Lívia acordou com o coração acelerado, como se tivesse corrido por uma longa distância durante o sono. Por alguns segundos, ficou imóvel na cama, tentando entender o que exatamente a tinha despertado. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra suave da manhã muito cedo, e a luz cinzenta que entrava pelas cortinas parecia estranhamente fria, diferente das manhãs normais da cidade.
Ela passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. O sonho ainda estava vivo em sua mente, insistente, quase como uma lembrança real. No sonho, ela estava novamente diante da casa na colina. As paredes pareciam mais altas do que nunca, e as janelas escuras observavam o mundo lá fora como olhos silenciosos. Havia também os sussurros, como sempre. Centenas deles, talvez milhares, vozes que falavam ao mesmo tempo sem que nenhuma pudesse ser entendida completamente.
Mas havia algo novo naquele sonho.
Desta vez, alguém estava na janela.
Lívia não conseguia lembrar claramente do rosto. Apenas uma silhueta parada atrás do vidro antigo, observando a colina e a estrada que levava até a cidade. No sonho, ela tinha a estranha certeza de que aquela figura estava olhando diretamente para ela.
Essa sensação foi o que a acordou.
Ela se sentou lentamente na cama, respirando fundo algumas vezes. Tentou convencer a si mesma de que era apenas um sonho provocado pelo medo que vinha sentindo desde a última vez que ela e Daniel haviam ido até a casa. Aquela experiência ainda estava fresca demais em sua memória para ser ignorada facilmente. O barulho das portas, os corredores que pareciam se estender mais do que deveriam, os sussurros que pareciam surgir de todos os cantos da casa… tudo aquilo ainda a deixava inquieta.
Mesmo assim, havia algo diferente agora.
Uma sensação de que alguma coisa tinha realmente acontecido.
Lívia saiu da cama e caminhou até a janela do quarto. A cidade ainda estava despertando lentamente. Algumas poucas pessoas já caminhavam pelas ruas, e o som distante de um carro atravessando uma avenida chegava fraco até ali. Era uma manhã aparentemente normal, mas a sensação estranha ainda permanecia dentro dela.
Sem perceber, seus olhos se voltaram para a direção da colina.
A casa não era visível dali, pois as árvores e a distância escondiam grande parte do terreno elevado. Ainda assim, ela sabia exatamente onde ela estava. Era como se a presença daquele lugar tivesse se tornado permanente dentro de sua mente.
Lívia tentou afastar o pensamento e começou a se preparar para o dia. Alguns minutos depois, pegou o celular e enviou uma mensagem para Daniel.
“Você está acordado?”
A resposta demorou alguns minutos para chegar.
“Agora estou. O que foi?”
Ela hesitou antes de responder. Não queria parecer paranoica, mas ao mesmo tempo sentia que precisava falar com ele.
“Tive outro sonho com a casa.”
Desta vez a resposta veio mais rápido.
“Também sonhei com aquele lugar.”
Lívia franziu a testa ao ler a mensagem. Aquilo fez um pequeno arrepio subir por sua coluna.
“O que aconteceu no seu sonho?” ela perguntou.
Daniel demorou mais tempo para responder dessa vez. Quando a mensagem finalmente apareceu na tela, as palavras eram curtas.
“Tinha alguém na janela.”
Lívia ficou completamente imóvel.
Ela releu a mensagem duas vezes, sentindo o coração acelerar novamente.
“Você também viu?” ela escreveu.
Alguns segundos depois veio a resposta.
“Sim.”
O silêncio que se seguiu àquela troca de mensagens parecia pesado demais para algo tão simples. Lívia sentiu um frio estranho no estômago, como se as peças de algo maior estivessem começando a se encaixar lentamente.
Antes que ela pudesse responder novamente, Daniel enviou outra mensagem.
“Você viu o que aconteceu na cidade?”
Ela franziu a testa.
“O quê?”
“Um vigia desapareceu hoje de manhã. O pessoal está comentando.”
Lívia sentiu o desconforto crescer dentro do peito.
“Desapareceu?”
“Sim. Ele trabalhava num depósito perto da estrada da colina.”
Por alguns segundos, ela simplesmente encarou a tela do celular.
Uma sensação muito clara tomou conta dela naquele momento: aquilo não era coincidência.
Daniel continuou digitando.
“Alguns dizem que o carro dele foi encontrado lá perto.”
Lívia se sentou novamente na cama.
“O que você está pensando?” ela perguntou.
A resposta demorou alguns segundos.
“Que talvez ele tenha subido até a casa.”
Lívia fechou os olhos por um instante. A simples ideia fez o peso dentro de seu peito aumentar. Ela lembrava muito bem da sensação de estar dentro daquela casa. O silêncio estranho, os sons impossíveis de explicar, a sensação constante de estar sendo observado.
Se alguém tivesse entrado lá sozinho…
Ela não terminou o pensamento.
Alguns minutos depois, Daniel enviou outra mensagem.
“Quero subir lá hoje.”
Lívia imediatamente respondeu.
“Você está louco?”
“Talvez. Mas precisamos saber o que está acontecendo.”
Ela ficou olhando para o celular, tentando organizar os pensamentos. Parte dela queria esquecer completamente aquela casa e nunca mais se aproximar daquele lugar. A experiência da última vez tinha sido suficiente para deixá-la assustada por muito tempo.
Mas outra parte dela — uma parte que ela não conseguia ignorar — sentia uma curiosidade profunda.
Algo estava acontecendo ali.
Algo que parecia cada vez maior.
“Não vamos sozinhos,” ela escreveu finalmente.
Daniel respondeu quase imediatamente.
“Então você vai comigo?”
Lívia respirou fundo antes de responder.
“Sim.”
Depois de enviar a mensagem, ela voltou até a janela do quarto e olhou novamente para a direção da colina.
A manhã agora estava mais clara. O sol começava a subir no céu e iluminava as árvores no alto da colina com uma luz dourada suave. De longe, tudo parecia tranquilo, quase bonito.
Mas Lívia já sabia que aquela tranquilidade era apenas uma aparência.
Porque a casa estava lá.
E se o vigia realmente tinha subido até ela na noite anterior…
então havia uma grande chance de que algo dentro daquela casa tivesse percebido.
E talvez…
estivesse esperando por mais alguém.