Capítulo 9 — Nilo
O problema da mente é que ela acostuma rápido com aquilo que não devia.
E isso é perigoso.
Perigoso pra qualquer pessoa.
No meu caso… fatal.
Porque eu sempre vivi no controle das coisas. Sempre soube separar cada parte da minha vida do jeito certo. Problema de um lado, trabalho do outro, sentimento em lugar nenhum.
Foi assim que sobrevivi.
Foi assim que cheguei até aqui.
Então por que, pela primeira vez em anos, eu tava voltando pro morro com a cabeça em outro lugar?
Encostei no banco de trás enquanto o carro subia as ruas apertadas do Alemão. O vidro aberto deixava entrar o vento quente da noite, misturado com o som distante dos bailes espalhados pela comunidade.
Mas eu m*l ouvia.
Porque minha cabeça ainda tava naquela loja.
Nela.
Estefany.
O jeito que me encarou sem baixar os olhos.
A resposta atravessada.
A provocação.
E, principalmente…
O jeito que meu nome ficou diferente na boca dela.
Fechei os olhos por um instante, irritado comigo mesmo.
Ridículo.
Era só uma mulher.
Bonita, claro.
Inteligente também.
Mas ainda assim… só uma mulher.
E eu já tinha aprendido fazia muito tempo que homem nenhum cresce de verdade quando começa a deixar mulher entrar demais na cabeça.
Vi isso acontecer.
Vi parceiro perder foco.
Vi homem forte virar piada.
Vi erro nascer de distração pequena.
No nosso mundo, sentimento nunca vem sozinho.
Ele sempre traz consequência junto.
O carro parou.
Desci ainda em silêncio, subindo a viela principal enquanto alguns dos cria já iam falando comigo.
— Aí, paizão.
— Tudo certo lá embaixo.
— Teve movimentação estranha na divisa, mas já resolveram.
Assenti sem parar de andar.
Olho atento.
Postura firme.
Tudo igual por fora.
Mas alguma coisa tinha mudado.
E eu odiava perceber isso.
Subi direto pra boca principal, entrando no barraco enquanto o movimento acontecia em volta. Rádio ligado, dinheiro sendo contado, gente entrando e saindo, arma em cima da mesa, conversa atravessada.
Ambiente normal.
Meu ambiente.
O lugar onde eu sempre soube exatamente quem eu era.
— Os fornecedor confirmou amanhã cedo — um dos moleques avisou.
— Quantidade?
— Maior que a última.
Assenti.
— Organiza direito então.
Peguei um rádio em cima da mesa, ouvindo atualização de outro ponto enquanto caminhava devagar pelo espaço.
Mas, no meio da fala…
Minha cabeça fugiu.
De novo.
Ela encostada naquela controladora.
O olhar verde preso no meu.
A voz firme.
“Você tá se achando demais.”
Soltei um ar irritado pelo nariz.
— Tá ouvindo, Nilo?
Voltei na hora.
O moleque me encarava esperando resposta.
— Tô.
Mentira.
Não tava.
E o pior?
Eu percebi.
Na hora.
Meu maxilar travou de leve.
Porque isso nunca acontecia comigo.
Nunca.
— Tu quer subir reforço pra lá ou manter só os dois? — ele perguntou de novo.
Passei a mão devagar na nuca antes de responder.
— Mantém só os dois por enquanto. Qualquer movimentação diferente vocês sobe mais gente.
— Fechou.
Joguei o rádio de volta na mesa.
Respira.
Foca.
Mas tava ficando difícil.
Não porque ela tivesse feito alguma coisa.
Na verdade, era justamente o contrário.
Estefany parecia viver a própria vida normalmente.
Quem tava começando a sair do eixo era eu.
E isso me incomodava num nível que eu não sabia explicar.
Subi pra laje buscando ar.
Silêncio.
Qualquer coisa que organizasse minha cabeça.
A cidade brilhava ao longe enquanto o morro continuava vivo embaixo de mim. Som alto em algum canto, moto subindo, risada perdida no vento.
Tudo igual.
Só eu que não tava.
Puxei um cigarro do bolso e acendi devagar, tragando fundo.
— Tu tá fumando mais.
A voz veio antes da presença.
Betinho.
Encostou do meu lado como fazia desde moleque, observando a vista sem pressa.
Ignorei.
Ele soltou uma risada baixa.
— Tá piorando mesmo.
— Tu não trabalha não?
— Trabalho. Mas agora tô curioso.
Revirei os olhos.
— Curioso com o quê?
Ele virou o rosto lentamente na minha direção.
— Com a DJ.
Silêncio.
Pesado.
Puxei mais uma tragada antes de responder.
— Tu tá emocionado demais.
— E tu distraído demais.
Aquilo bateu seco.
Porque ele tava percebendo tudo.
Como sempre.
Betinho me conhecia há tempo suficiente pra notar mudança mínima. Um silêncio diferente. Uma reação fora do normal. Um segundo de distração.
E eu tava dando vários.
— Tá viajando — falei.
— Tô?
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Tu nunca esquece conversa no meio.
Não respondi.
Porque era verdade.
— Tu nunca fica olhando pro nada igual hoje.
Continuei em silêncio.
— E tu definitivamente nunca ficou pensando em mulher desse jeito.
Meu olhar foi direto pra ele.
— Cuidado com o que tu fala.
A resposta saiu mais pesada do que precisava.
Mas Betinho não recuou.
Nunca recuava comigo.
Só sustentou meu olhar calmamente.
— Tá vendo?
Franzi a testa.
— Vendo o quê?
— O jeito que tu reage quando falam dela.
Silêncio outra vez.
O vento batia forte ali em cima, mas meu corpo tava quente de irritação.
Não com ele.
Comigo.
Porque eu sabia.
Sabia que tinha alguma coisa acontecendo.
E não gostava nem um pouco disso.
— É só uma mulher — falei, mais pra mim do que pra ele.
Betinho soltou um riso curto pelo nariz.
— Então por que parece que ela tá entrando na tua cabeça desse jeito?
Meu maxilar travou de novo.
Porque eu não tinha resposta.
E isso era o pior.
Passei a mão no rosto devagar, tentando afastar aquela sensação.
Mas não adiantava.
Quanto mais eu tentava ignorar…
Mais ela aparecia.
A voz.
O olhar.
A postura.
Ela me enfrentando sem saber exatamente quem eu era.
Ou talvez sabendo… e não ligando.
Aquilo mexia comigo.
Mais do que devia.
— Só toma cuidado — Betinho falou depois de um tempo.
Olhei pra ele.
Sério dessa vez.
— Tu tá repetindo muito isso.
Ele deu de ombros.
— Porque eu conheço homem quando começa a sair do eixo.
— Eu tô no controle.
A frase saiu automática.
Mas vazia.
Betinho percebeu na hora.
Claro que percebeu.
— É isso que me preocupa.
Antes que eu respondesse, um dos moleques apareceu na entrada da laje.
— Nilo.
Olhei na direção dele.
— Fala.
— Os cara tão perguntando do baile de sábado.
Assenti devagar.
— O que que tem?
Ele riu.
— Tão perguntando se a DJ volta.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Por fora.
Mas por dentro…
Alguma coisa endureceu na hora.
— Pra quê?
A pergunta saiu seca.
Direta.
O moleque pareceu perceber tarde demais o clima mudando.
— Ah… nada demais não. Os cara tava falando dela lá embaixo.
Silêncio.
Pesado.
— Falando o quê?
Agora até Betinho ficou quieto.
Observando.
O moleque coçou a nuca, desconfortável.
— Que ela é bonita pra c*****o… que tem mó presença…
Continuei olhando.
Esperando.
— E?
Ele hesitou.
Erro.
Porque hesitação me irrita.
— Uns comentou que queria desenrolar ideia…
Pronto.
Foi rápido.
Automático.
Meu corpo reagiu antes da cabeça.
— Desenrolar ideia?
Minha voz saiu baixa.
Mas pesada o suficiente pra fazer o moleque travar.
O ambiente inteiro mudou.
Na hora.
Até Betinho ficou imóvel do meu lado.
— Eu… eu só tava falando o que ouvi…
Dei um passo lento pra frente.
Controlado.
Mas pior ainda assim.
— E tu ouviu… por quê?
— Nada demais, chefe…
— Eu perguntei por quê.
Agora minha voz tava mais fria.
Mais perigosa.
O moleque engoliu seco.
— Foi só comentário…
Silêncio.
Meu peito subia devagar enquanto eu tentava entender por que aquilo tava me irritando tanto.
Porque não fazia sentido.
Nenhum.
Ela não era nada minha.
Nem perto disso.
Então por que a simples ideia de outro cara chegando perto dela tava fazendo meu sangue ferver daquele jeito?
Betinho percebeu.
Claro que percebeu.
E isso só piorou tudo.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo antes de virar as costas.
— Some daqui — falei pro moleque.
Ele não esperou repetir.
Saiu quase correndo.
O silêncio ficou pesado na laje depois disso.
Denso.
Carregado.
Passei a mão na nuca outra vez, tentando voltar pro controle.
Mas alguma coisa já tinha escapado.
E eu sabia.
Betinho também.
— Tá vendo agora? — ele perguntou baixo.
Não respondi.
Porque não tinha resposta boa pra dar.
Porque, pela primeira vez em muito tempo…
Eu tinha reagido sem pensar.
Por causa dela.
E isso…
Isso era perigoso pra c*****o.
Fiquei em silêncio olhando as luzes da cidade ao longe enquanto a realidade começava a bater devagar dentro da minha cabeça.
Aquilo tava crescendo.
Mais rápido do que devia.
Mais fundo do que eu permitia.
E o pior?
Eu não sabia parar.
Porque toda vez que eu tentava colocar Estefany pra fora da mente…
Ela voltava mais forte.
Como música grudada na cabeça.
Como vício começando sem você perceber.
E, no fundo…
Talvez fosse exatamente isso que tava acontecendo.
Eu tava começando a me apegar a uma mulher que claramente tinha o poder de bagunçar tudo que eu levei anos construindo.
E, no meu mundo…
Homem nenhum sai inteiro quando começa a confundir desejo com necessidade.