Capítulo 10

1139 Words
Eva Eu me recusei a desistir. Talvez fosse teimosia. Talvez fosse orgulho. Ou talvez fosse a única forma que encontrei de não deixar Rogério vencer. Porque era isso que ele queria. Que eu parasse. Que eu abandonasse minha rotina. Que eu olhasse para cada canto da rua e enxergasse apenas medo. Mas eu já tinha perdido coisas demais na vida para entregar também aquilo que ainda era meu. Minha faculdade. Meus planos. Meu futuro. Eu não podia deixar que homens como ele decidissem quem eu seria. --- Tia Marta percebeu assim que entrei na cozinha naquela manhã. O olhar dela foi direto para minha mochila. Depois para mim. — Você vai mesmo? Coloquei a xícara de café sobre a mesa. — Vou. Ela suspirou. — Eva... — Eu preciso. Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Se eu parar de ir à faculdade, se eu parar de trabalhar, se eu parar de sair de casa... então eles já conseguiram o que queriam. Ela ficou em silêncio. Porque sabia que eu tinha razão. Mas também sabia o risco. Desde o ataque à padaria, tudo parecia ter mudado. As pessoas olhavam diferente. Os vizinhos falavam mais baixo quando eu passava. Os homens que faziam a segurança da comunidade estavam mais atentos. E eu sentia. Sentia que algo pior ainda estava por vir. Mesmo assim, peguei minha mochila. — Eu volto no fim da tarde. Tia Marta segurou minha mão antes que eu saísse. — Promete que vai tomar cuidado? Olhei para ela. A única pessoa que sempre ficou. — Prometo. --- O ônibus estava mais cheio do que o normal. Estudantes. Trabalhadores. Pessoas indo e vindo como em qualquer outro dia. Era estranho perceber como o mundo continuava funcionando enquanto o meu parecia estar desmoronando. Sentei perto da janela. Coloquei a mochila no colo e tentei me concentrar nas aulas que teria naquele dia. Tentei fingir que era uma manhã comum. Quase consegui. Até perceber o carro. Preto. Vidros escuros. A mesma sensação que eu já conhecia. Meu corpo inteiro ficou alerta. O veículo estava atrás do ônibus. Coincidência. Poderia ser. Eu queria acreditar. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que não era. Continuei olhando pelo reflexo da janela. O carro permanecia ali. Mesma velocidade. Mesma distância. Meu coração começou a acelerar. Peguei o celular discretamente. Pensei em ligar para Conrado. Parei. Eu ainda conseguia ouvir a voz dele. "Você não vai dar mais um passo sozinha." E eu também conseguia ouvir a minha. "Eu não preciso que você me salve." Eu não queria depender dele. Não queria depender de ninguém. Guardei o celular. Foi quando tudo aconteceu. O carro acelerou. Passou pelo ônibus. E, poucos metros depois, atravessou na frente dele. O motorista precisou frear bruscamente. Os passageiros gritaram. Algumas pessoas caíram dos bancos. Antes que alguém entendesse o que estava acontecendo, duas portas do carro preto se abriram. Homens saíram. Meu sangue gelou. Não era um assalto. Eles não olharam para bolsas. Nem celulares. Eles olharam para mim. Um deles apontou. — É ela. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Levantei. Peguei minha mochila. Corri para o fundo do ônibus. — Sai da frente! Alguém gritou. As pessoas começaram a se afastar. O homem entrou. — Eva Borges. Ouvir meu nome na boca dele foi pior do que qualquer ameaça. — Não chega perto. Ele sorriu. — Não dificulta. Eu recuei. Não havia para onde ir. As portas estavam bloqueadas. As janelas eram altas demais. E todos ao meu redor estavam assustados. Quando ele tentou segurar meu braço, eu reagi. Empurrei com toda a força. Ele não esperava. Perdeu o equilíbrio por um instante. Foi o suficiente. Corri. Desci do ônibus pela porta traseira assim que ela abriu. Meus pés tocaram o asfalto. Comecei a correr. Ouvi passos atrás de mim. Um deles gritou. — Pega ela! Meu coração parecia querer sair do peito. Eu sabia que não conseguiria correr para sempre. Mas precisava de alguns segundos. Só alguns. Uma mão agarrou minha mochila. O puxão me fez cair no chão. A dor atravessou meu joelho. Segurei o grito. O homem tentou me levantar. Foi quando ouvi uma voz. — Solta ela. Tudo parou. Até eu. Aquela voz. Conrado. O homem virou. E eu vi algo que nunca tinha visto antes. O delegado que sempre parecia controlar tudo. Desapareceu. No lugar dele estava um homem furioso. Perigoso. Os olhos escuros estavam presos nos sequestradores. — Eu mandei soltar. Mais dois carros chegaram. Policiais saíram rapidamente. Os homens perceberam que não tinham mais vantagem. Um deles tentou correr. Não conseguiu. Em poucos segundos, tudo acabou. Mas eu m*l conseguia prestar atenção. Porque Conrado estava vindo até mim. E havia algo diferente no rosto dele. Não era investigação. Não era desconfiança. Era medo. Ele se ajoelhou na minha frente. — Você está machucada? Balancei a cabeça. — Estou bem. Ele olhou meu joelho ferido. Depois minhas mãos tremendo. A mandíbula dele travou. — Não. Eu franzi a testa. — Não? Ele passou a mão pelo rosto, frustrado. — Não está tudo bem. Fiquei em silêncio. Nunca tinha visto Conrado daquele jeito. Tão perto de perder o controle. — Eu avisei que eles iam tentar. A frase saiu baixa. Não como uma acusação. Como culpa. Olhei para ele. — E eu avisei que não queria viver presa. Por alguns segundos, nenhum de nós falou. O vento passou pela rua. As pessoas ao redor se afastavam. E, pela primeira vez, eu não via apenas o delegado. Eu via o homem. Um homem que estava carregando a culpa de algo que não era responsabilidade dele. Ele respirou fundo. — Eu devia ter previsto. Balancei a cabeça. — Você não pode prever tudo. — Eu deveria ter tentado. A sinceridade na voz dele me desarmou. Porque eu entendi. Ele não estava bravo comigo. Estava bravo consigo mesmo. — Conrado... Ele levantou os olhos. — Eu não quero ser uma prisioneira, sendo que não fiz nada de errado. Ele ficou em silêncio. Continuei: — Minha vida inteira as pessoas decidiram o que era melhor para mim. Meu irmão. Minha família. Agora você. Ele abaixou o olhar por um instante. — Eu sei. A resposta me surpreendeu. — Sabe? Ele assentiu. — Eu sei porque estou fazendo a mesma coisa. Franzi a testa. Ele respirou fundo. — Estou tentando proteger você sem perceber que também estou tirando suas escolhas. Pela primeira vez, não tive uma resposta pronta. Porque era exatamente isso. Ele não entendia minha necessidade de liberdade. Eu não entendia o medo dele de me perder. Talvez os dois estivessem errados. Talvez os dois estivessem certos. Conrado levantou devagar. Estendeu a mão para mim. Dessa vez, eu aceitei. Não porque precisava ser salva. Mas porque, pela primeira vez, eu permiti que alguém ficasse ao meu lado. E aquilo era muito diferente.
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