Capítulo 9

1205 Words
Conrado Eu já tinha prendido homens perigosos antes. Homens que matavam por dinheiro. Por poder. Por vingança. Mas Rogério era diferente. Ele não queria apenas vencer uma guerra. Ele queria apagar tudo que lembrava o inimigo. E isso tornava tudo mais perigoso. Passei a madrugada inteira na delegacia, cercado por relatórios, fotografias e informações que pareciam formar um quebra-cabeça incompleto. No centro de tudo estava o mesmo nome. Rogério Vasconcelos. Um homem que, durante anos, conseguiu manter distância suficiente das autoridades para não ser preso, mas perto o bastante dos conflitos para lucrar com eles. Ele não era apenas um criminoso comum. Era estratégico. Paciente. E, principalmente, c***l. Henrique colocou uma pasta sobre minha mesa. — Conseguimos levantar algumas coisas. Peguei o arquivo. — Fala. Ele abriu a primeira página. — Rogério não quer o Morro da Esperança. Franzi a testa. — Tem certeza? — Tenho. Ele apontou para os documentos. — Se fosse apenas território, ele teria feito uma proposta. Teria tentado negociar. Teria procurado aliados. Continuei lendo. Empresas usadas como fachada. Transferências suspeitas. Nomes ligados a antigos conflitos. — Então o que ele quer? Henrique ficou em silêncio por alguns segundos. — Caio Borges. Olhei para ele. — Isso eu já sabia. — Não desse jeito. Ele puxou uma fotografia. Era uma imagem antiga de Caio. Muito mais jovem. Antes de se tornar o homem que todos temiam. — Rogério quer destruir a imagem dele. Olhei novamente para os relatórios. — Explica. — Ele não está atacando apenas os negócios. Está atacando pessoas próximas. Meu maxilar travou. A imagem de Eva surgiu imediatamente na minha cabeça. A garota na padaria. A mulher que fingia não ter medo. A mesma que encontrei naquela noite tentando convencer a si mesma de que ainda tinha controle da situação. — A família. Henrique assentiu. — Exatamente. Fiquei alguns segundos em silêncio. Eu havia passado anos tentando provar que Caio Borges era um criminoso. E ele era. Eu não tinha esquecido disso. Mas, pela primeira vez, comecei a enxergar algo que não estava nos relatórios. Um homem como Caio não tinha muitos pontos fracos. E Rogério sabia exatamente onde atacar. Eva. --- Voltei à padaria antes do meio-dia. Ainda havia marcas do ataque. Vidros quebrados. Prateleiras vazias. Funcionários tentando salvar o que restava. Aquele lugar, que antes parecia tão simples e comum, agora carregava o peso de uma ameaça. Vi Eva parada perto do balcão destruído. Ela segurava uma caixa de objetos queimados. Não chorava. Era isso que mais chamava atenção. Ela parecia determinada a não permitir que ninguém visse o quanto aquilo tinha machucado. — Senhorita Borges. Ela virou o rosto. Por um instante, seus olhos encontraram os meus. E eu vi. Não a mulher forte. Não a irmã de Caio Borges. Apenas Eva. Uma pessoa cansada. Assustada. Tentando continuar de pé. Mas o momento passou rápido. A expressão dela voltou a se fechar. — Delegado. Sempre aquela distância. Como se eu fosse uma ameaça também. Aproximei-me devagar. — Preciso fazer algumas perguntas. Ela soltou uma risada sem humor. — Claro. Olhou ao redor. — Mais perguntas. Ignorei a provocação. — Quantos homens entraram? — Quatro. — Reconheceu algum deles? — Não. — Disseram alguma coisa? Ela hesitou. Poucos segundos. Mas eu percebi. — Eva. Ela desviou o olhar. — Deixaram uma mensagem. — Qual? Sua mandíbula apertou. — "Toda coisa que Caio ama vai cair." O silêncio entre nós ficou pesado. Eu já imaginava. Mas ouvir dela tornava tudo mais real. — Você entende o que isso significa? Ela cruzou os braços. — Significa que eles querem assustar meu irmão. Balancei a cabeça. — Não. Ela me encarou. — Eles querem destruir você. A frase fez algo mudar no olhar dela. Por um instante, ela pareceu querer discordar. Mas não conseguiu. Porque sabia que era verdade. --- Passei o restante do dia analisando imagens das câmeras próximas à padaria. Rogério não estava tentando esconder as ações. Esse era o problema. Ele queria ser visto. Queria que Caio soubesse. Queria que todos soubessem. Cada ataque era uma mensagem. Cada ameaça era calculada. Quando saí da sala de investigação, encontrei Henrique esperando. — Descobrimos quem financiou os homens da padaria. Peguei o documento. — Quem? Ele entregou o nome. Não precisei ler duas vezes. Rogério. Tudo levava até ele. — Ele quer que Caio reaja. Henrique assentiu. — E quando Caio reagir, ele usa isso contra ele. Entendi imediatamente. Era uma armadilha. Rogério não queria apenas destruir Caio. Queria transformar qualquer reação dele em prova. Prender o inimigo. Destruir a reputação. Separar as pessoas que ainda acreditavam nele. E, no centro disso tudo, estava Eva. A única pessoa que ainda fazia Caio parecer humano. --- No fim do dia, voltei a encontrar Eva. Ela estava sentada na calçada em frente à padaria. O movimento já tinha diminuído. Ela segurava um copo de café entre as mãos. Sentei ao lado dela, deixando uma distância respeitosa. Por alguns segundos, nenhum de nós falou. Até que ela quebrou o silêncio. — Você veio dizer que eu estava certa? Olhei para ela. — Sobre o quê? — Que eu deveria aceitar sua ajuda. Neguei. — Não. Ela pareceu surpresa. — Não? — Não. Olhei para a rua. — Eu vim dizer que você não deveria passar por isso sozinha. Ela soltou o ar devagar. — É a mesma coisa. — Não é. Ela ficou em silêncio. Continuei: — Aceitar ajuda não significa ser fraca. Ela apertou o copo. — Você não entende. — Então me explica. Pela primeira vez, ela pareceu pensar antes de responder. — Toda minha vida as pessoas olharam para mim e enxergaram meu irmão. Ela engoliu em seco. — Quando algo acontece, eu sou a irmã do Caio. Quando alguém me ameaça, é porque eu sou importante para ele. Quando alguém me protege, é porque eu sou uma peça no jogo dele. Olhei para ela. — E o que você quer que enxerguem? A pergunta pareceu pegá-la desprevenida. Demorou alguns segundos para responder. — Eu só queria ser Eva. A resposta foi simples. Mas carregava anos de dor. Naquele momento, entendi algo que eu não tinha entendido antes. Ela não defendia Caio porque concordava com tudo que ele fazia. Ela não escondia informações porque fazia parte daquele mundo. Ela protegia porque amava. Era diferente. Muito diferente. Eu passei anos procurando uma ligação entre Eva e os crimes do irmão. Mas talvez a ligação fosse apenas sangue. Família. E amor. Coisas que nem sempre podiam ser explicadas em relatórios. --- Antes de ir embora, parei diante dela. — Eva. Ela levantou os olhos. — Rogério não vai parar. Ela assentiu. Eu sabia que ela já tinha entendido. — Mas eu também não. Ela ficou me olhando. — Por quê? Eu poderia responder que era meu trabalho. Que era minha obrigação. Mas não era apenas isso. Ainda não. — Porque ninguém deveria ser destruído apenas para atingir outra pessoa. Ela não disse nada. Apenas me observou. Quando saí dali, percebi uma coisa que me incomodou mais do que qualquer investigação. Eu ainda queria prender Caio Borges. Isso não havia mudado. Mas agora eu também queria proteger Eva. E as duas coisas começavam a parecer cada vez mais difíceis de separar.
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