Capítulo 5

1742 Words
Segunda-feira sempre tinha um gosto diferente. Não era exatamente r**m, mas também não era leve como o domingo. Era o dia em que a realidade voltava com força total: aulas, trabalhos, prazos, professores exigentes e a sensação constante de que eu precisava provar a mim mesma que todo o esforço de estar ali valia a pena. O despertador tocou às sete da manhã. Abri os olhos lentamente, ainda envolvida no conforto do cobertor. A luz suave do início do dia atravessava as cortinas do meu pequeno apartamento, pintando o quarto com um tom dourado tranquilo. Por alguns segundos, fiquei apenas olhando para o teto. Respirando. Pensando. O domingo tinha sido tranquilo, mas minha mente ainda lembrava de pequenos flashes do shopping: as vitrines, as risadas com Cami… e aquele olhar intenso que eu preferia fingir que não me afetava. Virei para o lado e peguei o celular. 7:02. Suspirei. — Tá, Lara… levanta. Afastei o cobertor e coloquei os pés no chão frio. Caminhei até a janela e a abri um pouco. O ar da manhã de Boston era fresco, quase gelado, bem diferente do calor do Rio de Janeiro onde eu cresci. Ainda assim… eu gostava. A cidade acordando, carros passando, pessoas caminhando apressadas para o trabalho… havia algo inspirador nisso. Fui até o banheiro e liguei o chuveiro. Enquanto a água esquentava, prendi o cabelo em um coque rápido e observei meu reflexo no espelho. Sem maquiagem. Olhos ainda meio sonolentos. Apenas eu. Entrei no banho e deixei a água quente cair sobre meus ombros, relaxando os músculos. Sempre que tomava banho de manhã, sentia como se estivesse literalmente lavando qualquer ansiedade que pudesse ter. Peguei meu shampoo de coco e comecei a lavar os cabelos, massageando o couro cabeludo. Minha mente, inevitavelmente, começou a organizar o dia: Aula de Marketing Internacional, depois Economia. Trabalho em grupo à tarde e à noite… talvez estudar mais um pouco. Fechei os olhos enquanto a água escorria. Era cansativo às vezes. Muito cansativo, mas também era o meu sonho. Quando terminei o banho, enrolei o corpo na toalha e voltei para o quarto. Abri o guarda-roupa e fiquei alguns segundos pensando no que vestir. Nada muito chamativo, nada muito básico. Peguei uma calça jeans clara, uma blusa bege de manga comprida, um casaco fino creme e um tênis branco Confortável, simples e bonito. Depois sentei na pequena penteadeira que ficava perto da janela. Minha maquiagem para a faculdade era sempre básica. Base leve, corretivo, um pouco de blush, rímel e um gloss rosado. Nada exagerado, eu gostava de parecer natural durante o dia. Soltei o cabelo ainda um pouco úmido, deixando que ele secasse naturalmente nas ondas que sempre apareciam. Quando terminei, observei meu reflexo. — Nada m*l, Lara. Peguei a mochila, coloquei dentro meu notebook, dois cadernos, estojo, uma garrafa de água e uma barrinha de cereal. Antes de sair, fui até a cozinha preparar algo rápido, um café, sempre café. Coloquei a máquina para funcionar e preparei duas torradas com manteiga de amendoim. Enquanto comia, fiquei olhando pela janela novamente. Segunda-feira, nova semana, novos desafios. Peguei o celular e vi uma mensagem de Cami. Cami: "Bom dia, universitária sofredora 😂" Sorri. Eu: "Bom dia, barista dramática." Ela respondeu quase imediatamente. Cami: "Vai para a aula agora?" Eu: "Sim. Marketing às 9." Cami: "Força guerreira." Balancei a cabeça rindo. Cami tinha esse talento de transformar qualquer conversa em algo divertido. Terminei o café, coloquei o casaco e saí do apartamento. O campus da universidade ficava a cerca de quinze minutos caminhando. Eu gostava de ir a pé. As ruas estavam movimentadas, estudantes carregando mochilas, alguns andando de bicicleta, outros correndo atrasados. Era quase como um pequeno universo próprio. Quando cheguei ao campus, encontrei Júlia perto do prédio principal. — Lara! — ela acenou. Júlia Anderson era uma das pessoas mais inteligentes da nossa turma. Sempre organizada, sempre focada… e sempre com uma pilha de livros nos braços. — Bom dia — falei. — Você terminou o resumo de economia? Eu ri. — Claro que terminou, né? — Claro que não. Ela fez uma careta. — Você é terrível. Começamos a caminhar juntas até a sala de aula. — Como foi seu domingo? — ela perguntou. — Tranquilo. Fui ao shopping com a Cami. — Comprou alguma coisa? — Só algumas roupas básicas. Entramos na sala e escolhemos lugares perto da janela. O professor ainda não tinha chegado. Enquanto organizava meu caderno, observei os estudantes entrando, conversando, rindo. Era estranho pensar que cada pessoa ali tinha sua própria história, seus próprios sonhos. Assim como eu. A aula começou alguns minutos depois. Durante duas horas, mergulhamos em estratégias de mercado internacional, comportamento do consumidor e expansão global. Eu realmente gostava daquela matéria. Anotei tudo com atenção. Quando a aula terminou, já era quase meio-dia. Saímos da sala e fomos até a cafeteria do campus. Peguei um cappuccino e um croissant. Sentamos em uma mesa perto da janela. — Hoje ainda temos o trabalho em grupo — Júlia lembrou. Suspirei. — Eu sei. Ela riu. — Vida de universitária. Enquanto conversávamos sobre o trabalho, sobre professores e sobre a semana que começava, senti algo curioso. A sensação de estar sendo observada. Olhei discretamente ao redor. Estudantes. Funcionários. Nada fora do comum. Provavelmente era apenas minha imaginação. *** Eu devia estar imaginando coisas. Balancei levemente a cabeça e voltei minha atenção para Júlia, que continuava falando sobre o trabalho em grupo de economia como se aquilo fosse a coisa mais importante do universo. — Então precisamos dividir as partes — disse ela, abrindo o notebook. — Eu posso ficar com a análise de mercado. — Perfeito — respondi, tomando um gole do meu cappuccino. — Eu posso fazer a parte de estratégias e conclusão. Júlia assentiu, digitando rapidamente. A cafeteria do campus estava cheia, como sempre naquele horário. O barulho das conversas, o som das máquinas de café e o tilintar das xícaras criavam uma espécie de trilha sonora caótica, mas curiosamente confortável. Eu gostava daquele ambiente. Era real. Era normal. Era a vida que eu estava construindo. Enquanto conversávamos, algumas pessoas da nossa turma passaram pela mesa e cumprimentaram. — Ei, Lara! — disse Michael, um dos colegas da aula de marketing. — Você entendeu aquela parte sobre expansão de marca? Ri. — Mais ou menos. Mas acho que o professor complicou mais do que precisava. — Sempre — respondeu ele, levantando o copo de café como se brindasse àquela verdade universal. Depois de alguns minutos, ele seguiu para outra mesa. Júlia fechou o notebook e suspirou. — Às vezes eu esqueço o quanto esse curso é puxado. — Nem me fala — respondi. — Ontem mesmo eu estava organizando trabalhos até tarde. — Domingo? — Domingo. Ela fez uma expressão dramática. — Isso devia ser ilegal. Ri baixinho. Peguei o croissant e dei outra mordida enquanto observava o movimento do campus através da janela. Estudantes atravessavam o pátio carregando mochilas pesadas, alguns rindo alto, outros com os olhos grudados no celular. O céu estava limpo, com aquele azul frio típico de Boston. Júlia levantou. — Preciso ir para a biblioteca antes da próxima aula. — Já? — Se eu não começar agora, não termino nunca. — Justo. Ela colocou o casaco. — Nos vemos na aula de economia. — Até daqui a pouco. Fiquei mais alguns minutos na cafeteria, terminando meu cappuccino devagar. Quando finalmente me levantei, decidi caminhar um pouco pelo campus antes da próxima aula. Eu gostava de fazer isso. Andar sem pressa entre os prédios antigos da universidade sempre me ajudava a organizar os pensamentos. Passei pelo jardim central, onde alguns estudantes estavam sentados na grama, mesmo com o frio leve. Alguns tocavam violão. Outros apenas conversavam. Havia algo reconfortante naquele cenário. Peguei o celular e vi outra mensagem de Cami. Cami: "Sobrevivendo à segunda-feira?" Sorri enquanto digitava. Eu: "Mais ou menos. Já sobrevivi a uma aula." A resposta veio rápida. Cami: "Orgulho de você 😂" Balancei a cabeça rindo. Eu: "E você?" Cami: "Trabalhando. Café infinito." Imaginei Cami atrás do balcão da cafeteria onde ela trabalhava, lidando com clientes impacientes e pedidos intermináveis de latte. Eu: "Força, guerreira." Guardei o celular e continuei caminhando. Passei pela livraria do campus e resolvi entrar. O cheiro de papel e tinta me recebeu imediatamente. Sempre que entrava ali, sentia uma espécie de paz silenciosa. Caminhei entre as estantes, passando os dedos pelas lombadas dos livros. Marketing. Economia. Negócios internacionais. Depois fui para a seção de literatura. Peguei um romance da prateleira e li a sinopse na contracapa. Eu gostava de fazer isso. Explorar histórias. Imaginar personagens. Às vezes comprava um livro apenas porque a história parecia promissora. Outras vezes apenas folheava e devolvia à estante. Depois de alguns minutos, escolhi um livro pequeno de contos e levei até o caixa. A funcionária sorriu. — Bom dia. — Bom dia. Paguei o livro e o coloquei na mochila. Quando saí da livraria, o vento frio da tarde passou pelo campus, fazendo algumas folhas secas rolarem pelo chão. Apertei um pouco mais o casaco e caminhei até o prédio da próxima aula. O corredor já estava cheio de estudantes esperando. Encontrei Júlia encostada em um dos armários. — Achei que você tinha desaparecido — ela disse. — Fui à livraria. — Claro que foi. — O que quer dizer com isso? — Nada — respondeu ela com um sorriso. — Apenas parece algo que você faria. Entramos na sala quando o professor chegou. A aula de economia começou com gráficos projetados no quadro e uma longa explicação sobre mercados emergentes. Peguei meu caderno e comecei a anotar. Mesmo cansada, eu me esforçava para prestar atenção. Era por isso que eu estava ali. Cada aula. Cada trabalho. Cada noite estudando. Tudo fazia parte do caminho que eu tinha escolhido. Duas horas depois, a aula terminou. Quando saímos do prédio, o sol já começava a descer no horizonte, pintando o céu com tons alaranjados. Respirei fundo. O ar estava mais frio agora. — Então — disse Júlia — vamos começar o trabalho amanhã? — Amanhã parece perfeito. — Ótimo. Ela se despediu e seguiu em direção ao estacionamento. Eu fiquei parada por alguns segundos no pátio do campus, observando o movimento das pessoas ao redor. Depois ajustei a mochila no ombro e comecei a caminhar de volta para casa. O dia tinha sido cheio, mas produtivo. E, de certa forma, tranquilo. Exatamente como uma segunda-feira deveria ser.
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