Capítulo 22: A Máscara de Supay

2682 Words
Peru, Paraíso Thais já tinha visto muitas montanhas em sua vida e morte. Já as vira cobertas de árvores e neve. Todavia, nada se comparava com a Cordilheira dos Andes. Thais não sabia explicar, mas de onde estavam via as montanhas num tom de lápis-lazúli com a neve no topo. A água parada do oceano refletia as montanhas, parecia até que havia montanhas de ponta-cabeça. Parecia a capa de um livro de romance clichê. A bússola de ouro em sua mão apontava para frente, algum lugar diretamente a frente deles. Jared, que guiava o barco, acelerava praticamente em linha reta, desviando aqui e ali de uma pedra ou coral que subia mais alto. De repente, a bússola virou para trás, indicando que eles tinham passado do objetivo. – Pare! – Thais gritou; Jared, assustado, parou o barco com tudo; se não estivessem na água, teriam derrapado, apesar de terem avançado um pouco. – Nós passamos do lugar. – Thais se colocou ao lado de Jared mostrando sua mão. O barqueiro manobrou, fazendo a volta para o caminho que eles tinham vindo antes. Usando a bússola de ouro como guia, ele navegou e virou outra vez; e depois mais uma, antes de finalmente lançar a âncora para manter o barco em sua posição. – Seja lá o que estivermos procurando para Morte, está aqui embaixo. – No oceano? – Minato disse, sério. – Pois é. – Jared retrucou, irônico. – Vamos ter que nadar. Thais foi até a beira do mar, procurando por uma alga, qualquer uma. Com ela, poderia fazer um feitiço que os ajudaria a mergulhar. As vozes dos dois homens aumentaram de tom, discutindo qualquer coisa sobre quem iria mergulhar; Thais não fazia a menor questão de prestar atenção. Tirou os sapatos e pulou na água cristalina, mergulhando fundo. Sentia uma ardência os olhos da qual estava acostumada – não era primeira vez que nadava no oceano, afinal, parte do treinamento militar era nadar no oceano contra as ondas. Peixes coloridos fugiam quando ela chegava perto deles. Thais não tinha medo de que tubarões ou qualquer predador que seja, afinal, estavam no Paraíso; ao mesmo tempo, a guerra poderia também ter mudado a natureza deles. A feiticeira acelerou o nado por mais alguns metros, até conseguir colocar as mãos em volta de uma alga. Depois de arrancá-la, deixou que o oceano a levasse de volta a superfície, com uma leve ajuda de seus pés. Subiu por uma pequena estava lateral e entrou no barco com apoio de Minato, que reclamou por causa do gesto; Thais deu de ombros. Foi até a pequena cozinha do barco, sendo seguida pelos dois. Não fazia questão de explicar a complexidade do feitiço que faria; eles não apenas não entenderiam, como iriam forçá-la a explicar outra vez. Ela não estava com essa paciência. Pegou ali alguns gramas de sal, um pouco de azeite e uma panela de ferro. Jogou todos os ingredientes, incluindo a alga, e acendeu o fogo do fogão sobre o qual colocou a panela. A todo momento ela recitava um feitiço, que seus dois companheiros não entendiam. Um flambar magico aconteceu, brilhando chamas esverdeadas por alguns segundos até apagarem-se completamente, deixando em seu lugar três quadradinhos feitos de alga, principalmente. Tirou-os da panela sem hesitar. Minato tentou avisar que estava quente, mas não deu tempo – nem precisava – pois os quadradinhos estavam apenas mornos. Jogou um dentro de sua boca e entregou os outros dois para os companheiros. Felizmente, o tempo que passou no Japão desde que seu caminho se separou de Leonard a deixou acostumada com o gosto de alga; seu feitiço, porém, tinha era muito mais emborrachado. Engoliu. Jared fazia careta enquanto mastigava; Minato, sempre sério, não demonstrava muita reação. Eles também engoliram os quadrados. – Agora podemos respirar em baixo d’água. – disse rapidamente, com pressa. – Vamos. Ela saiu para fora da embarcação, ainda sendo seguida pelos dois. Correu e saltou para dentro do oceano, seguindo sua bússola que, agora que ela estava mais ou menos da vertical, apontava para baixo; para mais fundo na água. Automaticamente, ela prendia a respiração, até sentir seus pulmões doerem. Liberou o ar e, instintivamente, inspirou. Sentiu uma leve dor quando respirou a água pela primeira vez; não era como se estivesse se afogando, é claro, mas ainda era uma sensação estranha, quase um desconforto. Viu um buraco mais ou menos redondo, feito naturalmente pela natureza, no solo. Precisou lutar para conseguir chegar até ele – não estava usando qualquer material de mergulho que pudesse ajudá-la –, mas quando conseguiu, foi capaz de usar a parede de pedra para avançar com mais facilidade. O túnel logo tornou-se escuro demais para ela poder enxergar sem problemas. Ainda usando a parede de apoio, continuou avançando, cada vez mais fundo, até ficar completamente na penumbra. Sentindo seu caminho, percebeu que ele passou a subir alguns metros depois. Logo, viu uma luz bruxuleando em uma superfície; laranja, claramente não poderia ser natural. Assim que colocou a cabeça para fora, tossiu água para fora de seus pulmões, sentindo-os queimar com o ar. Teve dificuldade para inspirar as primeiras vezes, mas logo voltou a acostumar-se com o oxigênio. Felizmente, logo ali na superfície, ela encontrou mais algas que poderia usar para fazerem o caminho de volta. Arrependeu-se de não ter pego a panela, mas poderia fazer o feitiço no chão mesmo. Logo em seguida, seus dois companheiros saíram da água e sofreram da mesma maneira que ela com o ar, contudo, Minato não perdia sua compostura de samurai – pelo menos, ele tinha deixado a armadura no barco; mas sua katana estava em mãos. Eles estavam em uma pequena gruta iluminada apenas com uma tocha. O lugar era naturalmente frio, mas sem brisa ou qualquer corrente de ar. Thais usou aquele próprio fogo para secá-los e aquecê-los antes de continuarem pelo caminho – porém, assim que ela colocou as mãos na madeira da tocha, pode sentir a magia que a mantinha acesa; podia sentir a energia, mas não era a mesma magia que ela usava. Quando chegaram à uma câmara quadrada, claramente feita por homens, Jared disse já estavam abaixo das montanhas no continente. Todas as paredes em volta deles tinham símbolos incas – Thais sabia reconhecê-los, mas não os ler. Continuaram mais a fundo, até chegar ao outro lado da câmara, onde havia sete altares colados as paredes. Do ângulo em que estavam eram incapazes de ver, mas do alto, cada um daqueles alteres tinha o formato de um hieróglifo inca; e todos eles comportariam uma máscara, mas havia apenas uma no segundo altar da direita para a esquerda. Ela parecia representar um goblim, porém vermelho e mais sinistro. De pele vermelha e com detalhes nas orelhas em verde, a máscara parecia ser muito antiga. Tinha uma coroa dourada na cabeça com cinco pontas e dentes pontiagudos afiados, sendo os dois da parte de cima na ponta muito mais cumpridos que os outros, chegando a passar do maxilar da máscara. Os olhos eram grandes e, tirando o buraco pelo qual o usuário poderia enxergar, era um verdadeiro caleidoscópio de vermelho, dourado e verde. Thais nunca tinha visto algo tão arrepiante – apesar de ter visto coisas mais amedrontadoras. Como a Morte havia dito, a magia que emanava da máscara era sombria, fria e ancestral, diferente de tudo que ela já tinha experenciado. Thais não estava cem por cento certa de que deveria pegá-la, mas imaginou que sim, pois era aquilo que tinham ido buscar. Minato, porém, colocou a mão em seu ombro. – Seja lá o que isso for, é algo terrível e sombrio. – disse, também hesitante; seu tom era calmo como o de um sábio. – Eu não tenho magia, mas posso sentir. – Eu também. – Jared disse. – É de dar calafrios. – A Morte disse que talvez precisaremos daquilo, não? Que opção temos? – Thais não gostava muito do papel, mas alguém tinha que ser a voz da razão. Respirou fundo algumas vezes, parada diante do altar, com a máscara a um braço de distância. Hesitou, mas a pegou; e assim que a tocou, começou a ouvir os sussurros no ar, quase como se estivessem dentro de sua própria mente. Os ouvia em inglês, mas eram na verdade em inca. Diziam para ela colocar a máscara. A Máscara de Supay. Lentamente girou-a, de modo que pudesse vesti-la. De repente, um par de mãos cobertos por uma camiseta envolveu a máscara e a tirou das mãos de Thais, que começou a ofegar, como se tivesse acabado de sair de um transe. Confusa, olhou para os lados, para descobrir Minato de peito nu envolvendo completamente a máscara. Thais pensou no que tinha acabado de acontecer, entendendo ainda mais os avisos da Morte. Não demorou muito para que uma passagem se abrisse a direita deles. Thais pôde ver que era um caminho íngreme, um tanto estreito, e feito das pedras naturais daquela caverna. Instintivamente, sabiam que era uma saída – e ficaram felizes de saber que não precisariam voltar caminhando e nadar pelo túnel sem luz. Saíram em um vale cercado pelas Cordilheiras dos Andes. Daquele ponto, elas não tinham mais o tom azul, agora tudo era verde – de musgo, grama ou árvores, dependendo do ponto em que estavam. Entre as árvores tropicais havia uma única trilha que subia a montanha; foi por ela que seguiram, principalmente para garantir que iam chegar em algum lugar. Thais ficou extremamente surpresa ao sair em um sítio arqueológico – ou pelo menos, aquele lugar o era na Terra –, mais especificamente, nas ruínas de Pachacamac. A noite já alta e seus estômagos diziam que tinham passado muito tempo dentro daquelas cavernas – Thais apenas achou estranho que eles não sentiram fomo até então. Enquanto Minato montava um círculo de pedras para uma fogueira e Jared buscava por madeira seca na floresta próxima, ela conjurou alguns alimentos que tinha marcado, mas não haviam consumido no barco. Minato ficou feliz de assar alguns pedaços de carne; e Jared de comê-los. Thais, de fato, não parava de pensar na máscara e não apreciava o sabor da carne salgada. O trio passou aquela noite ali, deitados no chão mesmo, sem se importarem muito com o desconforto. O cansaço neles era mais onipresente que o Criador, não apenas da longuíssima caminhada até ali, mas também da viagem de barco pelo Pacífico. Três horas do dia seguinte foram dedicadas a caminhar até Villa El Salvador, o lugar mais próximo de onde estavam – não viram qualquer carro na estrada que pudessem usar. Em Villa El Salvador, eles reabasteceram seus mantimentos e encontraram um veículo 4x4 que usariam para atravessar o continente até São Paulo. Não sabiam o que esperar do caminho, no qual poderiam encontrar não apenas inimigos, como também obstáculos na estrada; tinham que estar preparados para tudo. Ao sinal da primeira luz do dia seguinte, eles partiram. _____________________________ São Paulo, Paraíso Quando Desmond Chepken recebeu a visita da Morte, ele não esperava que seria complicado encontrar a Dean Brown – um dos idiotas que, como ele, trocaram seus serviços a favor da Morte. Odiou ter que deixar Ally com Ahsoka – mesmo que temporariamente, já que ela partiria para Europa para encontrar Leonard e a fada Týr – em Fernando de Noronha, mas não tivera opção. Felizmente, ela não ficaria sozinha por lá, já que algumas almas, com a p******o de um pequeno g***o de anjos, viviam lá. Tanto em vida quanto em morte, Desmond nunca tinha visitado o tropical país, mesmo que sempre estivera curioso sobre a cultura e a culinária – chegara até a experimentar a tal feijoada em um restaurante na Inglaterra, mas o próprio dono disse que não era a mesma coisa do original. Contudo, depois que a guerra começou e a cidade de São Paulo foi abandonada – exceto por uma alma o outra, como Dean – ele não encontrou alguém que soubesse fazer jus o prato. Ao olhar para as marcas de queimadura no chão e nas paredes dos prédios, e para as janelas destruídas, Desmond deduziu que uma grande batalha havia acontecido ali; mas que os Filhos saíram vitoriosos, ou o lugar seria uma cidade refúgio como as outras que existem espalhadas pelo mundo. Entrou pela entrada lateral do Conjunto Nacional, a única que ele – ou outros moradores – não tinham barricado com ferro, madeira, ou qualquer outra coisa que encontrassem e que pudesse aguentar os ataques dos Filhos, mesmo que estes nunca tivessem acontecido, já que a única maneira de não serem capturados era manterem-se incógnitos. As lojas a sua volta já tinham sido esvaziadas de comidas e qualquer outra coisa que pudesse ser útil. Havia ali uma livraria, mas a qual tinha pegado fogo. As almas foram capazes de salvar pouco menos da metade dos livros e móveis, mas do dragão de madeira que havia no teto sobrou apenas a cabeça – a qual Desmond olhava agora enquanto passava por ela – que fora colocada no chão, sobre um pedestal improvisado com a madeira que sobreviveu ao incêndio. Encontrou quase as cem pessoas que viviam naquela comunidade sentadas nas mesas do que foi um café dentro da livraria – e que havia sido adaptado e estava sendo usado como cozinha, não que as almas tinham a necessidade de comer, mas fazia parte de seus costumes. Os líderes da comunidade achavam importante manter as tradições e costumes para manter o máximo de normalidade que conseguiam. Naturalmente, o lugar não comportaria todos, mas eles trouxeram ou improvisaram mesas com o que encontravam abandonado nos prédios da Avenida Paulista. Considerando tudo que ele tinha visto ali, Desmond sentia-se dentro de um filme distópico. – Encontrou-o? – Jamile, uma linda garota n***a de cabelos cacheados e belos, disse assim que ele se aproximou da mesa em que ela almoçava. – Ainda não. Um g***o de adolescentes vivendo em uma escolha no Anhangabaú souberam de rumores que almas na Zona Sul estavam sendo levadas, mas não souberam me indicar o lugar exatamente. – Desde que chegara ali há quase duas semanas, Desmond vinha procurando por Dean, mas apenas histórias vagas como esta eram sua pista. – Como está indo o trabalho no metrô? – Lento, praticamente impossível. Com a energia geral desligada – Desmond descobrira que os Filhos estavam sendo mais táticos do que foram em Nova York, pois haviam atacado e destruído a Usina Hidroelétrica de Itaipu, deixando assim quase toda as Regiões Sul e Sudeste do Brasil sem eletricidade; a própria comunidade do Conjunto Nacional vivia a base de geradores – e os metrôs funcionando com essa eletricidade, é extremamente complexo fazer um vagão de trem andar com um gerador. Os engenheiros estão trabalhando, mas não será fácil. Apesar de Desmond não concordar, eles queriam ter um transporte que desse para facilitar a movimentação deles na cidade usando os trilhos do metrô e trem; além de estarem escondidos sob a terra e de terem uma rota de fuga quando fosse necessário, o detetive não via muitas vantagens nisso. Ouviram o barulho de motor do lado de fora, logo na rua de trás do Conjunto. Todos pararam seus almoços e olharam para a janela, ou melhor, para o tapume de ferro que protegia a janela. Desmond foi o primeiro a correr para o lado de fora, parando apenas quando notou um g***o de pessoas já acumulados na entrada lateral. Passou por eles, abrindo lentamente a porta e saindo sozinho – ninguém teve a coragem de sair para investigar – e fechando entrada em seguida. A primeira pessoa que viu foi um japonês de músculos acentuados e uma katana na cintura, a qual ele sacou assim que viu Desmond. No entanto, a segunda pessoa a virar a esquina era familiar a ele, com seus cabelos lisos de um castanho bem claro. Ela estava exatamente igual à última vez que se viram, até mesmo a camiseta era a mesma. Ela levantou os olhos de sua palma, a qual ela estava encarando piamente; sorriu ao ver Desmond. Como a Morte havia dito, Thais Walker encontrou-o.
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