Capítulo 8

1290 Words
Eva Eu descobri que o medo era uma coisa silenciosa. Ele não gritava. Não avisava quando chegava. Apenas se instalava. Dormia comigo. Acordava comigo. Sentava ao meu lado durante o café da manhã. Mas eu me recusava a deixar que ele decidisse o resto da minha vida. Rogério queria me ver escondida. Queria que eu trancasse a porta, abandonasse meus estudos, parasse de trabalhar e passasse a esperar o próximo ataque. Ele queria me transformar em uma vítima. E eu não daria esse prazer a ele. Por isso, na manhã seguinte, coloquei minha roupa de trabalho, prendi o cabelo e saí de casa. Como sempre. Ou pelo menos tentei fingir que era. — Eva. A voz da tia Marta me fez parar antes de abrir o portão. Virei. Ela estava parada na porta, segurando uma caneca de café com as duas mãos. O olhar dela dizia tudo que a boca tentava esconder. — Você tem certeza? Suspirei. Eu sabia exatamente do que ela estava falando. — Tenho. Ela se aproximou. — Depois de tudo que aconteceu... — Justamente por isso. Minha resposta saiu rápida. Ela ficou em silêncio. Continuei: — Se eu parar agora, eles ganham. Minha tia baixou os olhos. Ela sabia que discutir comigo naquele momento seria inútil. — Promete que vai tomar cuidado? Segurei sua mão. — Prometo. Mas a verdade era que eu já não sabia o que significava estar segura. --- O caminho até a padaria pareceu diferente. Não porque as ruas haviam mudado. Mas porque eu havia mudado. Antes, eu caminhava pensando no que faria durante o dia. Agora, eu observava carros estacionados. Pessoas desconhecidas. Movimentos estranhos. Qualquer detalhe poderia ser uma ameaça. Quando cheguei à padaria, encontrei seu Joaquim abrindo a porta. Ele olhou para mim e imediatamente franziu a testa. — Você veio mesmo. Sorri de leve. — Bom dia para você também. Ele balançou a cabeça. — Não estou brincando, Eva. Entrei atrás dele. O cheiro de pão quente ainda era uma das poucas coisas no mundo capazes de me trazer alguma sensação de normalidade. — Eu preciso trabalhar. Ele fechou a porta atrás de nós. — Você precisa estar viva. A frase me atingiu. Olhei para ele. Seu Joaquim sempre foi como uma segunda família para mim. Foi ele quem me deu meu primeiro emprego. Quem me ensinou a atender clientes. Quem me ajudou quando eu precisava pagar alguma conta atrasada. — Eu não posso deixar minha vida parar. Ele passou a mão pelo rosto, preocupado. — Você é igual ao seu irmão nesse ponto. Meu corpo ficou rígido. — Não sou. Ele percebeu imediatamente. — Eu sei. Sua voz suavizou. — Mas vocês dois têm a mesma mania. — Qual? Ele apontou para mim. — Fingir que conseguem carregar o mundo inteiro nas costas. Não respondi. Porque talvez fosse verdade. --- A manhã começou tranquila. Quase normal. Clientes entrando. Crianças comprando doces antes da escola. Senhoras conversando enquanto esperavam o pão sair do forno. Por algumas horas, eu quase consegui esquecer. Quase. Seu Joaquim observava cada movimento da rua pela vitrine. Eu fingia não perceber. Mas percebia. Todos nós estávamos esperando alguma coisa. O problema era que ninguém sabia quando ela chegaria. Foi perto do meio-dia. Eu estava organizando algumas encomendas quando o sino da porta tocou. Levantei o rosto. E imediatamente soube. Aquelas pessoas não tinham entrado para comprar pão. Eram quatro homens. Roupas escuras. Expressões vazias. Nenhum deles olhou para os produtos. Nenhum deles olhou para os clientes. Eles olharam para mim. O ar pareceu desaparecer da padaria. Seu Joaquim deu um passo à frente. — Posso ajudar? O homem que parecia liderar o grupo sorriu sem humor. — Pode sair da frente. Meu coração acelerou. Alguns clientes perceberam o perigo e começaram a se afastar. Eu permaneci parada. Não por coragem. Mas porque minhas pernas simplesmente não respondiam. — O que vocês querem? O homem olhou ao redor. — Dar um recado. Então tudo aconteceu rápido demais. O primeiro disparo atingiu a vitrine. O som do vidro quebrando fez todos gritarem. As crianças começaram a chorar. As pessoas correram. Eu fiquei imóvel enquanto pedaços de vidro caíam pelo chão. Eles não estavam roubando. Não estavam procurando dinheiro. Era destruição. Apenas destruição. Um dos homens virou uma prateleira. Outro abriu uma gaveta e jogou documentos no chão. Então tirou um isqueiro. Meu sangue gelou. — Não. Minha voz saiu baixa. Ele acendeu. As chamas começaram a consumir os papéis. As contas da padaria. Os registros. Anos de trabalho. Tudo queimando diante dos meus olhos. Seu Joaquim tentou avançar. Eu segurei seu braço. — Não. Ele me olhou, furioso e desesperado. Mas sabia. Não podíamos fazer nada. Antes de sair, o homem que liderava o grupo parou na porta. Olhou diretamente para mim. — Diga ao Caio... Ele fez uma pausa. O sorriso frio apareceu. — Toda coisa que ele ama vai cair. Então foram embora. O silêncio que ficou depois parecia pior do que o barulho dos tiros. --- Eu não sei quanto tempo fiquei parada. Talvez minutos. Talvez horas. Em algum momento, as pessoas começaram a voltar. Chamaram ajuda. A polícia foi acionada. Mas eu continuava olhando para o chão. Para os restos da padaria. Para o lugar que durante anos tinha sido meu refúgio. Meu peito apertou. Eu queria chorar. Mas não conseguia. Porque se eu chorasse... Eu tinha medo de não conseguir parar. Sentei no chão entre os pedaços de vidro e abracei meus joelhos. Foi quando ouvi uma voz conhecida. — Eva. Não precisei olhar para saber quem era. Conrado. Levantei o rosto. Ele estava parado na entrada da padaria. O olhar dele percorreu o estrago. Depois voltou para mim. E, pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele não viu a mulher que respondia perguntas com firmeza. Não viu a irmã de Caio Borges. Não viu uma possível suspeita. Viu apenas uma mulher cansada. Uma mulher tentando não desmoronar. Ele se aproximou devagar. — Você está machucada? Balancei a cabeça. — Não. A resposta saiu automática. Ele olhou para minhas mãos tremendo. — Eva. Desviei o olhar. Eu odiava que ele percebesse. Odiava que alguém enxergasse. — Eu estou bem. Conrado ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou: — Você não precisa passar por isso sozinha. Meu peito apertou. Levantei. Mesmo destruída, ainda precisava manter alguma coisa de mim. — Eu não preciso que você me salve. Ele não pareceu ofendido. Apenas cansado. Aproximou-se um pouco mais. — Eu sei. Parei. Ele sustentou meu olhar. — Esse é o problema. Silêncio. — Você acha que precisa fazer tudo sozinha. As palavras tocaram uma parte de mim que eu tentava esconder. Porque talvez fosse verdade. Talvez eu tivesse passado tanto tempo tentando provar que não era como meu irmão que esqueci que até pessoas fortes precisavam de alguém. Olhei ao redor. Para a padaria destruída. Para o chão coberto de vidro. Para tudo que Rogério queria arrancar de mim. Minha voz saiu baixa. — Se eu aceitar ajuda... Conrado esperou. — Então eles vencem. Ele franziu levemente a testa. — Não. Deu mais um passo. — Aceitar que alguém fique ao seu lado não significa perder. Olhei para ele. Pela primeira vez, não encontrei um delegado. Encontrei alguém que realmente entendia o peso de carregar responsabilidades demais. Antes que eu pudesse responder, ouvi sirenes se aproximando. Conrado desviou o olhar para a rua. Mas antes de se afastar, disse: — Eu vou descobrir quem fez isso. Meu coração apertou. — Por quê? Ele voltou a me olhar. — Porque ninguém deveria ter que ver o próprio lar ser destruído e fingir que está tudo bem. E, pela primeira vez desde que Rogério entrou na minha vida... Eu não tive vontade de discutir.
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