Eva
Eu não lembrava da última vez que tinha saído para me divertir.
Não para trabalhar.
Não para estudar.
Não para sobreviver.
Apenas para viver.
Foi exatamente por isso que hesitei quando Duda apareceu na porta de casa.
— Você vai comigo.
Continuei dobrando uma blusa, fingindo que não tinha ouvido.
— Não vou.
— Vai, sim.
— Duda...
Ela entrou no quarto sem pedir licença e tirou a roupa das minhas mãos.
— Você está deixando o medo mandar na sua vida.
Fiquei em silêncio.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Hoje tem baile na quadra. O morro inteiro vai estar lá. Música, comida, gente conhecida... Você precisa lembrar como é viver antes que seja tarde.
A palavra "tarde" ficou ecoando na minha cabeça.
Nos últimos dias eu só existia.
Padaria.
Faculdade.
Casa.
Sempre olhando para trás.
Sempre desconfiando de qualquer desconhecido.
Sempre esperando que alguma coisa acontecesse.
Talvez Duda tivesse razão.
Talvez, se eu continuasse me escondendo, quem estivesse tentando destruir minha vida já estivesse vencendo.
Suspirei.
— Uma hora.
Ela sorriu.
— Fechado.
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Escolhi um vestido preto que estava esquecido no fundo do guarda-roupa.
Simples.
Na altura dos joelhos.
Sem brilho.
Prendi o cabelo apenas pela metade e passei uma maquiagem discreta.
Quando terminei, fiquei alguns segundos encarando meu reflexo.
Era estranho.
Fazia semanas que eu só me olhava para conferir se parecia cansada.
Naquela noite, pela primeira vez, pensei apenas se estava bonita.
Sorri de leve.
A sensação durou pouco.
Meu celular vibrou.
Número desconhecido.
Meu coração acelerou.
Abri a mensagem.
"Divirta-se."
Só isso.
Nenhum nome.
Nenhuma explicação.
O sorriso desapareceu imediatamente.
Mostrei a tela para Duda.
Ela franziu a testa.
— Quem mandou?
— Não sei.
Ela ficou alguns segundos pensando.
— Pode ser engano.
Olhei novamente para a mensagem.
Não.
Aquilo não parecia um engano.
Apaguei o celular e o coloquei na bolsa.
— Vamos.
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O baile ocupava toda a quadra da comunidade.
As caixas de som faziam o chão vibrar.
Luzes coloridas cruzavam o céu.
Barracas vendiam churrasco, pastel e refrigerante.
O cheiro de carvão misturava-se ao perfume doce das meninas e ao aroma de pipoca.
Crianças corriam entre as mesas.
Senhoras conversavam perto da entrada.
Rapazes riam encostados nas motos.
Era impossível olhar para aquele lugar e imaginar que, do lado de fora, existia uma guerra silenciosa.
Duda segurou minha mão.
— Está vendo?
Olhei ao redor.
Havia vida.
Risadas.
Música.
Gente comum tentando esquecer os próprios problemas por algumas horas.
Meu peito relaxou.
Pela primeira vez em dias.
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Passamos quase uma hora andando entre as barracas.
Comemos espetinhos.
Depois dividimos um copo enorme de açaí.
Duda ria de alguma história do trabalho quando senti um arrepio percorrer minha nuca.
Instintivamente olhei para trás.
Nada.
Apenas pessoas dançando.
Continuei ouvindo Duda.
Dois minutos depois, a sensação voltou.
Alguém me observava.
Passei os olhos lentamente pelo salão.
Foi então que encontrei um homem parado perto da entrada.
Boné preto.
Braços cruzados.
Ele não conversava.
Não dançava.
Não olhava para o palco.
O olhar estava fixo em mim.
Meu estômago apertou.
Piscar foi suficiente.
Quando procurei novamente...
Ele havia desaparecido.
— Eva?
Duda estalou os dedos na minha frente.
— Onde você foi?
Forcei um sorriso.
— Em lugar nenhum.
Mas minha atenção já não estava mais ali.
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Decidimos nos aproximar da pista.
A música mudou.
As pessoas começaram a cantar juntas.
Por alguns minutos, consegui esquecer o homem.
Dancei.
Ri.
Até desafinei acompanhando a letra.
Quando terminei de rir de mim mesma, ouvi uma voz conhecida.
— Achei que você não gostasse de festas.
Virei imediatamente.
Conrado.
Ele estava sem o paletó.
Usava uma camisa preta de mangas dobradas e calça jeans escura.
Se não fosse pelo porte e pela postura, passaria despercebido entre qualquer homem da festa.
Arqueei uma sobrancelha.
— Delegado...
Ele fez uma careta.
— Hoje não.
— Como?
— Aqui eu prefiro ser apenas Conrado.
Aquilo me pegou desprevenida.
Cruzei os braços.
— Continua me seguindo?
Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.
— Você realmente acredita nisso?
— Ainda não encontrei outra explicação.
Ele olhou rapidamente ao redor antes de responder.
— Às vezes as coincidências existem.
Segui seu olhar.
Ele não estava admirando o baile.
Estava analisando cada canto da quadra.
Cada saída.
Cada grupo de pessoas.
Meu sorriso desapareceu.
— Você está trabalhando.
Ele não negou.
— Digamos que estou atento.
— Atento a quê?
Conrado demorou alguns segundos para responder.
— Espero estar errado.
Aquela resposta fez meu estômago gelar.
Olhei discretamente para trás.
O homem do boné não estava mais lá.
Ou talvez estivesse.
No meio de tanta gente, era impossível ter certeza.
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— Você não consegue desligar, consegue?
Perguntei.
Ele soltou um riso baixo.
— Engraçado ouvir isso de alguém que passou os últimos dias olhando para trás a cada dez passos.
Fiquei em silêncio.
Ele tinha percebido.
Claro que tinha.
Conrado me conhecia menos de uma semana.
Mesmo assim, parecia notar detalhes que nem meus amigos percebiam.
— Você está assustada.
A afirmação saiu baixa.
Quase gentil.
Balancei a cabeça.
— Estou cansada.
Ele sustentou meu olhar.
— Não é a mesma coisa.
Antes que eu encontrasse uma resposta, Duda apareceu.
— Então era verdade.
Olhei para ela.
— O quê?
— Diziam que o delegado bonito vivia rondando a padaria.
Quase engasguei.
Conrado baixou a cabeça, escondendo um sorriso.
— Agora estou entendendo por que ela vive fugindo de mim.
— Ela foge de todo mundo — respondeu Duda.
— Duda!
Ela deu de ombros.
— Estou mentindo?
Não consegui responder.
Porque não estava.
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A música mudou outra vez.
Um casal começou a dançar no centro da quadra.
Duda segurou minha mão.
— Vamos.
Neguei imediatamente.
Ela fez cara de quem não aceitaria um "não".
— Você vai.
— Eu não sei dançar isso.
— Aprende.
Antes que eu pudesse protestar, Duda desapareceu no meio da multidão.
Fiquei parada, completamente sem graça.
Conrado me observava com um brilho divertido nos olhos.
— Problema?
— Ela me abandonou.
— Vejo isso.
Sorri pela primeira vez desde que ele chegara.
— Não ria.
— Não estou rindo.
Estava.
E eu também.
Por alguns segundos, tudo pareceu normal.
A música.
As luzes.
As pessoas.
Até que Conrado deixou de sorrir.
Seu olhar passou por cima do meu ombro.
Mudou completamente.
Frio.
Concentrado.
Alerta.
Meu coração acelerou.
— O que foi?
Ele não respondeu.
Continuava olhando para algum ponto atrás de mim.
Lentamente, virei a cabeça.
Na entrada da quadra, três homens haviam acabado de chegar.
Vestiam bonés.
Nenhum deles parecia interessado na festa.
Os três observavam o ambiente.
Como se procurassem alguém.
Ou confirmassem que essa pessoa realmente estava ali.
Sem desviar os olhos deles, Conrado falou tão baixo que apenas eu consegui ouvir.
— Eva...
— O quê?
— Quero que você faça exatamente o que eu mandar.
Senti um nó se formar na garganta.
— Por quê?
Ele finalmente olhou para mim.
A expressão séria apagava qualquer vestígio do homem que sorria havia poucos segundos.
— Porque acho que eles vieram por você.