Capítulo 19: Mohai de Kauai

2637 Words
Pacífico Norte, Paraíso Thais perdera a conta dos dias – senão, semanas – em que passou em alto mar, vendo nada além de água salgada e azul para todos os lados. Não passava m*l como Leonard, mas, ao mesmo tempo, estava completamente cansada de ficar naquele barco e dividir tudo com outros dois homens. Felizmente, eles eram higiênicos o bastante para tomarem banho com frequência o bastante para que a água doce não terminasse antes de atingirem as Ilhas do Havaí. Quando Kauai surgiu no horizonte, seu coração palpitou de alívio. Ela sorriu como não fazia desde que seu caminho se separou de Leonard. Ainda mais longe, ela viu Ni‘ihau e suass montanhas; Jared – que sabia muito bem como navegar pelos Oceano – os guiou até a ilha maior, onde se reabasteceriam tanto de água doce como comida, as que estavam no barco estavam acabando e não eram nada muito além de enlatados. Trabalhando pelas ondas altas e evitando as pedras, inclusive usando uma a******a que existia entre algumas pedras mais altas, Jared guiou o barco até a Praia de Makua, parando há alguns metros da costa. Ali, ele deitou a âncora nada água para que a mare não levasse o transporte deles. Foram até a areia grossa em um bote inflável que, até então, estava preso, colado ao lado do barco. Thais nunca tinha visto águas tão cristalinas, pelo menos, não umas que estivessem vazias de barcos de guerra. Respirou fundo, evitando pensar nos momentos antes de sua morte. Atrás de alguns coqueiros viram uma casa grande o bastante para uma dúzia de pessoas, mas ainda não era uma mansão. De paredes brancas e tetos de um cinza escuro, o lugar era extremamente convidativo; Thais podia se ver passando férias ali. Minato puxou Thais para atrás de um coqueiro; Jared, ao ver o movimento, também se escondeu. – Há movimento na casa. – Minato informou, sério; Thais encostou no tronco da árvore, sussurrando algumas palavras em esloveno. Como era feita de madeira, Thais podia ver as pessoas se movimentando ali, como sombras. Podia sentir suas presenças indo de um cômodo a outro; sentia as ondas sonoras que saiam de suas vozes. Eram pelo menos treze pessoas, mas nenhuma emitia calor fora do normal para uma alma, como acontecia com o Filhos do Abismo. Quando informou isso aos seus companheiros, eles ficaram um pouco surpresos com suas habilidades mágicas, mas não comentaram. – Acha que são almas? – Tenho certeza. – Ela informou. – Mas para garantir. Thais pegou alguns gravetos no chão e encantou-os, para que eles se tornarem prisões de madeira quando encostassem nos Filhos do Abismo – um truque antigo que, até mesmo, tirou um sorriso nostálgico de seu rosto, lembrando-se quando toda aquela aventura começara e era apenas ela e Leonard, e Týr, contra o Paraíso. Entregou alguns deles para Minato e Jared. Usaram as árvores e arbustos para chegarem até o muro baixo e de madeira que demarcava a propriedade. Saltaram por ela e foram até a porta de trás; havia ali uma churrasqueira que tinha carvão em brasa, o que significava que estavam dando um churrasco – o que explicava a concentração de pessoas. Minato e Thais pararam de um lado da porta; Jared do outro, para o lado em que a porta se abria, o que significava que ele estaria escondido atrás da porta quando esta abria. Um homem saiu pela porta carregando uma forma de alumínio com um garfo e uma faca com os cabos cumpridos, usados justamente para aquele tipo de situação. Minato avançou contra ele quando ele estava de costas, agarrando-o com a mão no pescoço; a grama abafou o som da bandeja indo ao chão. Com um golpe, o samurai deitou a alma no chão. Moreno, de cabelos pretos, com olhos puxados e castanhos, ele tinha todas as características de um havaiano, apesar de estar um pouco acima do peso. Minato logo notou que ele não estava possuído por Filhos do Abismo. – O que foi, cara? – Ele perguntou, depois de ofegar por alguns minutos; nenhum dos três recém-chegados encontraram palavras para falar primeiro. – Você não é um Filho. – Thais disse enquanto ele se levantava com ajuda de Minato. – E não está em uma cidade refúgio, sob p******o dos anjos e de muros, para poder estar fazendo um churrasco despreocupado. – Ah... – Ele sorriu nervosamente. – Acho melhor vocês entrarem, mas... Como se chamam? Thais apresentou a si e aos outros enquanto entravam pela porta traseira. O homem apresentou-se como Kaleo enquanto girava a tranca da porta. Todos eles estranharam os gestos, ficando com as mãos prontas para lançarem os gravetos encantados; Minato mantinha sua outra mão em sua katana, pronto para sacá-la e lutar. Encontraram uma família inteira sentada em volta de uma mesa. Homens, mulheres, velhos e até crianças. Thais imaginou que todos eles eram Nascidos no Paraíso, já que eram poucas as almas que assumiam aquelas formas durante a eternidade no Paraíso – aqueles que o faziam, faziam para simular a vida que nunca tiveram, não que de fato estivessem cientes disso. Kaleo apresentou-os, mas Thais jamais lembraria do nome de todos eles. Então, foram para um pequeno escritório que havia ao lado da sala de jantar. Era uma sala escura, com o chão completamente coberto por tapetes escuros com desenhos trabalhados, paredes de estantes cobertas de livros e a janela coberta por uma cortina. O anfitrião sentou-se atrás de uma mesa, mas não antes de conferir pela janela se alguém não os observava. – E então? – Minato disse, irritadiço por toda aquela demora. – Comece a explicar o que está acontecendo aqui. – Bem. – Kaleo começou. – Quando as luzes laranjas, os Filhos do Abismo, como você os chamou, caíram do céu e possuíram o corpo de metade da ilha, Kauai caiu sob o domínio de um deles, o mais forte deles, supostamente. Nós não acreditamos muito nos makaʻā. De qualquer forma, os anjos nunca vieram nos ajudar. – Thais soube o que significava a palavra graças ao poder do Paraíso: olhos laranja. – Seu nome é Hu’ala. – Está dizendo que a ilha é controlada pelos Filhos? – Sim, mas eles nos permitem viver livres, contanto que paguemos as mohai – Kaleo, Thais notou, ele estava estranhamente sem medo – quando Kifo aparecer para colher. Aconteceu algumas vezes. – Sacrifícios? – Thais, irritada de repente, falou; este era o significado de mohai. – Vocês dão almas para Kifo? O quão loucos vocês são? Kaleo não respondeu, fitando-a fixamente nos olhos. Thais tentou ler o homem, descobrindo-o ainda mais calmo do que ela esperava. Ele não demonstrava remorso ou culpa, pelo contrário, ele tinha a convicção de que as pessoas daquela ilha estavam fazendo o que era preciso para sobreviver, o que não fazia muito sentido, considerando que todos estavam mortos no Paraíso. Thais imaginou que a guerra e a presença dos Filhos estavam mudando as almas Nascidas no Paraíso; assim como o próprio mundo estava cada vez mais parecido com a Terra, eles estava cada vez mais como a humanidade: corrompidos e egoístas, prontos para jogar o próximo no fogo se isso significasse sua própria liberdade. – Você já os avisou de nossa presença, não? – Minato disse, encarando o havaiano. – Não trancou a porta para manter pessoas fora, mas para nos segurar aqui dentro. – Hu’ala disse que forasteiros não eram permitidos, mesmo das outras ilhas. – Kaleo disse, frio; não havia remorso. – Assim, minha família sobrevive. Quase imediatamente, eles ouviram movimentação do lado de fora. Com um soco, Minato jogou Kaelo de sua cadeira, desacordado no chão. Olharam pela janela para descobrir alguns Filhos do abismo surgindo no quintal graças à Pnamryaks. O trio trocou olhares, pegando seus gravetos. – Eu vou por aqui. – Minato disse, fechando outra vez a cortina. – Vocês atravessem a casa e os peguem de surpresa pelo caminho. – Espere! – Thais disse, impedindo-o de saltar pela janela; olhou em volta, sentindo-se preocupada com ele. Viu em um dos cantos, camuflado em uma estante, a porta de um pequeno frigobar. Abriu-o para descobrir apenas refrigerantes e gelo, exatamente o que ela precisava – queria, mas não esperava encontrar nada alcoólico. Pegou a forma de gelo e disse para Minato colocar suas duas espadas sobre a mesa. Ouviram a porta traseira abrindo e passos pesados na direção deles. Jared trancou a porta, não que isso os seguraria por muito tempo. Thais jogou o gelo sobre as lâminas, dizendo palavras de sua magia, adaptando feitiços que na Terra seriam Yav – plano terreno – para Nav – plano espiritual, já que a maioria das coisas no Paraíso não possuíam corpo físico, sendo feitos apenas de material espiritual, incluindo espadas, casas e gelo. – Suas espadas irão aguentar o calor dos Filhos. Não irá matá-los, infelizmente, mas como um amigo me disse uma vez: qualquer ser, mesmo que imortal, demora a se recuperar quando tem sua cabeça cortada. – Ela não sabia como, mas arrancou um sorriso de Minato. As batidas na porta começaram. O samurai, sem hesitar – depois de ter suas espadas em mãos – saltou pela janela, quebrando vidro e madeira apenas com o impacto; a cortina foi arrancada de seu suporte. Logo, ele estava engajado em um combate veloz contra um par de Filhos. Cinco Filhos do Abismo entraram com brutalidade dentro do escritório. Thais conseguiu prender dois deles antes de um ataque de lava viesse contra ela. Desviou saltando para o lado; Jared fez o mesmo, porém com menos habilidade, pois não tinha treinado como ela o fizera com Minato – e até antes, quando ainda estava com Leonard ou antes disso, ainda em vida. Aproveitou para prender mais um. Os outros dois ficaram claramente frustrados, o que tirou um sorriso de Thais. Ela não era uma combatente, mas sabia se virar. Jogou os gravetos no chão enquanto dava uma cambalhota para o lado da mesa, quase acertando as pernas de Kaleo. O Filho percebeu seu feitiço tarde demais, pois pisou em um graveto e foi aprisionado em madeira. Precisou jogar seu último graveto contra o Filho que estava prestes a cravar lâmina de lava no peito de seu companheiro. Jared sorriu aliviado. – Vamos. – Thais comandou com ódio em seu coração, pensando em seguida que, de fato, ela estava mudada; nunca sentiria ódio em um Paraíso pré-guerra. Assim que colocou os pés para fora do escritório, viram três Filhos passando pela sala de jantar, agora vazia das almas, vindo rapidamente contra eles. Thais bateu a palma com força na parede mais próxima, sabendo que era feita de madeira. – Yav in Nav: živega lesa! – Mundo Material e Espiritual: Madeira Viva. Das paredes, do chão e do teto surgiram galhos de madeira brotando como braços, enrolando-se nos Filhos, cravando em suas peles dolorosamente. Seu sangue laranja e quente caindo o chão e chamuscando-o apenas com um toque. Apenas quando seus inimigos pararam de se mexer, incapacitados – porém, vivos – foi que ela tirou a mão da parede. Correram para o lado de fora da casa. Minado estava suado e coberto de seu sangue vermelho, vindo de cortes em seu peito, braços e pernas; havia um leve no pescoço, mas este estava milagrosamente cauterizado. Cinco Filhos a sua volta estavam decepados, caídos na grama. Thais podia ver o começo de suas regenerações já acontecendo, por isso, colocou a mão no chão e disse um feitiço para que a madeira mantivesse cabeça e corpo separados. – Temos que partir imediatamente. Logo eles mandarão mais Filhos, se é que já não estejam vindo. – Minato disse, ofegante; ambos concordaram. Thais, porém, voltou rapidamente para a cozinha, vendo que os últimos inimigos que tinha incapacitado estavam começando a recuperar a consciência; ela usou mais um feitiço de madeira para transpassá-los pela cabeça e ganhar um pouco mais de tempo. Uma vez no cômodo, ela abriu todos os armários e a geladeira, marcando a maior quantidade de alimentos que conseguia; assim, quando estivesse de volta ao barco, poderia reabastecê-los para longa viagem até o Peru. De volta ao quintal, Minato falou que viu inimigos vindo pela estrada, correndo ou usando suas habilidades de Ryak para chegarem ali mais rápido. Thais imaginou que até mesmo os Pnamryaks tinham seus limites. Correram pelo caminho em que vieram, jogando areia para o alto enquanto atravessaram a praia. Empurraram o bote para voltarem ao barco e, quando estavam neste, partiram imediatamente. Thais não gostava nem um pouco de retornar para o oceano, tendo passado tão pouco tempo em terra firme – e um tempo tão terrível na mão de almas corrompidas. Entretanto, sabia bem que não teriam outra maneira de viajar – nem mesmo saberiam como começar a botar um avião no ar, e não conheciam nenhum piloto. Enquanto eles passavam entre as ilhas Kauai e Ni‘ihau, indo em direção ao sul para contornar o resto das ilhas, ela trouxe da casa os mantimentos que tinha marcado. Ainda, Jared informou que precisaram também parar para conseguir combustível, ou não iriam muito mais longe que Big Island, a maior ilha do arquipélago do Havaí. Jared informou que ficaria relativamente próximo a costa, para aproveitar as correntes naturais para acelerar a viagem e levá-los mais rápido até o próximo ponto de palavra. Involuntariamente, sem mesmo Thais saber muito bem por que começou, seu coração começou a acelerar. Começou a suar e lágrimas caiam de seus olhos. Apenas quando ela viu O’ahu que soube o porquê da reação de seu subconsciente sobre seu corpo. Fora ali, tantos e tantos anos antes – em outro mundo – que a vida de Thais cessou. Ela viu o fantasma de dezenas de navios americanos parados em diversos pontos, alguns mais próximos da ilha outros mais longe; porta-aviões, couraçados, cruzadores – de batalha ou não – e fragatas. Thais via a todos. Quase como se estivesse viva outra vez, pôde ouvir os motores dos aviões, zunindo como abelhas distantes; ela olhou para o alto, vendo os aviões jogando bombas sobre os navios, alguns até mesmo jogando o próprio avião – uma manobra batizada k******e. Ela viu as explosões acontecendo a sua volta; viu uma guerra cujas consequências seriam uma mancha na humanidade mesmo tendo passado tanto tempo. Ao olhar para baixo viu a menininha que lhe pediu ajuda para salvar a mãe dela. Thais não sabia se o tinha feito; se sim ou se não, não sabia que ela teria ido ao Paraíso. Minato parou ao seu lado acabando com as alucinações de Thais. Ele apontou para céu, que agora estava escuro devido à noite que já começara um tempo atrás. Viram uma criatura laranja com asas de morcego vindo do Oeste e pousando em Kauai. – Ele veio para coletar seus mohais. – Thais informou o óbvio. – Sim. – Minato completou; agora já estava limpo e de roupa trocada. Sua armadura estava jogada em um canto para ser limpada no dia seguinte. Thais notou certa tristeza em sua voz, o que a fez lembrar de algo que tinha deixado de lado inconscientemente: – Sinto muito que nós não tivemos a chance de ir atrás de sua família. – falou, fitando-o de baixo, já que ele era mais alto; o samurai, porém, não a olhava. – Nós podemos fazer o feitiço aqui? – Era a primeira vez que Minato, de fato, pedia algo para ela; a maior parte das vezes, ele usava indiretas. – Tenho todos os ingredientes. Thais o acompanhou até a cabine que ele dividia com Jared – ela mesma tinha uma só para ela. Ele pegou um saco de pano, dentro do qual ela encontrou um mapa, velas e pele de cobra. A dupla se colocou a trabalhar.
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