Capítulo 02- Nilo ( Nadson para a Família)

1020 Words
Meu nome é Nilo. Mas pra minha mãe e pra minha irmã, eu sempre fui Nadson. É engraçado como um nome pode carregar duas vidas completamente diferentes. Nadson é o menino que nasceu e cresceu no Morro do Alemão, correndo descalço pelos becos, jogando bola em rua de barro, sonhando pequeno porque a realidade nunca deixou sonhar grande. Nilo é o homem que a comunidade respeita, que os inimigos temem e que a polícia conhece pelo silêncio. Eu nasci aqui. E não foi fácil chegar onde cheguei. Sou aquele meio-termo que ninguém sabe definir direito: nem branco, nem moreno. Bronzeado de sol, de laje, de rua. Olhos castanhos sempre atentos, corpo malhado não por estética, mas por necessidade. Aqui, fraqueza não dura muito tempo. Minhas tatuagens contam histórias que não cabem em conversa nenhuma. Algumas são homenagem. Outras são aviso. Meu pai morreu cedo demais. Câncer. Eu ainda era moleque quando vi um homem forte definhar aos poucos, perdendo o brilho no olhar enquanto a gente perdia também a estrutura da casa. Lembro do cheiro de remédio, do silêncio pesado e da minha mãe tentando ser forte enquanto o mundo dela desmoronava. Quando ele se foi, sobramos nós três: eu, minha mãe e minha irmã mais nova. Minha mãe virou guerreira no automático. Faxina atrás de faxina, casa dos outros, chão dos outros, banheiro dos outros. Saía antes do sol nascer e voltava quando ele já tinha ido embora fazia tempo. O dinheiro m*l dava pra pagar as contas e colocar comida em casa. Teve dia que a mistura era só ovo. Teve dia que não tinha mistura nenhuma. Eu via tudo. E aquilo me corroía por dentro. Aos quinze anos, eu entendi que ninguém vinha nos salvar. Foi aí que eu fui atrás do corre. A boca sempre esteve ali, na esquina, respirando junto com o morro. O antigo dono era o FV. Homem respeitado, palavra firme, postura de chefe. Pelo menos era o que parecia. Comecei de baixo, como todo mundo. Vapor. Correndo com rádio na cintura, olho vivo, coração acelerado. Aprendi rápido. Aqui, quem demora demais não dura. Foi nessa época que conheci o Betinho. Viramos amigos quase sem perceber. Corríamos juntos, dividíamos pão, dividíamos risco. Quando um tinha, os dois tinham. Quando um caía, o outro levantava. Betinho era irmão que a vida me deu quando a família já tinha perdido demais. Os anos passaram, o respeito foi chegando, e eu subindo de posição. Mas nem tudo que cresce é limpo. Começaram os boatos. Diziam que o FV não prestava. Que por trás da postura de chefe, ele era um monstro. Jack. Falavam que ele estuprava algumas meninas do morro, sempre no silêncio, sempre no medo. Mas boato não derruba dono. Aqui, acusação sem prova vira sentença de morte pra quem fala. Eu não queria acreditar. Talvez por covardia. Talvez por medo de mexer numa estrutura que, até então, mantinha minha família viva. Até o dia em que não deu mais pra fechar os olhos. Eu tinha dezenove anos. Fui levar uns acertos na boca numa noite que parecia igual a todas as outras. Mas nada era igual. Quando entrei no barraco, ouvi gritos. Gritos de desespero, de dor, de alguém que implorava por socorro. Meu corpo reagiu antes da cabeça. Abri a porta e peguei o FV no flagra. Ele e o sub dele. Não houve conversa. Não houve tempo pra reação. Dois tiros. Um na testa de cada. Não foi impulso. Foi justiça crua. Foi limite ultrapassado. Ali, eu deixei de ser só mais um soldado. O caso foi levado pra facção. A comunidade falou. As meninas falaram. As verdades que antes eram sussurros viraram grito. E o morro passou a ser meu. Assumir o comando não foi glamour. Foi peso. Responsabilidade. Decisão que custa sono. Eu coloquei regras. Deixei claro que ali ninguém encostava em mulher nenhuma. Quem vacilasse, não ficava. Simples assim. Ganhei o respeito da comunidade. Onde eu passo, sou temido. Para alguns, respeito. Para outros, medo. Eu aprendi a viver com isso. Minha rotina virou estratégia, controle, comando. Reunião com os cria, cobrança, proteção do território. Não é só sobre dinheiro. É sobre manter o morro em pé, evitar guerra desnecessária, proteger quem não tem culpa de nada. Mas nem só de morro vive um homem. De vez em quando, eu desço. Preciso sentir que o mundo não termina na subida do Alemão. Naquela noite, eu fui parar numa boate da Zona Sul. Ambiente que não era meu. Gente arrumada demais, cheiro de perfume caro, bebida que custa mais do que muito aluguel no morro. Eu não fui pra aparecer. Fui pra observar. Sempre fui bom nisso. Foi aí que eu vi ela. A DJ. Lá de cima da cabine, ela comandava a pista como se fosse dona de tudo. Cabelo loiro caindo até a cintura, corpo firme, presença forte. Não era só bonita. Era segura. Cada movimento dela tinha intenção. Cada música parecia escolhida pra controlar o pulso de quem estava ali. A pista pulava. Eu não. Fiquei parado, olhando. Ela me viu. Nossos olhares se cruzaram por segundos que disseram mais do que muita conversa. Não sei explicar o que senti. Não foi desejo imediato. Foi curiosidade. Reconhecimento estranho. Como se, mesmo em mundos diferentes, a gente falasse a mesma língua silenciosa. Ela desviou o olhar primeiro. Voltou pra música. Mas eu sabia que tinha ficado marcado. Quando o set terminou, a casa veio abaixo. Gente gritando o nome dela, pedindo mais. Ela sorriu daquele jeito que quem ama o que faz sorri. Não era sorriso treinado. Era verdade. Eu virei as costas e fui embora. Não gosto de chamar atenção onde não controlo. Mas levei comigo aquela imagem. A DJ da Zona Sul. Na volta pro morro, encostado no banco do carro, fiquei pensando como dois mundos tão diferentes podiam se cruzar num olhar só. Ela não fazia ideia de quem eu era. E talvez fosse melhor assim. Porque quando a música encontra o poder, ninguém sai ileso. E eu sentia, pela primeira vez em muito tempo, que algo fora do meu controle tinha acabado de começar.
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