Capítulo 4

1041 Words
O dia em Vale das Brumas avançava lentamente, como se a própria cidade estivesse presa em um ritmo diferente do resto do mundo, onde as horas pareciam se estender um pouco mais e os acontecimentos do cotidiano se desenrolavam com uma calma quase hipnótica. Depois de se despedir de Daniel na praça, Lívia caminhou sem pressa pelas ruas que um dia haviam feito parte de sua rotina diária, observando as pequenas mudanças que o tempo havia deixado em cada esquina enquanto tentava conciliar as memórias antigas com a realidade que agora se apresentava diante dela. O comércio local seguia seu movimento habitual: a padaria recebia clientes que entravam e saíam carregando sacolas de papel ainda quentes, o pequeno mercado de Miguel tinha a porta aberta e deixava escapar o aroma misturado de café e frutas maduras, e algumas pessoas conversavam tranquilamente na calçada, como se nada de extraordinário estivesse acontecendo na cidade. À primeira vista, tudo parecia normal. Ainda assim, Lívia começou a perceber pequenos sinais que indicavam que algo estava diferente. As conversas nas ruas pareciam mais baixas do que o normal, quase como se os moradores estivessem evitando que certas palavras fossem ouvidas por quem passava. Algumas pessoas olhavam com frequência na direção da colina, mesmo durante o dia, como se aquele lugar tivesse se tornado um ponto silencioso de preocupação coletiva. Ela notou isso especialmente quando decidiu entrar na mercearia de Miguel. O sino preso à porta tilintou suavemente quando ela entrou, e o dono do estabelecimento levantou o olhar de trás do balcão. Miguel era um homem de meia-idade com barba grisalha e uma expressão sempre curiosa, como se estivesse constantemente tentando descobrir a próxima história interessante que circulava pela cidade. Quando reconheceu Lívia, abriu um sorriso largo. — Ora, se não é a filha da Helena — disse ele. — Faz tempo que não aparecia por aqui. — Estou de visita por alguns dias — respondeu ela. Miguel assentiu, apoiando os braços no balcão. — A cidade sempre parece mais animada quando alguém volta depois de muito tempo. Mas antes que a conversa pudesse continuar, a porta da mercearia se abriu novamente, e duas mulheres entraram falando em voz baixa, claramente agitadas. — Você ficou sabendo? — perguntou uma delas. Miguel franziu a testa. — Sabendo de quê? As duas trocaram um olhar rápido antes de responder. — O senhor Antunes não voltou para casa ontem à noite. O silêncio dentro da mercearia pareceu se tornar mais pesado por um instante. Lívia reconheceu imediatamente o nome. O senhor Antunes era um dos moradores mais antigos da cidade, um homem conhecido por caminhar todas as noites pelas ruas tranquilas de Vale das Brumas antes de voltar para sua pequena casa perto da saída da vila. — Como assim não voltou? — perguntou Miguel. — A esposa dele foi até a delegacia esta manhã — respondeu a mulher. — Disse que ele saiu para a caminhada de sempre depois do jantar, mas nunca apareceu de novo. Miguel passou a mão pela barba, pensativo. — Talvez tenha ido visitar algum parente. — Ele nunca faz isso sem avisar — insistiu a outra mulher. As duas começaram a conversar novamente em voz baixa, enquanto Lívia permanecia em silêncio perto das prateleiras, sentindo uma sensação estranha crescer lentamente dentro de si. Desaparecimentos não eram comuns em Vale das Brumas. Na verdade, eram praticamente inexistentes. Ela deixou a mercearia alguns minutos depois, mas agora a atmosfera da cidade parecia diferente, mais densa, como se algo invisível estivesse se espalhando entre os moradores. Quando chegou perto da praça, encontrou Daniel novamente. Ele estava conversando com outro policial, mas assim que viu Lívia se aproximando, fez um gesto rápido para que ela esperasse. Alguns segundos depois, ele caminhou até ela com uma expressão séria. — Você já ficou sabendo — disse ele. Não era exatamente uma pergunta. — O senhor Antunes? — respondeu ela. Daniel assentiu. — A esposa dele registrou o desaparecimento hoje cedo. Lívia cruzou os braços, pensativa. — Isso é comum aqui? — Não — respondeu ele imediatamente. — Nunca foi. O vento atravessou a praça naquele momento, fazendo as folhas da grande árvore farfalharem suavemente acima deles. — Tem mais alguma coisa, não tem? — perguntou Lívia. Daniel hesitou por um instante antes de responder. — Algumas pessoas disseram ter visto algo estranho ontem à noite. O coração de Lívia pareceu bater um pouco mais forte. — O quê? Daniel olhou rapidamente ao redor, como se não quisesse que outras pessoas ouvissem. — Luz. — Luz? — Lá na colina — disse ele, baixando ligeiramente a voz. — Algumas pessoas juram que viram luz acesa na casa. O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que qualquer resposta. Lívia lembrou imediatamente da silhueta que havia visto na noite anterior. — Mas você disse que a casa foi destruída — comentou ela. Daniel passou a mão pela nuca, visivelmente desconfortável. — Foi o que aconteceu. — Então de onde vem a luz? Ele não respondeu imediatamente. — Provavelmente alguém subiu lá para explorar as ruínas — disse finalmente, embora seu tom não parecesse totalmente convencido. Lívia não disse nada por alguns segundos. Mas sua mente já começava a organizar as peças de forma diferente. Uma casa que supostamente não existia mais. Luzes vistas no topo da colina durante a noite. E agora um homem desaparecido. — Daniel — disse ela finalmente — você acredita nessas histórias? Ele demorou um pouco para responder. — Eu sou policial — disse ele. — Tenho que acreditar em fatos. Mas depois de um breve silêncio, acrescentou: — Só que às vezes… essa cidade tem maneiras estranhas de transformar histórias em coisas que parecem muito reais. Lívia voltou a olhar para a colina ao longe. Agora, sob a luz clara do fim da tarde, o lugar parecia completamente comum. Apenas árvores. Apenas pedras. Apenas silêncio. Mas algo dentro dela dizia que havia mais naquela história. Muito mais. E enquanto o sol começava lentamente a se esconder atrás das montanhas, espalhando sombras longas sobre Vale das Brumas, algumas pessoas na cidade começaram a olhar novamente para o topo da colina. Porque quando a noite chegasse… Alguns deles tinham certeza de que veriam a luz outra vez.
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