Ashkelon, Paraíso
Surgindo graças a ajuda de um Pnamryak também lealmente jurado a Kifo, Arango in’he Ruff sentiu a areia fina da praia de Ashkelon. Assim que seus pés descalços tocaram o solo, ele sentiu o inprint de uma presença que estivera ali meses antes – uma alma diferente, incorruptível. Arango sabia bem quem eram os Heartless e como eles haviam sido vitais na vitória da última batalha em Nova Jerusalém – que resultou na liberdade de Kifo.
Uma vez sozinho, ele caminhou até uma escadaria que subia até um píer, que, por sua vez, era ancoradouro de dezenas de embarcações. Se tinha uma coisa que Arango não gostava sobre ser um Filho do Abismo era a impossibilidade de atravessar os oceanos, navegar sobre as ondas e ganhar o mundo como Ruff, a alma que ele possuía, o fizera em vida – de fato, fora esse amor pela navegação, o qual Arango desenvolveu em seus dias no Paraíso, que ajudou-o a dominar sua verdadeira forma.
Enquanto caminhava pelas pedras da calçada e pelo asfalto já rachado das ruas, ele podia sentir ainda mais inprints, como se fossem fantasmas do passado assombrando aquele lugar. Ele via as almas que habitavam o lugar antes do dia que os Filhos foram libertos; via as surpresas de seus rostos quando as luzes laranjas cruzaram os céus; via o terror quando estas possuíam seus corpos, mesmo que ali tivessem ido apenas os piores Filhos.
O Libertador, Aquele que Está entre o Bem e o m*l, propositalmente mandou todos os Filhos do Abismo que haviam sido apenas parcialmente selados durante a Primeira Guerra Celestial, em outras palavras, aqueles cujos anjos tinham desmembrado ou ferido de alguma maneira que, quando foram selados, estas partes permaneceram no Paraíso e cessaram de existir. Entretanto, ninguém esperava aquela reação.
Assim que as almas daquele lugar foram possuídas, elas tornaram-se animalescas, muito mais do que os Filhos costumeiramente são. O d****o de comer almas – como apenas Kifo o fazia – eram sua principal diretriz, era o que os movia, o que dava propósito. Eram como zumbis – uma palavra terrivelmente f**a na opinião de Arango, mas a qual Ruff dizia descrever exatamente os Filhos de Ashkelon.
Apenas Leonard Ross, o Miʻridʻrin, e seus companheiros tinham passado por ali. Desde então, anjos e Filho haviam esquecido das pobres criaturas daquela cidade – e isto era a única coisa que tinham em comum, talvez, exceto, por guerrear no Paraíso. Arango, porém, lembrava-se deles.
A Soulryak, seus outros irmãos de a**a e, até mesmo Kifo, duvidaram de seu plano quando o apresentou para eles, todavia, se havia alguém capaz de fazer aquilo, era Arango. Decebal – antigo braço direito de Vizard e atual nada de Kifo – talvez, muito talvez, conseguisse fazer, mas ele duvidava. Afinal, Arango era o Manáryak mais poderoso de todo Paraíso.
Ele viu o primeiro daqueles Filhos surgindo atrás de um comércio – uma antiga lanchonete. A princípio, a criatura parecia confusa, sem saber muito bem o que fazer. Estava suja, coberta de sangue alaranjado, e seus dentes estavam amarelados – provavelmente, uma decadência que a alma sofria por causa do estado deplorável que o Filho estava quando o possuiu. Então, ele avançou como um animal contra Arango, que simplesmente esticou a mão para ele.
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Alexandria, Paraíso
Com a visão ainda turva por causa das lágrimas que chorei por um longo tempo, o qual não fiz questão de contar, eu fechei e dei as costas para a porta que guardava o quarto de Elena. O corredor que antes estava na penumbra agora era iluminado por tochas alaranjadas. Senti uma corrente de ar às costas, virando-me para descobrir que a porta já não estava mais ali. Como Sa’drik informara, a conexão com o Inferno cessou.
O novo corredor que surgiu terminava em um altar, sobre o qual tinha um gigante livro, quase do tamanho de meu torço. A capa era feita de couro branco, com apenas um símbolo na frente. Havia três círculos, um dentro do outro, espaçados simetricamente. Havia duas linhas conectando-os: do menor círculo para o médio, no topo, ao norte; o outro conectava o médio ao maior, diagonal, à nordeste. Notei uma leve sombra de alguma forma inidentificável que ficava ainda mais externo nos círculos.
Usei minha última marca no pulso, onde antes estava a pena da Árvore de Leonard – sorri ao pensar que as fadas tinham trocado o nome da milenar Árvore de Grobler em minha homenagem, pois eu a tinha restaurado quando cravei a espada Marenvikun em seu tronco seco, restaurando a magia das fadas e salvando-as do ataque do Imperador Aerilon – para carregar o estranho livro até o lado de fora. Olhei para trás, vendo o corredor e pensando no caminho de subida que me aguardava.
Dei o primeiro passo, o que mudou meus arredores completamente, sem qualquer aviso ou sinal de mudança. Em um segundo em estava em Alexandria, no outro, em uma praia. O céu estava escuro, indicando que a Luz já tinha se apagado e a noite reinava; as desconhecidas e brilhantes constelações eram a única coisa que iluminava o caminho – entretanto, longe no horizonte, a leste de onde eu estava, eu podia jurar que podia ver a luz que emanava de Nova Jerusalém.
– Leo!
Ouvia a voz aliviada de Lana; virei-me para vê-la levantar-se de uma pedra, que por sua vez, estava próxima de uma fogueira. Lael, que esteve com ela desde que nos separamos, não pareceu gostar muito do meu retorno, ainda mais sem seu General. Ela saltou para me abraçar, jogando seus braços em volta de meu pescoço e afundando a cabeça ali.
– Você voltou! Você finalmente voltou! – Ela repetiu mais três vezes estas palavras.
– Como vocês chegaram aqui? – Eu disse, notando que ela usava outras roupas e que havia uma barraca na praia, indicando que eles estavam acampando ali há algum tempo.
– Nós simplesmente surgirmos aqui depois que você e Miguel passaram juntos por aquela pedra. – Explicou. – Há cinco dias.
Eu quase caí para trás. Eu não imaginei que tanto tempo havia se passado, mas considerando que havia uma magia poderosa no castelo Urshistaniano para conectar dois mundos tão distintos quanto Paraíso e Inferno, então, fazia sentido que o tempo lá passasse de maneira diferente; mas cinco dias era tempo demais. Muita coisa poderia ter acontecido nesse tempo, ainda mais quando um mundo inteiro estava em guerra.
– Resolvemos acampar aqui imaginando que vocês dois apareceriam aqui, como nós. – Lana explicou. – Mas Lael foi e voltou de Nova Jerusalém várias vezes, inclusive com algumas notícias interessantes sobre Vizard e um tal de Jeremy Keeler. E sobre Thais e o outros também.
– Quem? – O nome trazia certa familiaridade, mas eu simplesmente não conseguia saber de onde.
– Você lutou com ele em Roma. Ajudou Aws. – Ao ver minha face confusa, afinal, eu tinha lutado com muitos Filhos em Roma, e muitos mais depois disso, Lana acrescentou: – Ele é um homem-leão.
Estalei os dedos, lembrando-me daqueles momentos intensos. Fora antes de eu reencontrar a Morte em seu castelo – bem antes. Antes mesmo de Paris.
Antes que Lana pudesse me contar o que era claramente notícias muito interessantes, uma luz laranja tomou conta do ambiente, iluminando muito mais do que as estrelas. Nós três olhamos para a fonte daquela luz, mas Lana e eu tivemos que nos proteger com as mãos; apenas Lael o conseguiu fazer sem problemas – agora, ele estava perto nós o bastante para eu conseguir ouvir sua voz:
– Serafim.
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Miguel gritou de frustração quando descia sua espada contra o altar, que nem ao menos arranhou. Sentia uma estranha dor no peito, que poucas vezes sentiu, como se seu coração – caso tivesse um – estivesse acelerado. Era uma angústia sem fim, um dilema que, se ele fosse algum outro querubim – pensava especificamente em Salazar – não perderia a chance de destruir todos os seus inimigos com um único golpe.
Este não era o jeito de Miguel. Não era o caminho que ele queria traçar. Se algum dia alcançaria a última vitória sobre os demônios, ou Filhos do Abismo, não seria sacrificando um mundo inteiro. Seria como destruir o Paraíso para acabar de vez com a guerra. Deu as costas para a oportunidade de uma vida e saiu daquela sala.
Sentiu uma leve brisa na nuca quando a porta desapareceu; ao mesmo tempo, sentiu a poderosa magia que unia os dois mundos desaparecer. Fechou os punhos e os olhos, desejando não se arrepender daquela decisão; ao mesmo tempo tentando se convencer que tinha feito a coisa certa.
Notou sua sombra no chão, indicando que havia uma fonte de luz atrás de si. Virou-se e imediatamente arregalou os olhos de surpresa e admiração, pois via um dos itens mais sagrados de toda Criação. Algo que pouquíssimos anjos viram – talvez, apenas um g***o seleto de arcanjos e os três querubins do extinto Conselho de Prata; achava que até mesmo a Guarda de Prata, que foram os mais próximos do Criador, tinham visto o Primeiro Fogo Celestial.
Era menor do que ele tinha imaginado, não tendo mais do que uma cabeça de tamanho. As chamas eram mais claras do que o Fogo que os anjos costumeiramente invocavam – como se fosse mais puro. Apesar de ser laranja, cor muito associada com os Filhos, ele ainda era vários tons mais claros do que a lava do Abismo. Miguel não conseguia tirar os olhos daquelas chamas; eram lindas e, claramente, letais – inclusive a anjos.
Nas paredes estava escrito milhares de palavras na Língua Prata. Elas contavam a História da criação daquele Fogo, em outras palavras, contava sobre a Primeira Guerra Celestial. Miguel leu detalhes sortidos, sinistros até, que os livros da Cidade de Prata não narravam – inclusive, uma quase traição por parte de Salazar, o que não surpreendeu Miguel conhecendo os métodos extremos do querubim. No chão de pedra, porém, formando um círculo em volta do Fogo Celestial, estava escrito:
O Senhor deu vida ao fogo; e do fogo nasceu serafim.
Confuso, Miguel percebeu que, de fato, não existia qualquer informação sobre os serafins na Cidade de Prata, exceto pelo simples fato de que o Senhor os tinha criado para tomar o lugar da Guarda de Prata e proteger os portões da Sala do Trono – e Miguel teve a honra de ver pessoalmente a grandeza que possuíam.
No centro deste círculo, logo abaixo do Fogo, quase invisível de tão iluminado que estava, havia o símbolo único para a palavra “vida”.
O querubim ficou pensativo por longos, longos minutos, quase horas até, sem saber o que fazer. Seu Pai o tinha levado até ali, disse para seguir Leonard e encontrar o Primeiro Fogo Celestial, mas não como usá-lo – se é que Miguel estava ali para descobrir uma forma de usar as chamas. Todavia, lembrou-se da história que Aaron Van Helsing contou quando estava em uma situação muito parecida com aquela. Tudo que o rapaz precisou fazer foi tocar.
Miguel estendeu o braço e caminhou hesitante até as chamas. Assim que a ponta de seus dedos tocou no Fogo, ele o puxou com força para dentro de si. Se outra pessoa estivesse presente, veria o querubim desaparecer completamente dentro das chamas. Uma vez ali, Miguel não sentiu dor alguma, até ser completamente cegado pela brilhante luz.
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Quando a luz cessou e pudemos ver o que acontecia, ninguém saberia dizer quem estava mais surpreso – mas Týr apostaria em Lael. Miguel estava diante de nós, mas sua pele parecia emitir um leve brilho alaranjado; seus olhos, inclusive, estavam daquela cor, mas era belos, diferente dos Filhos que não tinham íris e eram praticamente foscos.
Micro-veias, quase como teias de aranhas, na sua pele também cintilavam belamente, mas aos poucos foram recuando, até desaparecerem completamente. Seus olhos voltaram ao castanho escuro tradicional. De fato, tudo nele havia voltado ao normal, exceto sua presença – ele parecia mais imponente e confiante – e suas asas, que estavam desaparecidas – Lana chegou a comentar em um almoço em Nova Jerusalém que os anjos podiam retrair suas asas, escondê-las dos humanos, mas não o faziam quando estavam no Paraíso; contudo, eu sabia que este não era o caso.
– Senhor... – Lael disse, mais para si mesmo do que para Miguel ou qualquer um de nós. – O que aconteceu?
– Eu já não sou um querubim. – Como se quisesse demonstrar seu ponto, Miguel resolveu abrir suas novas asas; elas se assemelhavam em formato, fazendo uma curva sobre sua cabeça e quase chegando a tocar o chão; todavia, elas não eram feitas de pena, mas sim de fogo. Puro Fogo Celestial. – Mas também não sou um serafim. O Primeiro Fogo Celestial me mudou para algo novo; algo entre os dois. Posso sentir o pode dele fluindo por mim, como se fosse sangue em veias. – Ele olhou para mim e Lana, como se seu exemplo fosse mais explicativo se houvesse humanos presentes. – Tenho muito que aprender e treinar, aperfeiçoar minhas novas habilidades antes que possa enfrentar Kifo mais uma vez. – Desta vez seus olhos se encontraram diretamente com os meus e eu sabia que havia algo mais que ele não estava dizendo. – Chegou a hora de nos separarmos, Leonard Ross, Lana Ruggieri – ele fez uma pausa – e Lael.
– Senhor? – Miguel colocou uma de suas mãos sobre o ombro de Lael, que não soube exatamente reagir; os anjos, por mais que fossem unidos e leais uns aos outros, não eram muito fisicamente calorosos.
– Seu caminho, Lael, sei agora que não está mais conectado ao meu ou aos outros anjos. Você deve seguir e proteger essas almas, que são essenciais para o plano de nosso Pai. – O anjo sorriu, pois poderia ficar ao lado de sua amiga. – Quando a missão deles terminar, leve-os de volta para Nova Jerusalém em segurança. Conto com você.
Sem pressão, pensei com um leve sorriso. Lana, ao meu lado, também ficara feliz de saber que continuaria na companhia de seu amigo.
Miguel nos cumprimentou com um movimento de cabeça, solene como sua postura demonstrava. Fez surgir e abriu suas asas de Fogo Celestial – de onde estava, porém, eu não podia sentir o calor como acontecia na maioria das vezes em que encontrávamos os Filhos –, decolando em alta velocidade e ganhando o céu noturno.
– Encontrou o livro que a Morte disse? – Olhei para Lael, mas Lana acrescentou: – Eu já contei tudo para ele, não se preocupe.
– Sim. – respondi.
Estiquei ambas as mãos para frente, fazendo surgir a gigantesca peça. Eu esperava uma reação de Lael, mas este simplesmente olhou-o como se tivesse visto milhares de outros livros iguais aqueles. Ainda em meus braços, Lana folheou-o, buscando a informação que precisavam. O anjo a disse para parar em uma página.
– Este não é um feitiço muito complicado. – Lael disse; eu não sabia muito bem o que ela queria dizer, já que eu não conseguia ler a língua na qual estava escrito o livro. – Mas não será fácil.
– O que precisamos? – Perguntei, curioso.
– A princípio, o Fruto p******o. – Logo pensei no saquinho de pano que já não estava em meu bolso; eu tinha deixado o que sobrara do Fruto com Thais. – E de um feiticeiro – Thais me veio a mente mais uma vez, porém Lael acrescentou: – mas um capaz de usar magia cósmica. Agora entendo por que o Criador permitiu que ela vivesse no Paraíso.
– Pelo jeito, já tem alguém em mente. – Complementei.
No entanto, tanto Lana quanto eu podíamos ver que, seja lá a pessoa a quem ele se referia, não seria fácil encontrar. Pelo menos, pensei, ela estava no Paraíso.
Pela manhã do dia seguinte, quando a luz começava a iluminar, nós encontramos o barco em que Lael e eu tínhamos usado para vir de Creta. Abastecemos com um pouco de comida e água doce para a viagem a nossa frente.