceu?
Seu Joaquim apareceu atrás de mim.
O rosto dele estava diferente.
Sério.
Preocupado.
Antes que ele respondesse, um menino entrou correndo na padaria.
— Dona Eva...
Ele estava pálido.
— Tem um homem lá fora.
Senti um frio percorrer meu corpo.
— Quem?
O menino engoliu em seco.
— Disseram que é para você ver.
Meu primeiro pensamento foi correr.
O segundo foi que eu não podia.
Porque fugir também significava admitir que eles tinham vencido.
Saí da padaria devagar.
A rua parecia parada.
Todos os olhos estavam sobre mim.
Então eu vi.
Na frente do portão da minha casa.
Um corpo.
Por alguns segundos, meu cérebro se recusou a entender.
Era como se minha mente estivesse tentando proteger meu corpo da realidade.
Mas eu sabia.
Eu sabia exatamente o que estava vendo.
Um homem.
Deitado no chão.
Sem vida.
E ao lado dele havia um pedaço de papel preso com uma faca na madeira do portão.
Meu estômago virou.
— Eva.
A voz de seu Joaquim veio atrás de mim.
Mas eu não conseguia responder.
Não conseguia tirar os olhos da cena.
Aquele homem não estava ali por acaso.
Ele estava ali para mim.
Para que eu visse.
Para que todos vissem.
Um dos moradores se aproximou.
— Ele era conhecido do Caio.
Meu coração apertou.
Claro.
Tinha que ser.
Tudo sempre voltava para o mesmo lugar.
Meu sobrenome.
Meu irmão.
Minha família.
Minha culpa.
— Não chega perto.
A voz firme veio atrás de mim.
Reconheci antes mesmo de olhar.
Conrado.
Virei lentamente.
Ele estava parado alguns metros atrás, acompanhado de dois policiais.
O rosto dele estava fechado.
Mas seus olhos...
Seus olhos estavam em mim.
Como se a primeira coisa que ele precisasse saber fosse se eu estava inteira.
— O que você está fazendo aqui?
Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.
Ele ignorou a pergunta.
Aproximou-se apenas o suficiente.
— Você está bem?
Quase ri.
Era uma pergunta absurda.
Havia um corpo na minha porta.
Como eu poderia estar bem?
Mesmo assim, respondi:
— Estou.
Ele me encarou.
A mesma expressão de sempre.
Aquela que dizia que ele sabia quando alguém estava mentindo.
— Não está.
Não era uma acusação.
Era uma constatação.
Desviei o olhar.
Um policial chamou Conrado.
Ele caminhou até o corpo.
Eu deveria ir embora.
Deveria entrar em casa.
Deveria fingir que aquilo não estava acontecendo.
Mas fiquei.
Porque aquela era a minha vida agora.
E eu precisava olhar para ela de frente.
Conrado analisou o local em silêncio.
Depois encontrou o papel preso no portão.
Retirou cuidadosamente.
Leu.
Sua expressão mudou.
Foi rápido.
Mas eu percebi.
— O que está escrito?
Ele demorou alguns segundos antes de responder.
Então olhou para mim.
— É uma mensagem.
Meu peito apertou.
— Para quem?
Conrado segurou meu olhar.
— Para você.
O mundo pareceu ficar menor.
— O que diz?
Ele fechou o papel na mão.
E, pela primeira vez desde que o conheci, vi algo diferente no rosto dele.
Não era desconfiança.
Não era investigação.
Era raiva.
Uma raiva controlada.
— Eles querem que você entenda uma coisa, Eva.
A voz dele ficou baixa.
— Isso não é mais uma ameaça contra o seu irmão.
Meu coração parou.
— É uma guerra contra a família dele.
Olhei novamente para o corpo em frente à minha casa.
E finalmente compreendi.
Rogério não queria apenas atingir Caio.
Ele queria destruir tudo que Caio amava.
E eu...
Eu era o caminho mais fácil até ele.