3° Capítulo - Café e reflexão

1361 Words
Ele olhou a extensão do lugar, notando o único casal de clientes que tínhamos naquele momento. Ele suspirou, e finalmente olhou para mim. — Boa noite. — Boa noite, o que vai querer hoje? — ele comprimiu os lábios, e depois de alguns segundos constrangedores, com seus olhos analisando minha figura, ele finalmente responde. — Um café. — Só um momento, por favor — vou imediatamente até a cafeteira. Ele insinuou querer o banco no balcão novamente, mas ele parece mudar de ideia e segue para uma mesa distante. Dei de ombros recolhendo seu pedido num copo, deposito na bandeja e levo até ele. — Aqui, se precisar de mais alguma coisa é só me chamar. — Ele não me olhou de volta, não me deu mais nenhuma palavra. Eu deslizei rapidamente para atrás do balcão. As pessoas entravam e saiam rapidamente, escolhiam doces, chás, pães, qualquer coisa, enquanto ele estava lá, há uma hora com apenas um café. O que se passava com ele? Ele mexia algumas vezes em seu smartphone, e voltava a ficar parado, olhando para o nada dramaticamente. Quando restou apenas ele de cliente, faltando apenas trinta minutos para o horário de fechar, eu me vi indo até ele, com a feição mais i****a e com palavras mais idiotas ainda, pronta para lhe dirigir, e ele me surpreendeu, levantando seu olhar para mim. As orbes mais azuis e brilhantes me fizeram esquecer das palavras por um segundo. — Algum problema? — ele questionou de repente. — Estamos perto de fechar — aviso rapidamente, e pronta para sair de suas vistas, mas ele interrompe meus passos desajustados. — Pode sentar comigo por um minuto? — eu o encarei boquiaberta e confusa. Como poderia recusar? Gentilmente puxei a cadeira e me acomodei. — No que posso te ajudar? — sorri. — Quais são seus planos? — ele estreitou o olhar, ainda usando o tom sério. — No momento? Dormir... — fiz uma careta. Ele suspirou cansado, parecia pensar bem antes de responder alguma coisa. Eu me vi achar graça da situação. O que ele esperava ouvir de mim? Filosofias sobre a vida? — Teve um dia difícil? — ele comprimiu os lábios, agora com uma expressão mais suave. — Tecnicamente cansativo. — Estou te entediando? — ele olhou para seu copo vazio. — Na verdade, eu que devo estar te entediando. Você parecia esperar mais da minha resposta. — Talvez. — Talvez se você fosse mais específico... — Quais são seus planos para o futuro? — ele levantou seus olhos para mim novamente, mais uma vez sério. Eu me senti nervosa diante daquela pergunta, e mais ainda pela expectativa que ele tinha nos olhos. — Eu não me lembro da última vez que pensei nisso, não que eu projete tanto coisas na minha cabeça, até porque eu valorizo mais 'o agora' — isso é mentira. — Talvez seja exatamente isso que se espere de mim. É o meu jeito de evitar decepções, então eu não planejo muita coisa. Olha pra mim – dei de ombros, acenando para meu uniforme de garçonete. — Eu estou olhando, e não espero isso de você. — Ele franziu o cenho. — Você é jovem, tem um longo caminho ainda para percorrer. — Eu gostaria de dizer coisas mais interessantes, mas não consigo fazer isso sem inventar uma realidade alternativa. — Eu ri, nervosa. — Eu quis dizer que não espero muito de mim mesma... — Minha visão para o futuro era tão "prospera", que me senti envergonhada. — Por que me fez essa pergunta? — Gosto de ouvir sobre perspectivas alheias sobre a vida. — E assim se estendeu o tempo, em um silêncio estrondoso. — Minha perspectiva não é tão interessante — ele me olhou esquisito. — Você não tem nem um pingo de ambição. — Pois é — dei de ombros, e de repente ele segurou um riso nos lábios. — Essa sou eu, apenas uma garçonete! — Tudo bem. — Ele respirou fundo. — Tenho decisões importantes para tomar, decisões que vão bagunçar minha vida. Algumas delas não estão ao meu alcance, e meus pais querem interferir nas minhas escolhas. A maior parte do caminho que construi dependia de algo que não pensei que fosse precisar. — E do que você vai precisar para conseguir o que quer? — ergui uma sobrancelha, querendo passar um áurea intelectual. — De uma esposa. — Ah. — O número de coisas que pensei não chegou nem perto. — Vai me dizer no que está pensando? — ele ficou curioso, provavelmente pela expressão de i****a que fiz. — Você não tem cara de quem precisa disso. — Por quê? — seus olhos azuis brilharam em expectativa mais uma vez. — Você parece ser esperto e independente – dei de ombros novamente. Eu não estava acostumada a levantar o ânimo de um homem. — O que quero dizer é que esse status me dará credibildiade com os meus pais. Fará o meu pai me dar o que eu quero, aliás o que eu fui preparado para ter! — Você tem mesmo uma grande decisão à tomar! — descansei minhas mãos na mesa, e ele reparou no meu corpo murchando. Eu estava confusa e cansada, por mais que eu me considere boa em conversar com as pessoas, sendo uma boa ouvinte, não imaginava que esse tipo de coisa pudesse aflingir este homem que me parecia imbatível. Fui pega desprevinida. — Se eu não me casar, poderei perder a oportunidade que me preparei a vida toda para conquistar. — Bom, se te serve de consolo, casamento pode ser bom, se escolher a pessoa certa. Você já conversou com ela? Ou... Ele... — ele comprimiu os lábios outra vez, e meu coração quase pulou pra fora. Ora, eu não sabia nada sobre ele. Ele poderia ser homossexual. Não faz m*l perguntar, não é uma ofensa! — Ainda não conheci nenhuma mulher que me interessasse o suficiente para casar. — Ele desviou o olhar, como se esperasse que eu entendesse. "Sim, eu entendi, você gosta de mulher." — Então você vai casar do nada com alguém? Tipo aqueles casamentos arranjados? — Eu ri da situação, mas me contendo o suficiente para não passar má impressão. — Um casamento é um acordo entre duas pessoas, com paciência e técnicas é possível dar certo entre duas pessoas que não se amam. — Concordo, você não precisa amar alguém para poder respeitá-la e estar de acordo com ela. — Ele assentiu. — Exato. — Ele sorriu satisfeito. — Então por que está com receio de ir em frente com essa decisão? — Eu não disse que estava com receio. — Mas também não parece muito confortável. — Ele comprimiu os lábios outra vez. — É difícil achar alguém que pense da mesma forma que eu, como eu disse, só será possível se os dois estarem de acordo com os termos. — De fato, não me aprofundei nesse detalhe... — mordi os lábios, constrangida. E ele achou graça. — Bom, acredito que você tenha bastante experiência com pessoas, negócios e acordos, saberá como resolver tudo isso. — E o que você sugere? — Para esse seu plano? — Sim. — Ele cruzou os braços, como se estivesse realmente interessado no meu ponto de vista. Era uma situação cômica, um cara como ele pedir a opinião de uma garçonete. — Parece que o que te resta é ter sorte para escolher bem quem irá cair nessa roubada contigo! — Eu sorri abertamente para ele, mostrando minha audácia. Ele soltou o copo vazio e acenou negativo, sorrindo torto. — Obrigado, senhorita... – debochou. — Disponha! – debochei ainda mais. — Foi agradável, eu realmente agradeço pela conversa, Lili — ele se ergueu do banco, e eu perdi o ar quando falou meu nome. Ele lembrava do meu nome. Contudo, mais uma vez ele não se apresentou. Ele meteu a mão no bolso e deixou uma nota para pagar o café. Deu-me as costas e saiu do estabelecimento sem se apresentar novamente. Essa conversa realmente aconteceu, ou foi mais um fruto da minha imaginação? Contudo, a nota de um dólar parecia bastante palpável para ser imaginária.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD