Capítulo 20: Divertida-Mente

2657 Words
Califórnia, Terra 1940 O primeiro sinal de que não estava sozinho aconteceu quase quinze minutos depois, quando Dean estava começando a duvidar que Sabrina tinha obtido uma informação incorreta. Ele ouviu as mesmas faíscas girando que o tinha levado do museu até a ponte. Ao olhar cautelosamente, descobriu que não eram azul-prateadas, mas de uma estranha combinação de vermelho e cinza. Do portal saiu uma menina ainda mais nova que Sabrina, com longos cabelos loiros encaracolados caindo até sua cintura. Ela trajava um vestido ao estilo de Alice no País das Maravilhas, em um tom de preto fosco e avental acinzentado. Seu olhar, porém, não era de uma criança que não sabe nada do mundo, pelo contrário, eram experientes, como se ela conhecesse todos os segredos do mundo. Não demorou muito para que outro portal como o primeiro aparecesse, mas este era de um vermelho-sangue, como se as labaredas sangrassem. Deste saiu o Karmesin, seguido de sete soldados – Dean reconheceu um deles do prédio em que Dean capturou o nazista ainda na Áustria. O canto da boca da menina sorriu leve e sarcasticamente de toda segurança que o Karmesin trazia consigo. – Espero não a ter feito esperar, minha princesa. – O Karmesin disse; Dean não entendeu o sarcasmo que ele colocou nas últimas duas palavras. – Você trouxe? Ela sorriu da mesma maneira outra vez, colocando uma de suas mãozinhas dentro de um bolso do avental e tirando de lá uma pedra entalhada na forma de algo que parecia um cachorro, mas cuja cabeça era desproporcional e os dentes protuberantes até mesmo saiam de sua boa. – Não foi fácil encontrar esse artefato. Artefatos guarani, ainda mais quando se trata de Luison, são muito raros, até mesmo nos mercados do Inferno. – Ela disse; sua voz era de criança, doce e inocente, mas maturada em anos de negociações exatamente como aquela. – E quanto a você, meu caro Karmesin? Trouxe o que pedi? – Uma cópia da página – ele anunciou enquanto tirava do bolso interno de seu terno um pedaço de papel branco e muito bem dobrado – do Necronomicon. É impossível rasgá-lo, como você mesmo sabe. – Eu devia arrancar o livro de você, humano. – Sua voz mudou de repente; duplicou-se com uma voz grave e infernal. Dean fez uma oração rápida para o Criador. – Nós dois sabemos que você n******e. – O Karmesin tinha um sorriso superior, entretanto, Dean tinha a sensação de que ele era inferior a menina. Ao mesmo tempo, ele entregou o papel na mão esquerda da menina e recebeu a estátua de Luison em sua mão direita; ambos aparentemente satisfeitos com o acordo feito. – Isto irá fazer o que preciso que faça? – Questionou, enquanto a menina abria um novo portal para deixá-lo. – Ele busca, absorve e redireciona a alma, mas apenas para o corpo original. – Ela parecia irritada por ter que explicar essa parte. – É mais do que você pediu. Faça bom proveito. Ela desapareceu em seu portal, que se fechou em seguida. Menos de um segundo depois, Sabrina surgiu atrás de um dos guardas do Karmesin, cravando uma adaga em sua cabeça. Dean imaginou que aquele era o momento para atacar, então, saiu de trás dos caixotes disparando. Derrubou dois deles em menos de um segundo, atingindo-os entre os olhos. Ao mesmo tempo, mais dois atacavam Sabrina; os três restantes sacaram armas e dispararam contra Dean, que imediatamente voltou para seu esconderijo. Os disparos eram altos o bastante para serem ouvidos lá de baixo, se não fosse o espaço aberto em que estavam que dissipava o som. Ao olhar para o lado, percebeu que havia uma coluna de aço há cerca de dois metros do final caixa. Ficaria mais protegido ali e seria capaz de revidar. Respirou fundo algumas vezes e correu para seu novo esconderijo; olhou para o lado por um segundo e viu que o Karmesin estava prestes a entrar em um portal de faíscas. Dean não poderia deixar que partisse, ou iria imediatamente atrás de seu filho, já que este estava sem qualquer p******o. Abaixou, ainda recostado, torcendo para que os nazistas não notassem seu plano. Não ousou olhar para conferir, mas forçou sua cabeça para lembrar-se da posição exata do Karmesin. Inclinou-se já disparando; três vezes, especificamente, mas apenas um de seus projeteis atingiu o alvo. Os soldados que disparavam contra ele, pegos de surpresa com o grito de seu oficial, cessaram o fogo por dois segundos, mas foi o bastante para permitir que Dean disparasse contra dois deles. Acertou um no pescoço e o outro na bochecha; este segundo voltou a disparar. Pacientemente, ele esperou. O cheiro de sangue e pólvora subiram por suas narinas, trazendo lembranças do dia da morte de seu pai – que morrera de uma doença hemorrágica; a casa deles sempre tinha o cheiro queimado de pólvora disparada. Seu momento chegou quando ouviu-os recarregar. Saiu de seu esconderijo, precisando apenas de um segundo a mais para saber suas posições, mirar e disparar entre seus olhos. Ao mesmo tempo, notou que os dois que tinha matado a primeiro começavam a despertar, atirou nos dois em seguida. Viu que Sabrina estava ocupada com os outros dois. Aparentemente, eles eram muito bons de luta corpo a corpo; e eram muito bons em usar acrescentar suas pistolas, disparando quando viam uma a******a. Dean pôde ver riscos na armadura que cobria os s***s da menina, indicando que eles haviam conseguido acertar; se não fosse a p******o, ela já teria perdido. Ao mesmo tempo, porém, notou que um deles sangrava por diversos pontos do corpo, o que fez Dean se perguntar como eles ainda se movimentavam. Ainda, ele voltou atrás na sua precipitada dedução de que ela teria perdido a luta. Ouviu faíscas surgindo, um pouco falhas, mas estavam ali. Viu o Karmesin tentando superar a dor para abrir um portal e escapar; Dean não permitiria, atirando em seu ombro – não queria matá-lo, pois tinha a sensação de que Sabrina o queria vivo, pelo menos para um interrogatório. Então, voltou-se para o combate. Resolveu ajudá-la, acertando-os pelas costas, um pouco abaixo da nuca; e assim foram suas duas últimas balas. Ainda assim, resolveu pegar pentes dos inimigos que havia matado – mesmo que temporariamente – e recarregar sua p*****a. – Me ajude a amarrá-los. – Sabrina disse, quase ordenando, e entregando uma corda nas mãos de Dean; ele obedeceu. Quando os oito estavam com os braços e pernas bem presos, Sabrina abriu um portal azul-prateado, do outro lado do qual havia um galpão imenso e sombrio, com diversas celas prontas para jogá-los. Enquanto Dean conseguia puxar um deles com certa dificuldade – eles eram extremamente pesados –, Sabrina puxava dois ao mesmo tempo. O último que passaram foi o Karmesin e o portal fechou-se logo atrás. Mais uma vez, eles começavam a acordar; Dean atirou para matá-los. Ele não gostava nem um pouco que eles ressuscitassem daquela maneira. Mas imaginou que não saberia o que fazer com eles; Sabrina, porém, parecia ter um plano. Por fim, jogaram cada um dos soldados em uma cela e trancaram; apesar de elas serem escuras, Dean conseguiu notar símbolos desenhados em todas as paredes. – Estes símbolos irão segurá-los aqui dentro. – Sabrina explicou, enquanto carregava o Karmesin sobre o ombro direito; ela não parecia se importar com o sangue que escorria dele e manchava as ataduras que cobriam seu corpo. Uma sala especial havia sido construída para ele. As paredes eram feitas de pedras vermelhas, como se fossem de fogo; a porta era de um metal grosso e preto. Ele tinha teto próprio, enquanto o teto do galpão ficava há vários metros de altura. Por dentro e por fora, ele era coberto dos mesmos símbolos demoníacos que Sabrina usara mais cedo. Dentro, apenas uma cadeira de metal esperava por ele. Sabrina o sentou e usou algemas para prender os pés ao chão e as mãos à cadeira. Fecharam a porta atrás deles quando saíram. Dean não notara que prendera o ar até soltá-lo de uma única vez quando Sabrina trancou a porta. Ele sabia que ainda não estava no fim, mas já se sentia aliviado. – Vamos descansar. – ela disse, apontando para uma janela que estava dava para o lado de fora. O sol começava a nascer. – Tomar um banho e nos refrescar. Teremos um longo dia pela frente. Isto é – ela acrescentou ao ver o rosto de Dean – se quiser tirar o Karmesin de seu encalço de uma vez por todas. – Vai matá-lo? – Dean disse, não por culpa, mas simplesmente porque queria participar do momento. – Ainda não. Preciso do livro que ele esconde. Além de que não posso matá-lo. Não tão facilmente. Sabrina apontou para uma escada que ficava do lado leste do galpão, que subia três andares. Caminharam juntos para lá, discutindo o que poderiam fazer com ele para que soltasse as informações que eles queriam; mas principalmente, como eles iriam tirar da cabeça do Karmesin as habilidades de Brian – ou Eber. Ali, havia um pequeno escritório abandonado; adjacente a ele, havia um banheiro onde tomaram banho – Dean primeiro e Sabrina depois. Ele odiou ter que colocar as mesmas roupas, mas não tinha exatamente um par de calças e uma camiseta disponível. – Podemos tentar um feitiço, mas não pense que será fácil. – Ela explicou, séria; Dean não se lembrava de vê-la brincando de qualquer maneira. – Posso te colocar dentro da mente dele, mas para encontrar as memórias sobre você e seu filho não será fácil. – Nada é. – Dean falou de maneira simples. Sabrina deixou a sala; Dean respirou fundo uma vez antes de segui-la. Entraram na cela do Karmesin, descobrindo-o acordado e com os ferimentos quase curados. A menina foi até ele sem hesitar, entretanto, o nazista não tirara os olhos de Dean, o que o deixava terrivelmente desconfortável. Ela pegou a pequena estatua de Luison e a jogou dentro de um dos buracos de sua calça. Puxou do mesmo lugar a adaga de osso e a posicionou no pescoço do Karmesin. A outra mão, ela colocou na lateral de sua cabeça, dizendo para Dean colocar sua mão direita do lado oposto. Hesitando, ele o fez. – Eu vou tentar criar um sistema para facilitar que você encontre o que procura, mas ele com certeza terá proteções e como elas vão se manifestar, é impossível dizer. – Sabrina explicou; apensar de ser baixa que ele, seus olhos não deixaram os dele. – Pronto? – Ele concordou com a cabeça. Dean fechou os olhos enquanto a menina recitava palavras estranhas, mas nas quais ele podia sentir o poder e energia. Experienciou, na forma de comichão, a vitalidade de Sabrina indo da ponta de sua mão para sua cabeça e atravessar seu cérebro. Quando os reabriu, ele não estava mais na cela do Karmesin. Ele estava diante de um castelo gigantesco, com paredes esbranquiçadas e teto azulado; algumas torres subiam vários metros no alto. A única iluminação parecia vir do próprio castelo. Não havia ninguém ali; não esperava ver pessoas, é claro. – Interessante. – Sabrina disse; sua voz ecoava por toda a mente. – Surpresa que eu estudei lá? – Foi a voz do Karmesin. Dean não esperava que ele fosse capaz interagir, que a menina o impediria, mas aparentemente se enganou. Não obteve respostas. Dean também não esperou por elas. Entrou no castelo. Ouviu risadas vindas de ambos seus lados; notou algumas crianças e adolescentes correndo de um lado para o outro, mas eram apenas reflexos, fantasmas da memória do Karmesin. Não parou para prestar atenção nelas e continuou a frente, passando pelas mesas de refeitório e subindo para entrada principal. Esperava encontrar um hall, mas assim que cruzou a porta, estava em um campo de batalha. Em uma trincheira durante a Grande Guerra. Ouviu algo vindo de cima; descobriu ser uma granada de mostarda – ela emitia a característica fumaça alaranjada. Dean sabia que tinha que sair dali imediatamente. Subiu a primeira escada que, supostamente, deveria ir até a terra de ninguém, mas ele saiu em uma gigantesca sala com milhares gabinetes de ferro usado para arquivos de escritório. – Consegui. – A voz de Sabrina soou mais uma vez; porém, parecia cansada. – Procure pelo nome de sua família. Pegue o arquivo e leve para o fim da mente dele, logo antes de cair no Reino dos Sonhos. Jogue os arquivos lá, assim, ele não terá mais as memórias. – Entendido. – Dean respondeu, e correu entre os arquivos. Ele não tinha ideia de quanto tempo havia passado apenas na letra “A”, mas assim que chegou à letra “B”, precisou tomar mais cuidado para não passar direto pelas memórias sobre ele e sua família. Enquanto procurava, ele ouviu passos entre os arquivos; e não eram dele. Pareciam pertencer a um animal pesado e quadrupede. Deparou-se com uma gaveta inteira pertencente ao nome Bassevi. Arrancou-a de seu arquivo, sentindo todo o peso que ela possuía. Assim que o fez, entretanto, ouviu o rosnar vindo do meio do corredor em que estava – ou o que ele achava ser o meio, já que não conseguia ver o final. Firmava seus olhos rosados em Dean; baba escorria por sua boca cheia de dentes. O urso parecia ser pardo, devido ao seu tamanho e pelo, mas era albino. A voz de Sabrina orientou-o para ir por um caminho a direita; ele obedeceu correndo. Ela foi indicando cada esquina que ele precisava virar ao passo em que ele corria o máximo que suas pernas e o peso da gaveta permitiam. Dean não olhava para trás, mas sentia que o urso estava se aproximando sem muitos problemas, principalmente por derrubar alguns arquivos. Uma luz branca surgiu no final do corredor em que estava. Ela foi ficando maior e maior quanto mais ele se aproximava. Arquivos atrás deles começaram a cair para dentro do corredor, interpondo-se entre ele e o urso, que precisava desacelerar e desviar. Quando estava perto o bastante da luz, Sabrina gritou para que ele parasse; se caísse no Reino dos Sonhos, seria muito mais difícil resgatá-lo. – Jogue as memórias. Ofegante, ele o fez sem hesitar. No segundo seguinte, o urso levantava a pata para um golpe fatal, que nunca veio. Dean sentiu muita dor quando o feitiço o jogou contra a parede de pedra da cela. Com uma careta de dor, levantou-se sem tirar os olhos do Karmesin, que fitava o chão catatonicamente. Ele não parecia saber o que estava vendo. – Aquele urso bagunçou muito a mente dele. – Sabrina explicou. – Levará um tempo para se recuperar, mas voltará ao normal, exceto pelas memórias que destruiu. – Pela primeira vez, ele a viu sorrir genuinamente. – Parabéns, sua família está a salvo. O próprio Dean sorriu, deixando a cela o mais rápido que ele conseguiu. Sabrina veio atrás dele, fechando a porta em seguida. Ela disse que iria lidar com ele e com os outros soldados nazistas imortais, mas precisaria descobrir como matá-los de maneira definitiva. Quando estavam mais afastados dos inimigos, ela abriu o portal de faíscas; do outro lado, a praia em frente de sua casa. – Obrigado pela ajuda. – Dean podia palpar a vergonha dela, como se não costumasse dizer aquelas palavras. – Nunca me peça outra vez. – Ele retrucou em tom brincalhão, já do outro lado, sentindo a maciez da areia sob a sola de seus sapatos. O portal se fechou e ele torcia para nunca mais abrir. Virou-se para sua casa, caminhando a luz do meio da manhã. Viu Helen – como ele preferia o nome Mazal – saindo pela porta de trás e correr até ele, abraçando-o. Não tinha certeza se contaria ou não para ela o que estivera fazendo durante a noite; se não, precisaria inventar uma bela de uma história.
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