Capítulo 6

1042 Words
Capítulo 6 — Betinho Meu nome não é Betinho. Nunca foi. Mas faz tanto tempo que me chamam assim que, às vezes, eu mesmo esqueço quem eu era antes disso. Bruno. Esse é o nome que tá no papel. O nome que minha mãe escolheu antes de ir embora como se eu fosse só mais um peso que ela não quis carregar. Engraçado como um nome pode perder o sentido dependendo de quem usa. Bruno ficou no passado. Betinho ficou no morro. E foi o morro que me criou de verdade. --- Se você olhar pra mim de longe, talvez não veja nada demais. Altura média, corpo fechado na rotina da rua, braço marcado por tatuagens que não são pra enfeite. Cabelo baixo, sempre na régua. Mas o que chama atenção mesmo… São os olhos. Verdes. Diferente do comum daqui. Já ouvi gente dizer que é “olho de gente que não pertence”. Nunca liguei. Olho não define ninguém. O que define é o que você faz com o que te deram. --- Minha história não começa bonita. Na verdade, começa do jeito mais comum que existe por aqui. Abandono. Minha mãe sumiu quando eu tinha seis anos. Sem explicação. Sem despedida. Sem nada. Um dia ela tava lá. No outro… não tava mais. No começo eu esperei. Ficava sentado na porta de casa, olhando a rua, achando que a qualquer momento ela ia aparecer dobrando a esquina. Não apareceu. Nunca mais. Meu pai? Esse eu nem conheci. Nome, rosto, história… nada. Só mais um vazio que eu aprendi a não preencher. Quem me criou foi minha avó. Dona Lúcia. Ela não tinha muito. Mas tinha o suficiente pra me ensinar a ficar de pé. E, no lugar onde eu cresci… Isso já é tudo. --- Conheci o Nilo quando a gente ainda era moleque. Na época, ele ainda era Nadson. A gente se esbarrou na rua, bola rolando, grito, poeira. Nada especial. Mas ficou. E, quando eu vi, já tava andando com ele. Depois correndo com ele. Depois… vivendo a mesma vida que ele. A gente cresceu junto. No corre. No risco. Na escolha que ninguém quer fazer, mas faz porque não tem outra. E, no meio disso tudo, a gente virou o que é hoje. Parceria. Lealdade. Daquelas que não se explica. --- Mas teve uma coisa que sempre foi diferente entre a gente. Mulher. Eu nunca confiei. Nunca. E não foi do nada. Minha mãe indo embora já foi o começo. Depois vieram outras coisas. Traição. Erro. Gente caindo por causa de sentimento. Aqui, isso não é detalhe. É sentença. Então eu aprendi. Mulher, pra mim, sempre foi simples. Sem apego. Sem espaço. Sem envolvimento. Porque no mundo em que eu vivo… Sentir demais é perder demais. --- Nilo nunca foi igual a mim nisso. Mas também nunca foi de se envolver. Sempre manteve controle. Sempre soube separar as coisas. E foi isso que fez ele chegar onde chegou. E foi por isso que eu sempre respeitei. --- Naquela noite do baile… Eu percebi antes mesmo de ver. O movimento tava diferente. A energia mais alta. Mais cheia. Mais viva. — Trouxeram uma DJ de fora — um dos moleque comentou. Nem dei muita atenção. Até dar. --- Quando ela subiu na cabine… Eu olhei. E, por um segundo… Alguma coisa saiu do lugar. Não foi pela música. Não foi pela aparência. Foi… outra coisa. Ela era loira. Pele clara. Nada a ver com o padrão daqui. Mas não era isso. Era o olhar. Firme. Direto. Sem medo. E, quando a luz bateu no rosto dela… Eu vi. Verde. Igual ao meu. Aquilo me incomodou. Na hora. Sem motivo. Sem lógica. Só incomodou. Desviei o olhar. Mas voltei. Sem perceber. Como se tivesse alguma coisa ali que puxasse. Errado. Totalmente fora do que eu costumo fazer. Franzi a testa, incomodado comigo mesmo. — Qual foi? — um dos cria perguntou. — Nada. Mas não era nada. --- Continuei olhando. E quanto mais eu olhava… Mais estranho ficava. Não era atração. Não era interesse. Era… familiar. E isso me irritou mais ainda. Porque eu não gosto de coisa que eu não entendo. Principalmente quando mexe comigo sem pedir permissão. --- Foi aí que eu vi. Nilo. No camarote. Parado. Olhando. Do jeito dele. Mas… não igual. Eu conheço aquele olhar. E aquilo não era só observação. Aquilo tinha peso. --- Voltei pra ela. Pra DJ. E, por um segundo… Veio uma sensação que eu não soube explicar. Como se eu tivesse que… Prestar atenção. Mais do que o normal. Mais do que faria com qualquer pessoa. Como se alguma coisa dentro de mim dissesse: “Olha direito.” Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo. Nada a ver. --- Mas não passou. Só piorou. Porque, no meio da música, no meio da pista, no meio de tudo… Eu me peguei pensando uma coisa que eu nunca penso: Se alguém mexer com ela… Vai dar r**m. --- Travei. Na hora. Aquilo não fazia sentido. Nenhum. Eu não protejo gente de fora. Eu não me envolvo. Eu não… Mas o pensamento já tinha vindo. E isso bastou pra me deixar puto comigo mesmo. --- Olhei de novo. E, por um segundo rápido… Ela virou na minha direção. Os olhos encontraram. Verdes. De novo. Aquilo bateu estranho. Como um déjà vu que eu não sabia de onde vinha. Desviei na hora. Irritado. Sem entender. --- Voltei a olhar pro Nilo. E aí eu tive certeza. Isso não ia acabar simples. Porque eu conheço ele. E do jeito que ele tava olhando pra aquela mina… Aquilo não era normal. --- E, pior… Do jeito que eu tava reagindo… Também não. --- Soltei o ar devagar, passando a mão no rosto. Tentando colocar as coisas no lugar. Mas já era tarde. Porque, no fundo… Eu senti. Aquilo não era coincidência. Não era só mais uma noite. Não era só mais uma pessoa. Tinha alguma coisa ali. Alguma coisa errada. Ou certa demais. E eu não sabia qual das duas opções era pior. --- Só sabia de uma coisa: Aquilo ia dar problema. E, pela primeira vez em muito tempo… Eu não tinha certeza se eu tava mais preocupado com o Nilo… Ou com ela.
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