Capítulo 01 A Batida da Minha Vida
Capítulo 1 — Estefany
Eu sempre digo que minha vida começou no dia em que senti o grave atravessar meu peito pela primeira vez. Não foi quando nasci, não foi quando aprendi a andar, nem quando dei meu primeiro beijo escondido no portão da escola. Foi ali, no meio de uma pista lotada, com as luzes cortando a fumaça e o som pulsando tão alto que parecia sincronizar com o meu coração. A música me escolheu antes mesmo de eu entender quem eu era.
Meu nome é Estefany, tenho 19 anos, pele branca que fica dourada quando o sol resolve ser generoso, cabelo loiro natural que cai liso até a cintura e olhos verdes que minha mãe diz serem minha maior herança — mesmo sem nunca ter conhecido meu pai. Meu corpo é malhado, não por vaidade apenas, mas porque a noite cobra resistência. Ficar horas em pé, comandar uma pista inteira, sorrir mesmo quando o cansaço grita por dentro, tudo isso exige mais do que talento. Exige preparo.
Sou DJ há dois anos, oficialmente. Extraoficialmente, acho que nasci DJ. Desde pequena eu desmontava qualquer rádio velho que aparecesse em casa, curiosa para entender de onde vinha aquele som que mudava o clima do ambiente. Enquanto outras meninas sonhavam com vestidos ou príncipes encantados, eu sonhava com fones grandes, mesas cheias de botões e pessoas se entregando à música que eu escolhesse tocar.
Moro na Zona Norte com a minha mãe, em um apartamento simples, mas cheio de histórias. As paredes já ouviram nossas brigas, nossas risadas e, principalmente, meus sets sendo treinados madrugada adentro. Ela sempre reclamou do barulho, mas nunca me mandou parar. Acho que no fundo ela sabia que aquilo era maior do que um hobby.
Meu pai… bem, esse sempre foi um capítulo em branco. Nunca o conheci. Minha mãe diz que foi só uma noite, uma dessas histórias que a vida escreve rápido demais e depois não explica. No começo, quando eu era criança, aquilo me incomodava. Eu queria um rosto, um nome, qualquer coisa. Hoje, aprendi a conviver com esse vazio. Ele não esteve presente, mas também nunca me impediu de ser quem eu sou. Talvez a ausência dele tenha me ensinado a não depender de ninguém além de mim mesma.
Minha rotina é intensa. Durante o dia, tento dormir o máximo possível, cuidar do corpo, ouvir músicas novas, estudar tendências, criar playlists e pensar em sets que façam sentido com cada tipo de público. À noite, me transformo. Maquiagem marcada, roupa justa na medida certa, fone no pescoço e a mente focada. Quando subo no palco, deixo de ser apenas Estefany. Viro energia, comando, vibração.
Me apresento, quase sempre, nas boates da Zona Sul. É lá que estão as casas mais disputadas, os olhares mais críticos e, ao mesmo tempo, as maiores oportunidades. Cada noite é uma prova. Você pode estar no auge hoje e ser esquecida amanhã se não entregar algo novo, algo que faça as pessoas voltarem.
Não chego sozinha. Nunca. Tenho o Lucas comigo — meu amigo, parceiro e praticamente meu braço direito. Ele cuida dos equipamentos, da agenda, dos contatos, das negociações. Enquanto eu penso em BPM, transições e drops, ele pensa em horários, contratos e logística. A gente se entende no olhar. Lucas é daqueles amigos raros, que não tentam brilhar mais que você, nem te puxam pra baixo por inveja. Ele acredita em mim mais do que muita gente da minha própria família.
— Você nasceu pra isso, Stef — ele sempre diz, enquanto confere cabos e ajusta o som. — Dá pra ver na sua cara quando você tá na pista.
E ele tem razão. Na pista, eu me sinto inteira.
Minha mãe, por outro lado, nunca perde a chance de lembrar:
— Filha, música é linda, mas não é garantia de futuro. Já pensou em fazer uma faculdade?
Eu escuto, respiro fundo e respondo sempre a mesma coisa:
— Mãe, meu futuro é esse.
Não é rebeldia. É certeza. Eu não me vejo atrás de uma mesa de escritório, presa em horários fixos, vivendo finais de semana que não são meus. A música me dá liberdade, identidade e propósito. Mesmo que seja instável, mesmo que às vezes assuste, é o único caminho que faz sentido pra mim.
Claro que nem tudo é glamour. Tem noites vazias, cachês atrasados, olhares atravessados por eu ser mulher em um meio ainda dominado por homens. Já ouvi comentários que tentavam me diminuir, como se minha aparência fosse mais importante do que meu talento. Aprendi cedo a não discutir. Deixo a resposta vir no som, na pista cheia, no público pedindo mais.
Naquela noite específica, eu sentia que algo estava diferente.
A boate ficava de frente pro mar. Da cabine, eu conseguia ver a orla iluminada, os carros passando devagar, gente bonita circulando como se a vida fosse sempre uma sexta-feira eterna. O cheiro de bebida, perfume caro e maresia se misturava no ar. A casa estava cheia, talvez mais do que o normal.
Lucas me avisou:
— Casa lotada hoje. Público misto, mas tem uma galera diferente aí.
— Diferente como? — perguntei, ajustando os fones.
Ele deu de ombros.
— Energia diferente.
Ignorei. Quando a música começa, todo o resto some.
Soltei o primeiro drop e a pista respondeu na hora. Corpos se movendo, mãos para o alto, gritos, celulares filmando. Eu sorria, sentindo aquele poder silencioso que só quem comanda uma multidão entende. Não é sobre mandar. É sobre conduzir.
Entre uma música e outra, meus olhos passearam pela pista, até que pararam em um ponto específico.
Ele não dançava.
Enquanto todo mundo pulava, ele apenas observava. Alto, postura firme, todo de preto estranho demais para aquele ambiente sofisticado, mas ainda assim chamava atenção. Havia algo no jeito dele — um controle frio, quase perigoso. Nossos olhares se cruzaram por segundos que pareceram longos demais.
Senti um arrepio estranho.
Desviei o olhar, me concentrando na mixagem, tentando ignorar aquela sensação incômoda. Eu não me distraía fácil. Não naquela posição. Mas, vez ou outra, meus olhos voltavam sozinhos pra ele.
Ele continuava ali.
Imóvel.
Como se a música não fosse capaz de alcançá-lo.
Quando o set terminou, a casa veio abaixo em aplausos. Eu agradeci, sorri, joguei beijos e desci da cabine com o coração acelerado — não só pelo esforço físico, mas por aquela presença que ainda ecoava na minha mente.
— Mandou muito — Lucas disse, animado. — O dono da casa adorou.
Assenti, ainda procurando alguém no meio da multidão.
— Tá procurando quem? — ele perguntou, curioso.
— Ninguém — respondi rápido demais.
Mentira.
Eu sabia exatamente quem estava procurando.
Mas ele já não estava mais lá.
Naquele momento, eu ainda não tinha ideia de que aquele olhar silencioso marcava o início de algo muito maior do que eu podia imaginar. Muito além da música, da Zona Sul, da minha rotina e das certezas que eu achava que tinha.
A DJ e o dono do morro ainda nem tinham se apresentado.
E a batida da minha vida estava prestes a mudar.