Capítulo 07

1436 Words
Capítulo 7 — Nilo O morro nunca dorme de verdade. Pode até diminuir o ritmo por algumas horas, o som baixar, as luzes apagarem em algumas vielas… mas silêncio completo aqui não existe. Sempre tem alguém acordado, alguém correndo, alguém atento. E, pra falar a verdade, eu já nem lembro a última vez que dormi tranquilo. Minha rotina virou isso há muito tempo. Problema. Decisão. Controle. Toda manhã começa igual: rádio estourando no ouvido, cobrança, movimentação, aviso, acerto, contenção de conflito antes que vire guerra. E eu gosto assim. Ou pelo menos gostava. Porque rotina demais deixa espaço pra pensamento. E pensamento demais nunca ajuda ninguém. Principalmente no meu mundo. Desci a viela principal ainda cedo, os cria já espalhados pelos pontos, movimento começando a crescer conforme o dia acordava. — Bom dia, paizão. — Aí, Nilo. — Tudo certo lá embaixo. Fui assentindo enquanto passava. Olho vivo em tudo. Sempre. Aqui, qualquer vacilo pequeno cresce rápido. E eu não construí tudo que construí pra deixar cair por distração. Subi os degraus da boca principal, entrando no barraco onde rolava os acertos do dia. Rádio ligado, gente entrando e saindo, dinheiro sendo contado, voz cruzando de um lado pro outro. Caos organizado. Do jeito que tem que ser. — Os fornecedor confirmou pra mais tarde — um dos moleque avisou. — Quantidade? — Maior que da semana passada. Assenti. — Organiza direito. Não quero n**o perdido na hora. — Pode deixar. Continuei andando, pegando outro rádio que deixaram em cima da mesa. — E aquela situação lá da divisa? — perguntei. — Resolvido. — Resolvido como? O moleque hesitou. Pouco. Mas hesitou. Meu olhar subiu devagar. — Tô esperando. — Os cara recuou. — Porque vocês conversaram… ou porque vocês correram? Silêncio. Pronto. Já entendi tudo. Passei a mão no rosto devagar, sentindo a irritação subir. — Eu já falei uma vez — minha voz saiu baixa, mas firme. — Aqui ninguém corre de território. — Mas nós tava em menor número… — E daí? Silêncio de novo. Olhei em volta. Um por um. — Se começar a arregá pra qualquer pressãozinha, daqui a pouco tão subindo aqui achando que manda. Ninguém respondeu. Nem precisava. Porque eles sabiam. Eu não gritava muito. Nunca precisei. O problema não é quem fala alto. É quem fala pouco e resolve mesmo assim. Joguei o rádio na mesa. — Resolve isso hoje. — Pode deixar, chefe. Saí dali antes que minha paciência acabasse de vez. O sol já batia forte na laje quando subi, puxando um cigarro do bolso. Acendi devagar, olhando o morro vivo lá embaixo. Criança correndo. Som alto em algum canto. Moto subindo. Gente vivendo. Tudo igual. Mas alguma coisa tava errada. E o pior… Era que eu sabia exatamente o quê. Ou melhor… Quem. Soltei a fumaça pelo nariz, irritado comigo mesmo. Ridículo. Eu tinha coisa demais pra resolver pra ficar pensando nisso. Mas bastava um segundo de silêncio… E ela aparecia na minha cabeça. A DJ. O jeito que me encarou no baile. O olhar firme. A postura. O jeito que não tentou agradar ninguém. Fechei os olhos por um instante, passando a mão na nuca. Que p***a era essa? Nunca fui homem de ficar preso em mulher nenhuma. Nunca. No meu mundo, isso é perigo. Sentimento atrapalha. Desvia foco. Faz homem inteligente virar burro. E eu vi isso acontecer vezes demais pra cair no mesmo erro. Então por que eu ainda tava pensando nela? — Tá ficando velho ou tá apaixonado? A voz veio carregada de deboche antes mesmo de eu olhar. Betinho. Encostado na entrada da laje, braços cruzados, aquele sorriso irritante de quem acha que sabe mais do que devia. Ignorei. Dei outra tragada no cigarro. — Tá ficando surdo também? — ele insistiu. — Tô ficando sem paciência. Ele riu baixo, se aproximando. — Então é verdade. Meu olhar foi pra ele. — O que é verdade? Betinho inclinou levemente a cabeça. — A DJ alugou um triplex na tua cabeça. Revirei os olhos na hora. — Vai tomar no cu. Ele soltou uma risada sincera dessa vez. — Aí, tá vendo? Tá estressadinho. — Tu não tem serviço pra fazer, não? — Tenho. Mas isso aqui tá mais interessante. Balancei a cabeça negativamente, puxando mais uma vez o cigarro. Betinho me observava daquele jeito analítico que ele tinha desde moleque. E isso me irritava às vezes. Porque ele percebia coisa demais. — Tu tá diferente — ele falou depois de alguns segundos. — Impressão tua. — Não é. Silêncio. O som do morro preenchia o espaço entre a gente. Moto subindo. Alguém gritando lá embaixo. Pagode tocando distante. Vida acontecendo. Mas Betinho continuava me olhando. Esperando. — Fala logo o que tu quer — soltei. — Quero entender. — Entender o quê? Ele deu de ombros. — Desde quando tu fica distraído. Travei o maxilar de leve. Porque ele tava certo. E eu odiava isso. Não era nada grande. Nada absurdo. Mas eu percebia. Pequenas falhas. Segundos fora do ar. Pensamento escapando sem autorização. Coisa que nunca acontecia comigo. — Tu tá viajando — respondi. — Tô? Ele se aproximou mais um pouco. — Ontem tu ficou olhando pro nada enquanto os moleque falava contigo. — Cansaço. — Hoje tu quase deixou passar erro na contagem. — Resolvi. — Mas quase deixou passar. Meu olhar travou no dele. Silêncio pesado. Mas Betinho não desviou. Nunca desviava. — Qual foi, Bruno? — usei o nome verdadeiro de propósito. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Ih… apelou pro nome. — Porque tu tá enchendo meu saco. Ele riu baixo. Mas logo o sorriso sumiu. — Só toma cuidado. A frase veio simples. Direta. E diferente da provocação de antes. Agora era sério. Cruzei os braços. — Cuidado com o quê? Betinho sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder. — Com coisa que tira teu foco. Respirei fundo pelo nariz. — Eu tô no controle. A resposta saiu automática. Porque era verdade. Sempre foi. Só que, no fundo… Nem eu tava acreditando cem por cento nela. Betinho percebeu. Claro que percebeu. — É isso que tá me preocupando — ele falou. Franzi a testa. — Tu tá dramático pra c*****o. — E tu tá estranho pra c*****o. Silêncio. Ele desviou o olhar primeiro dessa vez, observando o movimento lá embaixo. — Aquela mina… — começou. — Não começa. — Nem falei nada ainda. — Mas vai falar merda. Betinho soltou um ar pelo nariz, quase rindo. — Eu só acho engraçado. — O quê? — O jeito que tu olha pra ela. Meu corpo ficou imóvel. Por fora. Porque por dentro… Aquilo bateu diferente. — Tá maluco. — Não tô. Ele virou o rosto na minha direção outra vez. — Eu te conheço desde moleque, Nilo. E era exatamente esse o problema. Ele conhecia mesmo. Conhecia meus silêncios. Minhas reações. Até o que eu tentava esconder. — Não viaja — falei, mais seco dessa vez. Betinho ficou em silêncio por alguns segundos. Depois assentiu devagar. — Beleza. Mas o olhar dele dizia outra coisa. Dizia que ele não acreditou em uma palavra. E, pior… Talvez eu também não tivesse acreditado. ⸻ O resto do dia continuou pesado. Reunião. Cobrança. Acerto. Problema em ponto. Discussão entre dois moleque. Telefone tocando sem parar. Tudo normal. Tudo igual. Mas, no meio de tudo… Ela aparecia. Do nada. Um olhar. Uma lembrança. A imagem dela em cima da cabine no baile. O cabelo iluminado pelas luzes. Os olhos verdes encarando os meus sem baixar. Verdes. Fechei os olhos por um segundo, irritado comigo mesmo. Que p***a. Nunca fui homem de me perder assim. Nunca. E não ia começar agora. ⸻ Já era noite quando finalmente consegui subir sozinho pra laje outra vez. O movimento continuava forte lá embaixo. Mas ali em cima… Tava mais silencioso. Encostei na mureta, olhando a cidade iluminada ao longe. Tão perto. Tão distante ao mesmo tempo. Puxei o celular do bolso sem pensar. E isso foi o pior. Porque eu nem sabia o que tava procurando. Passei o dedo pela tela uma vez. Depois outra. Até travar. Uma foto do baile tinha sido postada por algum perfil aleatório. E ela tava lá. Na cabine. Sorrindo. Meu peito apertou estranho. Fraco. Rápido. Mas apertou. Fiquei olhando por tempo demais. Tempo suficiente pra perceber uma coisa que eu não queria admitir. Aquilo já tava entrando onde não devia. E, no meu mundo… Quando alguma coisa entra fundo demais… Ou vira fraqueza. Ou vira guerra. E eu ainda não sabia qual dos dois caminhos aquela DJ tava prestes a abrir na minha vida.
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