Capítulo 10

1220 Words
Capítulo 10 — Nilo Existem dois lugares onde eu sou obrigado a lembrar quem eu era antes de virar quem sou hoje. O primeiro é o quarto onde dormi a vida inteira. O segundo é dentro da minha própria casa. Porque lá fora eu sou Nilo. Aqui dentro… Eu ainda sou Nadson. E, por mais que eu tente esquecer isso às vezes, minha mãe e minha irmã nunca deixam. ⸻ Já passava das dez da noite quando eu finalmente consegui sair do movimento. O dia tinha sido longo. Reunião. Cobrança. Problema. Discussão. A mesma rotina de sempre. Mas, ultimamente, até a rotina parecia mais cansativa. Ou talvez fosse a minha cabeça. Subi a rua devagar, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho. — Boa noite, Nilo. — Deus te abençoe, meu filho. — Amanhã tem reunião da associação. Assenti para todos. Ali eu não era apenas o cara do morro. Era alguém que carregava responsabilidade. E responsabilidade pesa. Mais do que muita gente imagina. Quando cheguei em casa, a primeira coisa que senti foi o cheiro de comida. Comida de verdade. Feita por alguém que conhece cada gosto seu desde criança. Sorri sem perceber. Porque, por mais difícil que fosse admitir… Aquilo ainda era meu lugar favorito no mundo. Empurrei o portão. — Mãe? — Na cozinha! — ela respondeu imediatamente. Claro que estava. Minha mãe parecia ter nascido dentro de uma cozinha. Entrei encontrando exatamente a mesma cena de sempre. Panela no fogo. Pano de prato no ombro. E aquele olhar cansado que nunca conseguiu esconder a força que existia dentro dela. — Finalmente resolveu aparecer — ela falou. — Trabalhando. — E eu sou astronauta. Revirei os olhos. Ela riu. — Vai lavar essa mão. — Já lavei. — Lava de novo. — Mãe… — Lava. Balancei a cabeça enquanto ela sorria vitoriosa. Algumas coisas nunca mudam. ⸻ Quando voltei para a cozinha, ela já estava colocando comida no prato. — Como foi o dia? — Normal. Ela arqueou uma sobrancelha. — Mentira. — Como assim? — Quando você responde “normal” é porque aconteceu alguma coisa. Suspirei. Minha mãe tinha esse dom irritante de perceber coisas demais. — Não aconteceu nada. — Uhum. — Mãe… — Tá bom. Mas pela expressão dela eu sabia que ela não acreditou nem um pouco. ⸻ Foi nesse momento que ouvi o barulho da porta batendo. E então veio ela. Como um furacão. — Eu tô morrendo de fome! Larissa entrou na cozinha praticamente se jogando na cadeira. Dezoito anos. Cabelos cacheados escuros presos de qualquer jeito. Olhos castanhos. Energia para alimentar uma cidade inteira. Ela era o oposto de mim em quase tudo. E talvez por isso eu gostasse tanto dela. — Boa noite pra você também — falei. — Ah, tu tá aí. — Que educação. — Aprendi contigo. Minha mãe soltou uma gargalhada. Eu revirei os olhos. ⸻ — Como foi a faculdade? — perguntei. — Chata. — Resumiu quatro horas em uma palavra. — Sou eficiente. Ela roubou uma batata do meu prato. — Larissa. — O quê? — Pega do teu. — Mas a tua parece melhor. Minha mãe ria. Eu fingia irritação. Tudo normal. Pela primeira vez no dia. ⸻ Durante alguns minutos ficamos apenas conversando sobre coisas simples. A vizinha que brigou com o marido. O professor da Larissa. A conta de luz. A vida. Coisas normais. Coisas que me faziam lembrar que existia um mundo além do morro. Além do poder. Além das decisões difíceis. ⸻ Foi quando minha irmã me observou por tempo demais. E eu percebi. — O quê? — Nada. — Larissa. — Nada. Mentira. Conheço aquele olhar. — Fala. Ela sorriu. Devagar. Perigoso. Igual quando era criança e estava prestes a aprontar. — Tu tá estranho. Fechei os olhos. Não. Não ela também. — Começou. — Eu só falei que tu tá estranho. — E eu só tô jantando. — Não. Ela apontou o garfo na minha direção. — Estranho. Minha mãe olhou de um para o outro. Claramente interessada. Traidora. — Mãe. — Eu não falei nada. — Mas tá pensando. — Tô mesmo. As duas riram. Eu queria desaparecer. ⸻ — Vocês tão sem assunto? — Estamos. — Arrumem outro. — Tem mulher. Quase engasguei. Minha mãe arregalou os olhos. — Mulher? — Larissa. — O quê? — Para. — Então tem. — Não tem. — Tem sim. Minha irmã cruzou os braços. — Eu te conheço. — Infelizmente. — Tu tá diferente. — Todo mundo hoje resolveu virar psicólogo? — Não. Ela apoiou o rosto na mão. — Mas é mulher. Minha mãe tentou esconder o sorriso. Falhou miseravelmente. ⸻ — Vocês tão viajando. — Nome? — Não tem nome. — Então existe. Suspirei. Pesadamente. Porque qualquer resposta só piorava. — Não existe nada. — Uhum. — Larissa. — Tá bom. Ela levantou as mãos em rendição. Mas o sorriso continuava ali. ⸻ Depois do jantar, minha mãe foi organizar algumas coisas na cozinha. Larissa foi atrás dela. Eu aproveitei para fugir para a sala. Ou pelo menos tentei. Porque cinco minutos depois ela apareceu de novo. Se jogando no sofá ao meu lado. — Tu é chata. — Eu sei. — E gosta disso. — Muito. Sorri de canto sem querer. Ela percebeu. Claro que percebeu. — Olha aí. — O quê? — Sorriu. — E daí? — Então a mulher existe. — Meu Deus. Ela começou a rir. E, pela primeira vez em dias… Eu ri também. De verdade. ⸻ O silêncio confortável tomou conta da sala durante alguns minutos. Até que Larissa ficou séria de repente. Coisa rara. — Posso te perguntar uma coisa? Olhei para ela. — Pode. — Tu tá feliz? A pergunta me pegou desprevenido. Porque ninguém perguntava isso. Perguntavam se estava tudo certo. Se tinha problema. Se precisava resolver alguma coisa. Mas feliz? Nunca. Demorei alguns segundos para responder. — Acho que sim. Ela me observou. — Acho não é resposta. — E desde quando tu ficou tão filosófica? — Desde que cresci. Revirei os olhos. Mas ela continuava me encarando. Esperando. — Eu tô bem. Foi o melhor que consegui oferecer. Ela assentiu. Mas parecia entender que havia mais coisa ali. ⸻ Mais tarde, quando todos já estavam dormindo, subi para a laje. Velho hábito. Quando a cabeça fica cheia demais, eu procuro altura. Silêncio. Vento. Distância. Encostei na mureta observando as luzes espalhadas pela cidade. O morro continuava acordado. Sempre continua. Mas dali de cima parecia menor. Mais tranquilo. Peguei o celular do bolso sem pensar. Erro. Porque ultimamente eu vinha cometendo muitos desses. Passei o dedo pela tela. Uma vez. Duas. Até parar. Uma foto. Só isso. Uma foto qualquer. Estefany. Em cima de um palco. Sorrindo. Livre. Como se o mundo inteiro fosse dela. Fiquei olhando por tempo demais. E percebi. Talvez Betinho estivesse certo. Talvez Larissa também. Porque aquela mulher estava entrando em um lugar onde ninguém entrava fazia muito tempo. E isso me assustava mais do que qualquer guerra. Mais do que qualquer ameaça. Mais do que qualquer inimigo. Porque eu sabia enfrentar todos esses. Mas não fazia ideia do que fazer quando o problema estava dentro da minha própria cabeça. E, pela primeira vez em muito tempo… Eu não tinha controle sobre isso. E talvez fosse exatamente isso que me atraía nela. 🔥
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