Capítulo 5

1118 Words
Naquela noite, Vale das Brumas parecia mais silenciosa do que o habitual, como se a própria cidade estivesse envolvida por uma inquietação que ninguém conseguia explicar completamente, mas que todos pareciam sentir de alguma forma. As ruas estavam quase vazias, e a neblina que descia lentamente das montanhas começava a se espalhar novamente entre as casas, cobrindo as calçadas e os jardins com uma camada pálida que fazia tudo parecer ligeiramente distante e irreal. Lívia estava sentada na varanda da casa de sua mãe, observando o movimento lento da névoa que avançava pela rua, quando ouviu o som de um carro se aproximando. Os faróis cortaram a escuridão por alguns segundos antes de o veículo parar diante do portão. Daniel saiu do carro, fechando a porta com cuidado, e caminhou até a cerca com a expressão concentrada de alguém que ainda estava pensando em algo que não conseguia resolver completamente. — Eu sabia que você ainda estaria acordada — disse ele quando chegou perto da varanda. Lívia se levantou, cruzando os braços. — Você disse que iria investigar o desaparecimento do senhor Antunes. Daniel assentiu lentamente. — E investiguei. Ele olhou rapidamente ao redor antes de continuar. — A última pessoa que viu o senhor Antunes foi um vizinho que mora perto da trilha da colina. Lívia sentiu um leve arrepio percorrer suas costas. — Ele estava indo para lá? — O vizinho disse que ele parecia estar caminhando naquela direção — respondeu Daniel. O vento passou novamente entre as árvores, fazendo as folhas farfalharem com um som suave que, naquela noite, parecia carregar algo inquietante. Lívia permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de perguntar: — Você acredita que ele subiu até lá? Daniel suspirou. — Eu não sei. Ele fez uma pausa antes de acrescentar: — Mas algumas pessoas voltaram a dizer que viram luz na casa hoje à noite. As palavras pairaram no ar entre eles por um instante. Lívia olhou lentamente para a colina, que se erguia além das últimas casas da cidade, agora parcialmente escondida pela neblina que parecia se tornar mais densa a cada minuto. — Então vamos lá — disse ela. Daniel piscou, surpreso. — O quê? — Vamos subir até a colina. Ele soltou uma pequena risada incrédula. — Lívia, isso não é uma boa ideia. — Por quê? — perguntou ela. — Você é policial, não é? Se alguém realmente estiver usando aquela casa ou as ruínas dela, é melhor descobrir logo. Daniel passou a mão pela nuca, claramente dividido entre o bom senso e a curiosidade que também parecia incomodá-lo desde o início daquela história. — Já está escuro — disse ele. — E foi à noite que as pessoas disseram ter visto as luzes — respondeu Lívia. O silêncio que se seguiu foi breve, mas significativo. Daniel olhou novamente para a colina. Depois para Lívia. E finalmente soltou um suspiro resignado. — Tudo bem. Alguns minutos depois, os dois estavam dentro do carro dele, seguindo pela estrada estreita que levava para fora da cidade. Os faróis iluminavam apenas uma pequena faixa da estrada à frente, enquanto a floresta ao redor parecia se fechar em sombras densas que absorviam a maior parte da luz. A trilha que levava até a colina começava poucos quilômetros depois da última casa da vila. Daniel estacionou o carro perto da entrada da trilha e desligou o motor. O silêncio que se instalou imediatamente foi profundo, quebrado apenas pelo som distante do vento passando pelas copas das árvores. — Ainda dá tempo de desistir — disse ele, olhando para Lívia. Ela apenas abriu a porta do carro. O ar da floresta era mais frio do que na cidade, e a neblina ali parecia ainda mais espessa, espalhando-se entre os troncos das árvores como uma presença viva que observava silenciosamente qualquer movimento. Daniel pegou uma lanterna no porta-luvas antes de sair do carro. — A trilha fica logo ali — disse ele, apontando para um caminho estreito que desaparecia entre as árvores. Lívia olhou para a entrada da trilha. Durante o dia, aquele provavelmente seria apenas mais um caminho comum da floresta, talvez usado por caçadores ou moradores curiosos. Mas naquela noite, envolto pela neblina e pela escuridão, o lugar parecia diferente. Mais profundo. Mais antigo. Como se levasse a algum lugar que não queria ser encontrado. Ainda assim, ela começou a caminhar. Daniel a acompanhou logo atrás, iluminando o caminho com a lanterna enquanto os dois avançavam pela trilha que subia lentamente pela encosta da colina. O chão estava úmido, coberto por folhas caídas que produziam um som suave sob os passos deles. Durante os primeiros minutos, nenhum dos dois falou nada. A floresta parecia absorver qualquer som que não fosse o vento e o leve estalar ocasional de galhos distantes. Depois de algum tempo caminhando, Lívia começou a notar algo estranho. A sensação de que estavam sendo observados. Não era algo que ela pudesse explicar facilmente, mas era uma impressão persistente, como se algo escondido entre as árvores acompanhasse cada passo deles com uma atenção silenciosa. Ela estava prestes a comentar isso com Daniel quando ele parou de repente. — Você viu isso? — O quê? Ele levantou a lanterna um pouco mais alto. E então Lívia também viu. Lá no alto da colina, além das árvores mais próximas do topo, havia um brilho fraco que parecia pulsar suavemente através da neblina. Luz. Os dois permaneceram imóveis por alguns segundos, observando aquele ponto luminoso que se destacava contra a escuridão da floresta. — Aquilo… — começou Lívia. Daniel terminou a frase em voz baixa. — Não deveria estar lá. Eles continuaram subindo. A cada passo, a luz parecia se tornar um pouco mais clara, como se estivesse esperando silenciosamente pela aproximação deles. Quando finalmente chegaram ao topo da colina, porém, os dois pararam ao mesmo tempo. Porque diante deles, parcialmente escondida pela neblina e iluminada por uma luz amarelada que escapava de algumas janelas quebradas… Havia uma casa. Uma casa enorme e antiga, erguendo-se no topo da colina como uma presença esquecida pelo tempo. As paredes estavam escuras e cobertas de manchas, as janelas pareciam vazias como olhos ocos, e o telhado inclinado formava uma silhueta irregular contra o céu noturno. Mas a parte mais perturbadora era que… A casa parecia inteira. Como se nunca tivesse sido destruída. Daniel deu um passo lento para frente, incapaz de esconder o espanto na própria voz. — Isso não é possível… Lívia também não conseguiu dizer nada. Porque enquanto os dois observavam aquela construção impossível emergindo da neblina, uma nova sensação começou a se formar dentro dela. A estranha impressão de que a casa não apenas estava ali. Mas que também… Estava esperando por eles.
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