Capítulo 11 — Larissa
Meu nome é Larissa.
Tenho dezoito anos, faço faculdade, moro no Morro do Alemão e sou irmã do homem que metade das pessoas respeita e a outra metade tem medo.
E isso já seria suficiente para complicar a vida de qualquer pessoa.
Mas a verdade é que crescer sendo irmã do Nilo nunca foi exatamente r**m.
Irritante?
Muitas vezes.
Superprotetor?
Sempre.
Mas r**m?
Nunca.
Porque antes de ser o Nilo que todo mundo conhece, ele foi o Nadson que dividia o último pedaço de pão comigo quando a geladeira estava vazia.
E isso eu nunca vou esquecer.
Nem ele.
Mesmo que tente fingir.
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Desde pequena, eu aprendi que meu irmão carregava o mundo inteiro nas costas.
Primeiro foi a morte do nosso pai.
Depois as contas.
Depois a responsabilidade.
Depois o morro.
E, no meio disso tudo, ele nunca deixou faltar nada dentro de casa.
Nem comida.
Nem proteção.
Nem amor.
Mesmo sendo péssimo para demonstrar.
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Diferente dele, eu sempre fui leve.
Ou pelo menos tentei ser.
Enquanto ele passava horas observando, eu falava.
Enquanto ele desconfiava, eu acreditava.
Enquanto ele se fechava, eu fazia amizade.
Minha mãe costuma dizer que eu puxei o lado dela.
Eu prefiro acreditar nisso.
Porque se eu tivesse puxado o lado do Nadson…
Provavelmente seria insuportável.
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Naquela sexta-feira, eu estava em frente ao espelho pela terceira vez.
E pela terceira vez ouvi a mesma voz atrás de mim.
— Não.
Revirei os olhos.
— Tu nem olhou direito.
— Não precisa.
— Nadson.
— Larissa.
— Tu é muito chato.
Meu irmão estava encostado na porta do quarto com os braços cruzados.
Parecia um segurança.
Ou um fiscal.
Ou um pai de cinquenta anos.
Ainda não decidi.
— A roupa tá normal.
— Pra quem?
— Pra qualquer pessoa.
— Troca.
— Não.
— Troca.
— Não.
Ele respirou fundo.
Eu sorri.
Porque sabia exatamente que estava irritando.
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Minha mãe apareceu no corredor segurando uma toalha.
— Vocês começaram de novo?
— Fala pra ele que a roupa tá normal.
Ela me analisou de cima a baixo.
Depois olhou para ele.
— Tá normal.
Eu levantei os braços vitoriosa.
— Viu?
Nilo me encarou.
— Vocês duas fazem isso de propósito.
— Fazemos mesmo — respondeu minha mãe.
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Eu ia sair com alguns colegas da faculdade.
Nada demais.
Uma festa.
Música.
Gente da minha idade.
Uma noite normal.
Ou o mais próximo possível disso.
Porque, quando seu irmão é o Nilo…
Nada é completamente normal.
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— O segurança vai junto.
Quase engasguei.
— O quê?
— O segurança.
— Eu não sou presidente da República.
— Nem vai ficar sozinha.
— Eu vou estar com meus amigos.
— E?
— E que eu tenho dezoito anos.
— E eu continuo sendo teu irmão.
Respirei fundo.
Muito fundo.
— Tu sabe que isso não é normal, né?
— Eu também não sou.
Argumento difícil de rebater.
Infelizmente.
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Acabei aceitando.
Porque, no fundo, sabia que aquela era a forma dele demonstrar preocupação.
Mesmo que fosse exagerada.
Muito exagerada.
Ridiculamente exagerada.
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Quando saí de casa, já era noite.
A cidade estava bonita.
Luzes espalhadas.
Trânsito.
Música.
Vida.
Meu grupo da faculdade já estava reunido quando cheguei.
Amanda.
Thiago.
Carol.
Pedro.
A galera de sempre.
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— Finalmente!
— Foi difícil sair?
— Vocês não fazem ideia.
Todos riram.
Porque já conheciam as histórias do meu irmão.
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A festa acontecia em uma casa noturna grande da Zona Sul.
Daquelas que aparecem em propaganda.
Tudo brilhava.
Tudo parecia caro.
Tudo parecia importante.
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Mas o que realmente chamou minha atenção foi o palco.
Ou melhor…
Quem estava nele.
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A DJ.
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Eu já tinha ouvido falar dela.
Claro.
Era impossível não ouvir.
Principalmente depois que ela começou a crescer nas redes sociais.
Mas nunca tinha visto ao vivo.
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Até aquela noite.
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Ela entrou sob aplausos.
Segura.
Confiante.
Como se tivesse nascido para estar ali.
E talvez tivesse mesmo.
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Os cabelos loiros brilhavam sob as luzes.
A música começou.
E a pista respondeu imediatamente.
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Eu fiquei impressionada.
Não pela beleza.
Embora ela fosse bonita.
Mas pela presença.
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Ela parecia dominar tudo.
A música.
O ambiente.
As pessoas.
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Durante mais de uma hora, eu simplesmente aproveitei.
Dancei.
Ri.
Esqueci da faculdade.
Dos trabalhos.
Da vida.
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Quando o show terminou, a casa inteira explodiu em aplausos.
E eu me vi aplaudindo junto.
Sorrindo.
Como se conhecesse aquela mulher.
Estranho.
Mas verdadeiro.
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Mais tarde, fui até o bar pegar uma bebida.
Precisava de água.
Urgente.
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Foi quando a vi novamente.
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Sem palco.
Sem luzes.
Sem música.
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Só uma mulher encostada no balcão.
Cansada.
Bonita.
Humana.
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Demorei dois segundos para reconhecer.
Talvez três.
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E então sorri.
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— Você foi incrível.
Ela virou o rosto.
Por um instante pareceu surpresa.
Depois sorriu.
Um sorriso sincero.
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— Obrigada.
— Estou falando sério.
— Eu também agradeci sério.
Ri.
Ela também.
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E foi simples.
Natural.
Como se a conversa já tivesse começado antes.
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— Sou Larissa.
— Estefany.
— Eu sei.
Ela riu.
— Espero que saiba mesmo.
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Ficamos conversando.
Primeiro sobre música.
Depois sobre faculdade.
Depois sobre vida.
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E, de alguma forma…
Os minutos passaram rápido demais.
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Era estranho.
Porque normalmente eu demorava para confiar nas pessoas.
Mas com ela…
Não.
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Parecia fácil.
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Parecia familiar.
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Como encontrar alguém que fala a mesma língua que você.
Mesmo quando estão falando de coisas diferentes.
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— Você é sempre assim?
Ela arqueou a sobrancelha.
— Assim como?
— Fácil de conversar.
Ela riu.
— Acho que sim.
— Ainda bem.
— Por quê?
— Porque eu já estava me preparando para descobrir que você era insuportável.
Ela gargalhou.
Daquelas gargalhadas sinceras.
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E eu gostei dela imediatamente.
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Muito.
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Não pela DJ.
Nem pela internet.
Nem pela fama.
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Mas pela pessoa.
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Porque havia alguma coisa genuína nela.
Uma coisa rara.
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Quando percebemos, quase uma hora tinha passado.
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— Caramba.
— O quê?
— A gente conversa como se se conhecesse há anos.
Ela sorriu.
— Eu estava pensando exatamente isso.
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E era verdade.
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Peguei meu celular.
— Me passa teu número.
— Direta assim?
— Muito.
Ela riu.
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Trocamos números.
Instagram.
Tudo.
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— Agora você não se livra mais de mim.
— Isso parece ameaça.
— É amizade.
— Ah, então tudo bem.
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Nós duas rimos.
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E, naquele momento…
Nenhuma de nós fazia ideia.
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Nenhuma.
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Que aquela conversa aparentemente comum mudaria muita coisa.
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Porque eu não sabia quem ela realmente era para o meu irmão.
Na verdade…
Nem sabia que ela era alguém.
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E ela também não fazia ideia de quem eu era.
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Não sabia meu sobrenome.
Não sabia onde eu morava.
Não sabia quem era meu irmão.
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Para ela…
Eu era apenas Larissa.
Uma universitária falante demais.
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E para mim…
Ela era apenas Estefany.
A DJ incrível que eu tinha acabado de conhecer.
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Às vezes a vida gosta de brincar.
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Porque enquanto a gente ria no bar, trocando histórias e planejando nos encontrar novamente…
Em algum lugar da cidade…
Sem imaginar nada daquilo…
Nilo provavelmente ainda estava tentando convencer a si mesmo de que Estefany não ocupava espaço demais na cabeça dele.
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Mal sabia ele…
Que o destino já tinha começado a trabalhar por conta própria.
E que, daquela vez…
Nem ele teria controle sobre o que vinha pela frente. 🔥