Giro a chave, jogando meu corpo pela porta assim que ela se abre. Minha tão amada “colega de quarto” estava embrulhada em uma coberta no sofá. Ela parecia dormir, mas quando sua cabeça ergueu, ela estava olhando em minha direção, com a testa enrugada, e eu sorri.
— Você tá horrível — aceno negativo e fecho a porta.
— Boa noite pra você também. — Deixo minha bolsa na mesinha de centro, e me aproximo. — Você comeu?
— Sim, mas ainda estou com fome, e você? Já é bem tarde, Hershel te acompanhou? — ela boceja.
— Jantei sim. E não, eu vim sozinha, estava bastante corrido hoje, ele ficou com um cliente. — Ela suspira. — Vou tomar um banho e cair na cama. A faxina hoje foi pesada?
— Não, Carol me ajudou bastante hoje com os banheiros. — Ela boceja outra vez, e, automaticamente, eu também. — E não quero ouvir falar em faxina até segunda. — Eu sorri outra vez.
— Tudo bem, então eu lavo nossas roupas sozinha amanhã.
— Já falei que eu te amo hoje? — Sorri humorada para sua expressão alegre.
A manhã de domingo pareceu se arrastar, felizmente. Pude me acordar um pouco mais tarde, consegui lavar todas as nossas roupas até a hora do almoço, tirei a poeira da minha estante de livros pela tarde, e a noite tagarelei besteiras com Samy, que só reclamava dos problemas do Hospital que trabalha.
— Saudades de apenas arrumar casas!
— Vai ficar tudo bem, quem sabe alguma outra oportunidade surge daqui pra frente. — Samy tinha futuro, ela é desenrolada com trabalhos.
— Não dá pra poupar todo mês, deveríamos cortar alguns gastos desnecessários, já que queremos mudar de apartamento — suspiro. — Já não está fácil, mesmo que eu esteja ganhando um pouco mais que antes, é cansativo. E você, já nem ganha muito, e o que sobra você dá para aquele...
— Samantha!
— Eu só não entendo o porquê de ainda fazer isso — joga a peça de roupa que dobrava no outro amontoado da cama.
— Porque ele ainda é meu pai! — respondi calma. — E está doente, tenho compaixão.
— Ele é tudo, menos um pai! — seu olhar se aperta, mostrando-se indignada.
— Entenda meu lado, eu faço o que acho certo!
— Ele não merece! Você que merece esse dinheiro, merece investir ele em seu futuro, um futuro que você não teria, se não tivesse fugido dele — sua voz já se alterava, como sempre quando discutíamos sobre este assunto.
— Eu não sonho tão alto, e eu entendo seu ponto de vista, e acho que você está certa sobre esse detalhe, mas não posso ignorar ele assim. Ele é doente. Já conversamos sobre isso, ele é meu pai, mesmo não querendo, é uma responsabilidade que assumo. — Contenho minha voz, e respiro fundo. — Eu não dormiria bem à noite se não fizesse isso. Então prefiro minha paz do que o dinheiro! – dei de ombros.
E ali, longos minutos de silêncio se passaram. Ouvíamos o relógio de parede da cozinha trabalhar ruidosamente, os latidos dos cães de rua, as vozes dos vizinhos, o barulho da geladeira, e até nossas respirações.
Sempre se estabelecia esse clima após tocarmos neste assunto, sempre. Era inevitável, e sempre tentava encaixar a mesma ideia e argumento em sua cabeça, que teimava em 'apertar na mesma tecla'.
— Me responde uma coisa? — tendo meu silêncio em resposta, continuou. — Você o perdoou por tudo, por isso você o ajuda?
— Eu acredito que guardar sentimentos ruins dentro de nós nos fazem mais m*l do que à quem dedicamos os mesmos. — Era um coração já cicatrizado que falava, e não a garotinha medrosa que abandonei para trás naquela noite. — Acho que sim, o perdoei, e admitir isso para mim mesma é tão libertador quanto ter fugido daquela vida. E não, não faço isso por tê-lo perdoado, tenho sempre respeito e educação pelas pessoas acima de qualquer coisa, ainda que eu não receba o mesmo em troca. Você sabe que sou assim, não tem porquê ficar forçando esse assunto para me convencer do contrário.
— Não se esqueça de que sou eu no quarto ao lado escutando cada pesadelo seu. — E então se ergueu da cadeira e seguiu para seu quarto. — E é seu dia de lavar a louça!
Eu sabia que no fundo ela entendia minhas ações, Samantha Stewart as vezes poderia até ser uma mulher orgulhosa e teimosa, mas sempre na mesma intensidade em que era emotiva e sentimental. Está para nascer alguém que mais me compreende do que ela, mas mesmo ela entendendo, nunca chegará a concordar com isso. eu não a julgo, ela assistiu meus piores momentos naquela casa.
Como estava cansada também, não ne demorei com as tarefas domésticas que me sobraram, já acostumada. Amanhã colocaria o mesmo sorriso gentil no rosto – que chegava a dar-me cãibras na mandíbula; enlaçar elegantemente o avental em minha cintura, e desfilar com bandejas talentosamente para lá e para cá, como sempre.
Quando Samy e eu chegamos à Nova Iorque, aceitando a realidade que 'havíamos fugido de casa', entendendo que não poderíamos confiar nossa situação a qualquer um, nós pegamos o metrô pela primeira vez com os bilhetes tremendo nas pontas dos dedos, enquanto as pessoas m*l nos olhavam. Estávamos desesperadas para nos encaixar em algum lugar.
Dormimos na rua por dois dias, ou melhor, passamos duas noites perambulando por ruas grandes, semelhantes e confusas. Precisávamos de emprego e um lugar para ficar. Nossas preocupações giravam em torno do significado de "sobreviver".
Uma alma bondosa chamada Hershel nos acolheu num quarto escuro nos fundos de sua humilde lanchonete, nos alimentou, e nos deixou limpar e organizar seu estreito estabelecimento em troca de algum dinheiro. Seus maiores clientes eram seus vizinhos, e também os alunos e professores do bairro, turistas e funcionários de todos os lugares. Todos eram pessoas tão ocupadas. A mudança transcendia além de mim, num piscar de olhos. Samy pensava em oportunidades, e eu apenas gostaria de permanecer neste degrau. Nós devíamos nossa vida à Hershel, e por isso não aceitaria deixá-lo e partir. E estava satisfeita com esta decisão. Eu abri mão de muita coisa em busca da liberdade, então qualquer lugar estava bom para mim.
Com isso, dediquei meus dias seguintes para apenas servir o melhor café do Broklyn, o mais gentil e bondosa que estivesse ao meu alcance. Meus conhecimentos não eram tão amplos quanto pensei que fosse, acima de tudo eu entendia meu lugar, sabia quem eu era e também quem eu não poderia ser. Não nesta vida, pelo menos, então me era divertido viajar por realidades alternativas.
Eu estava distraída com meus pensamentos, quando percebi aquele mesmo homem de ontem à noite passar pela porta, me deixando em transe...
Eu não pensei na possibilidade de que ele poderia voltar aqui, não era conveniente, apesar de estarmos localizados no Brooklyn, bem perto da ponte que leva a Manhattan. Pensei que ele estivesse de passagem, como muitos que chegam aqui.