Capítulo 13

906 Words
Conrado A multidão era o maior problema. Centenas de pessoas. Música alta. Luzes piscando. Qualquer tentativa de abordar aqueles homens ali dentro terminaria em pânico. Mantive os olhos fixos neles. Três. Um permaneceu perto da entrada. Outro caminhou lentamente em direção às barracas de comida. O terceiro seguiu pela lateral da quadra, como se apenas procurasse um lugar melhor para assistir ao baile. Não. Aquilo não era aleatório. Estavam se posicionando. Olhei discretamente para Eva. Ela acompanhava meus movimentos, mas ainda não havia percebido o que eu estava vendo. Melhor assim. O medo fazia as pessoas tomarem decisões impulsivas. Aproximei-me um pouco mais. — Escuta com atenção. Ela ergueu os olhos para mim. — O quê? — Daqui a pouco você vai dizer para sua amiga que precisa ir ao banheiro. Ela franziu a testa. — Agora? — Sim. — Mas... — Sem discutir. Houve um instante de hesitação. Depois ela assentiu. Era a primeira vez que obedecia sem questionar. Isso só aumentou minha preocupação. Eva havia entendido que alguma coisa estava errada. Duda voltou naquele momento, segurando dois copos de refrigerante. — Demorei? Eva olhou rapidamente para mim antes de responder. — Eu... preciso ir ao banheiro. — Eu vou com você. — Não precisa. Duda estranhou. — Tem certeza? — Tenho. Ela ainda pareceu desconfiada, mas acabou concordando. Esperei Eva dar alguns passos antes de acompanhá-la, mantendo uma distância discreta. Não queria chamar atenção. O homem perto da entrada continuava parado. Os outros dois mudavam de posição devagar, sempre mantendo a quadra sob observação. Quando Eva entrou no corredor que levava aos banheiros, aproximei-me. — Continua andando. Ela nem virou o rosto. — Eles estão atrás de mim, não estão? A pergunta saiu quase num sussurro. Respirei fundo. Não adiantava mais esconder. — Ainda não tenho provas. — Mas acredita que sim. — Acredito. Ela permaneceu em silêncio. Pude perceber seus ombros enrijecendo. — Quem são eles? — Ainda não sei. — Então como sabe? Olhei rapidamente para trás. O homem da entrada havia desaparecido. Meu estômago afundou. — Porque ninguém entra em um baile olhando apenas para uma pessoa. Eva parou de andar. Segurei delicadamente seu braço. — Não para. Ela respirou fundo e voltou a caminhar. Peguei discretamente o celular no bolso. Enviei uma mensagem curta para Henrique. "Quadra do Morro. Três suspeitos. Preciso de apoio discreto. Sem sirenes." A resposta veio quase instantaneamente. "Dez minutos." Dez minutos. Tempo demais. --- Chegamos perto dos banheiros. Havia menos gente naquela parte da quadra. Ruim. Poucas testemunhas. Olhei novamente ao redor. Nenhum dos três homens. Isso era pior do que vê-los. Significava que tinham saído do meu campo de visão. — Conrado... A voz de Eva saiu baixa. — Eu estou com medo. Olhei para ela. Era a primeira vez que a ouvia admitir aquilo. Não tentou parecer forte. Não tentou esconder. Apenas falou a verdade. — Eu sei. Ela fechou os olhos por um segundo. — Eu achei que estava imaginando tudo. Balancei a cabeça. — Não estava. Ela respirou devagar. — Você acredita em mim agora? A pergunta me atingiu em cheio. Porque eu entendia o verdadeiro significado dela. Ela não perguntava sobre os homens. Perguntava sobre todos os dias anteriores. Sobre cada vez que eu suspeitei dela. Sobre cada interrogatório. Sobre cada olhar desconfiado. — Sim. Ela abaixou a cabeça. — Demorou. — Demorou. Não procurei desculpas. Não havia nenhuma. --- Um movimento chamou minha atenção. Dois homens surgiram na extremidade do corredor. Não eram os mesmos. Usavam moletons com capuzes. Conversavam entre si. Passaram por nós sem sequer olhar em nossa direção. Mesmo assim, minha mão permaneceu próxima à arma escondida sob a camisa. Eva percebeu. — Você anda armado até em festa? — Nunca sei quando vou precisar. Ela soltou uma risada nervosa. — Acho que hoje eu descobri. Antes que eu respondesse, meu telefone vibrou. Henrique. Atendi imediatamente. — Fala. — Encontramos um dos veículos usados pelos suspeitos. — Onde? — A duas ruas da quadra. Olhei discretamente para a saída lateral. Era perto demais. — Quantos homens? — Pelo menos quatro. Meu sangue gelou. Quatro. Na quadra eu havia visto três. Faltava um. — Conrado? A voz de Henrique ficou mais séria. — O quarto homem não está no carro. Meu instinto reagiu antes da razão. Virei imediatamente para o salão principal. Passei os olhos pela multidão. Casais dançando. Crianças brincando. Adolescentes filmando o palco. Então encontrei. Bem no centro da pista. Um homem usando um boné branco. Parado. Imóvel. Enquanto todos dançavam ao redor. Ele não olhava para o palco. Nem para a banda. Olhava apenas para Eva. Levantou lentamente a mão até a orelha, como se ajustasse um ponto eletrônico. E falou alguma coisa. No mesmo instante, os outros três homens voltaram a aparecer em pontos diferentes da quadra. Não estavam atacando. Estavam fechando os caminhos. Como caçadores cercando uma presa. Segurei a mão de Eva antes que ela percebesse. — Nós vamos sair daqui agora. Ela olhou para mim, confusa. — O que... — Não olha para trás. Sua expressão mudou imediatamente. Ela confiou em mim. Sem perguntas. Sem hesitar. Começamos a caminhar em direção à saída dos fundos. Mas demos apenas cinco passos. As luzes da quadra se apagaram completamente. A música parou. E, por um segundo, o silêncio foi ainda mais assustador do que qualquer disparo. Porque alguém tinha acabado de cortar a energia. E aquilo não fazia parte de nenhuma festa.
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