Capítulo 08

1695 Words
Capítulo 8 — Estefany Os dias depois do baile passaram estranhos. Não ruins. Não caóticos. Só… estranhos. Como se alguma coisa tivesse saído minimamente do eixo e meu corpo tivesse percebido antes da minha cabeça aceitar. Eu tentei continuar normalmente. Juro. Acordei cedo, organizei playlist, revisei agenda, fiz reunião online com uma casa noturna da Barra, respondi seguidores, gravei vídeo pro t****k, ouvi música nova, montei transição. Rotina. Sempre funcionou pra mim. A música sempre colocou tudo no lugar. Mas, dessa vez… Nem ela tava conseguindo direito. Porque bastava um segundo de silêncio… E ele aparecia. Não o rosto inteiro. Nunca. Às vezes era só o olhar. Às vezes a voz. Às vezes a lembrança da forma como ele me observava sem parecer impressionado com nada ao redor. E isso me irritava profundamente. Porque eu não era mulher de ficar pensando em homem. Muito menos em um homem que eu nem conhecia direito. Ou talvez justamente por não conhecer. Soltei o ar devagar enquanto mexia no notebook na mesa da cozinha. Minha mãe passou atrás de mim segurando uma cesta de roupa. — Você tá aérea hoje. Nem levantei o olhar. — Tô trabalhando. — Tá pensando. — Também. Ela riu baixo. — Homem? Revirei os olhos imediatamente. — Nossa, mãe. — Então é sim. Balancei a cabeça, fechando o notebook antes que ela começasse a criar teorias. — Não tem homem nenhum. Ela me analisou por alguns segundos. Daquele jeito que mãe faz quando percebe coisa antes da gente perceber. — Só cuidado pra não se perder em gente errada. A frase veio simples. Mas bateu estranho. Porque, sem querer… Meu pensamento levou direto pra ele. Respirei fundo. Chega. Aquilo tava começando a ficar ridículo. Peguei a bolsa em cima do sofá e fui direto pra porta. — Vou resolver umas coisas no centro. — Vai comer direito! — Vou! Saí antes que ela resolvesse continuar o interrogatório. ⸻ O trânsito tava infernal. Como sempre. Cidade grande parece viver em estado permanente de irritação coletiva. Buzina, gente apressada, moto passando apertado, calor subindo do asfalto. Coloquei música no carro tentando distrair a cabeça. Não funcionou. Então desliguei. Pior ainda. Porque silêncio virou sinônimo de pensamento. E pensamento ultimamente sempre terminava nele. No baile. No olhar. Naquela sensação estranha que eu ainda não sabia nomear. Curiosidade? Perigo? Atração? Talvez tudo misturado. Talvez nada disso. Estacionei perto da loja de equipamentos e desci ajustando os óculos escuros no rosto. Eu precisava focar em coisa útil. Meu controlador novo tinha dado problema na última apresentação e eu não ia esperar parar de funcionar de vez no meio de um set. A loja ficava em uma rua movimentada, cheia de vitrines e gente entrando e saindo o tempo todo. Assim que entrei, fui recebida pelo ar gelado do ar-condicionado e pelo cheiro familiar de eletrônico novo. Aquilo sempre me acalmava. Mesa de som. Fones. Caixas. Cabos. Meu mundo fazia sentido ali. — Estefany! — um dos vendedores me reconheceu quase na hora. — Que honra. Sorri de leve. — Preciso de ajuda, infelizmente. Ele riu. — O que aconteceu? Comecei a explicar o problema enquanto caminhávamos até a parte dos equipamentos profissionais. Minha atenção foi direto pras controladoras expostas, analisando modelos, funções, qualidade. E, pela primeira vez em dias… Minha cabeça desacelerou. Era disso que eu gostava. Música sem confusão. Som sem tensão. Controle. Passei a mão devagar sobre um dos equipamentos enquanto o vendedor falava sem parar do sistema novo. Até que… Meu corpo sentiu antes. Aquela sensação de novo. Forte. Imediata. Meu coração bateu errado. Lento e rápido ao mesmo tempo. Franzi levemente a testa, ainda de costas. Não. Não podia ser. Mas era. Porque eu reconheceria aquela presença em qualquer lugar. Virei devagar. E encontrei ele. Nilo. Parado a poucos metros. Roupa escura, postura firme, olhar fixo em mim como se o resto da loja simplesmente não existisse. Meu estômago apertou na hora. Deus. O que aquele homem tinha no olhar? Porque não era normal. Não era. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. E foi pior assim. Porque o silêncio entre a gente nunca vinha vazio. Sempre vinha carregado de alguma coisa que eu não sabia explicar. Foi então que percebi outra presença ao lado dele. Betinho. Os olhos verdes bateram nos meus por um instante rápido demais. Mas suficiente. E aquela sensação estranha voltou. Diferente da que eu sentia com Nilo. Mais confusa. Mais incômoda. Como se houvesse alguma coisa familiar ali que eu não conseguia alcançar. Ele desviou primeiro. Como se aquilo também tivesse mexido com ele. Estranho. Muito estranho. — Tá me seguindo? — falei antes mesmo de pensar. A voz saiu firme. Mas meu coração não tava acompanhando a postura. Um canto da boca do Nilo subiu de leve. Quase um sorriso. Quase. — O mundo não gira em volta de você, DJ. Revirei os olhos imediatamente. — Engraçado você aparecer em todos os lugares que eu tô. — Engraçado você aparecer nos lugares que são meus. Aquilo me fez travar por meio segundo. — Loja de equipamento agora é tua também? Ele deu um passo lento na minha direção. Calmo. Seguro. Perigoso sem esforço. — Frequento faz tempo. Meu corpo inteiro ficou atento automaticamente. O vendedor olhava de um pra outro sem entender absolutamente nada. E, sinceramente? Nem eu tava entendendo direito. Porque toda vez que ele aparecia parecia que alguma coisa mudava no ar. — Relaxa, princesa — Betinho falou pela primeira vez, quebrando a tensão. — Ninguém tá te perseguindo. Olhei pra ele. Direto. E foi estranho outra vez. Os olhos verdes. A sensação incômoda. Aquilo bateu errado dentro de mim. Mas antes que eu pudesse entender qualquer coisa, Nilo voltou a falar. — Resolveu o problema do equipamento? Franzi a testa. — Como você sabe? — Tu fala alto. Mentira. Eu não falava alto. Mas percebi pela expressão dele que aquilo foi proposital. Uma provocação. Cruzei os braços. — E você entende de música agora? — Entendo de coisa boa. A resposta veio automática. E alguma coisa no jeito que ele falou fez meu estômago apertar de novo. Meu Deus. Ridículo. Betinho soltou uma risada baixa ao lado dele, claramente percebendo o clima. — Eu vou ali resolver o bagulho — falou, se afastando devagar. Mas, antes de sair totalmente, ele olhou pra mim mais uma vez. Estranho. Quase atento demais. Como se tentasse descobrir alguma coisa. Aquilo me deixou desconfortável. Quando voltei a olhar pra frente, Nilo ainda tava me observando. Sem pressa. Sem vergonha. Sem desviar. — Qual foi? — perguntei. — Nada. — Você encara todas as pessoas assim ou eu sou especial? O canto da boca dele subiu outra vez. E aquilo definitivamente devia ser proibido. Porque deixava ele perigosamente mais bonito. — Tá querendo ser especial? Meu coração tropeçou bonito dentro do peito. Mas mantive a expressão firme. — Tá se achando demais. Ele inclinou levemente a cabeça, me analisando de um jeito lento que quase parecia toque. Quase. — E tu continua respondendo. Droga. Desviei o olhar primeiro dessa vez, fingindo interesse em uma controladora qualquer. O vendedor, percebendo que tava sobrando ali, inventou alguma desculpa e saiu discretamente. Ótimo. Agora ficou pior. Muito pior. Porque o silêncio voltou. E silêncio entre eu e Nilo nunca parecia normal. — Gostou do baile? — ele perguntou depois de alguns segundos. A pergunta veio simples. Mas carregada. Respirei fundo. — Foi diferente. — Diferente r**m? Olhei pra ele de novo. — Ainda tô decidindo. Ele me observou em silêncio por alguns segundos. Como se estivesse lendo além da resposta. Aquilo me deixava inquieta. Porque eu tinha a sensação absurda de que ele percebia coisas que eu tentava esconder até de mim mesma. — Tu ficou à vontade lá — ele comentou. Franzi levemente a testa. — Isso foi uma pergunta ou uma análise? — Observação. Claro que foi. Ele parecia observar tudo. Cada reação. Cada detalhe. Cada silêncio. — E você observa todo mundo assim ou eu sou um caso especial? — devolvi. Dessa vez ele sorriu de verdade. Pequeno. Mas sorriu. E aquilo bagunçou meu sistema inteiro de um jeito completamente irritante. — Curiosa tu, hein. Meu coração tava acelerado rápido demais pra uma conversa simples. E o pior? Eu sabia que o dele não tava. Nilo parecia perigosamente confortável perto da tensão. Como se estivesse acostumado a controlar qualquer ambiente. Qualquer situação. Qualquer pessoa. Menos eu. Ou talvez… Principalmente eu. Porque, por trás da calma dele, tinha alguma coisa ali. Eu sentia. Algo fora do lugar. Algo que ele escondia tão bem quanto eu tentava esconder minhas reações. — Estefany. Meu nome saiu da boca dele devagar. E aquilo fez alguma coisa dentro de mim parar por um segundo. Porque foi a primeira vez. A primeira vez que ele falou meu nome daquele jeito. Baixo. Firme. Quase íntimo demais. Engoli seco. — O quê? Ele me olhou por mais alguns segundos antes de responder. — Cuidado. Franzi a testa imediatamente. — Com o quê? O silêncio veio primeiro. Pesado. Denso. E então: — Com gente que fala bonito demais. Aquilo me pegou desprevenida. Porque eu percebi. Na hora. Ele não tava falando dele. Ou talvez também estivesse. Antes que eu conseguisse responder, Betinho reapareceu. — Já resolvi. O clima mudou automaticamente. Mas não desapareceu. Nada entre eu e Nilo desaparecia de verdade. Só ficava escondido por baixo da superfície. Betinho parou ao lado dele e me olhou de novo. Aquela mesma sensação estranha voltou. Como um eco. Como se eu já tivesse visto aqueles olhos em algum lugar da vida. Mas isso era impossível. Completamente impossível. — Foi bom te ver de novo, DJ — Betinho falou. Assenti devagar. Ainda confusa com aquela sensação inexplicável. Nilo continuava me olhando. Calmo demais. Como se já soubesse de alguma coisa que eu ainda não sabia. E talvez soubesse mesmo. Porque, quando ele se virou pra sair junto com Betinho, meu corpo inteiro percebeu uma verdade antes da minha cabeça aceitar: Aquilo não era coincidência mais. E, pela forma como meu coração acelerava toda vez que ele aparecia… Eu tava começando a entrar fundo demais em uma história que provavelmente devia evitar.
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