Capítulo 9

1075 Words
— Lívia… O sussurro parecia vibrar dentro do corredor, mas também dentro dela, como se ecoasse diretamente em sua mente. O coração disparou de imediato, batendo tão forte que parecia ressoar em suas têmporas, nos ouvidos, em cada vértebra da coluna. O frio percorreu seu corpo do topo da cabeça até os pés, envolvendo-a como uma corrente invisível, pesada, sufocante. Cada músculo parecia paralisar, exceto os olhos, que não conseguiam se desprender da escuridão à frente. Daniel segurou seu braço com firmeza, tentando transmitir algum tipo de segurança que nem ele acreditava sentir. — O que foi? — perguntou, a voz baixa, trêmula. Lívia não respondeu de imediato. Uma sensação estranha, quase familiar, se instalou nela: uma lembrança confusa, uma intuição antiga que ela não conseguia decifrar. Como se a casa tivesse esperado por esse momento durante anos, como se já a conhecesse antes mesmo dela pisar naquele corredor. — Eu… ouvi alguém. — Finalmente falou, quase sussurrando, olhando para as paredes como se pudessem responder. — Chamou meu nome. Daniel franziu a testa, a respiração curta. — Você tem certeza? — perguntou. Ela assentiu, hesitando. — Muito perto… parecia estar dentro da minha cabeça, mas também no corredor, ao mesmo tempo. O corredor parecia respirar com eles. Cada passo que davam fazia o assoalho ranger de uma maneira que não deveria. Cada sombra parecia se alongar ou se mover conforme eles avançavam. Lívia sentiu os dedos formigarem e os pelos da nuca se eriçarem. A sensação de que não estavam sozinhos aumentava com cada segundo que passava. Daniel levantou o isqueiro novamente. Clique. A chama surgiu, fraca, vacilante. Ela iluminou apenas alguns centímetros à frente. O corredor continuava a se estender para o fundo, mergulhado em uma escuridão que parecia mais sólida que qualquer sombra natural. Foi quando ele percebeu as pegadas no chão de madeira. Não eram deles. Nem pareciam humanas. Algumas eram grandes, desproporcionais. Outras eram pequenas demais, infantis, mas deformadas, quase monstruosas. Elas não vinham do fundo do corredor; pareciam surgir ali, à frente deles, do nada. — Isso… não estava aqui antes — murmurou Lívia, sentindo o estômago contrair. Daniel ficou em silêncio, olhando fixamente para o chão, depois para as paredes. A casa parecia pulsar, silenciosa e viva, observando cada movimento deles. Um arrepio percorreu sua coluna. Ele sentiu como se a madeira e o concreto estivessem respirando, expandindo-se e encolhendo-se conforme a presença invisível se aproximava. E então, uma porta bateu com força. BAM! O som ecoou por todos os corredores, reverberando de uma maneira que parecia quebrar o espaço e o tempo ao redor deles. A porta que antes estava entreaberta agora estava completamente fechada, rígida, imóvel. Lívia engoliu em seco, cada músculo tensionado. — Você viu isso? — perguntou, a voz baixa, quase um sussurro, tremendo. Daniel não respondeu. Apenas segurou o isqueiro com mais firmeza, a chama tremendo, revelando apenas fragmentos do corredor que se estendia infinitamente à frente. O ar estava pesado, úmido, com um cheiro de madeira antiga e um leve odor metálico, como ferro enferrujado. Havia algo podre no ar, algo que não pertencia a este tempo, algo antigo, ancestral. De repente, um murmúrio fraco percorreu o corredor. Primeiro imperceptível, depois aumentando em intensidade. Parecia vir de todos os cantos, das paredes, do chão, do teto. Uma confusão de vozes, distorcidas, antigas, todas sussurrando nomes, palavras incompreensíveis… e, no meio de tudo, uma só palavra clara: — Lívia… O sangue congelou nas veias dela. Cada músculo se contraiu, e uma sensação de déjà vu assolou sua mente. Algo nela reconhecia aquele sussurro, algo que seu consciente não lembrava. Mas sua alma, seu instinto, sabia que não era apenas uma voz. A casa a conhecia. Conhecia seu nome, sua presença, seu medo. Daniel olhou para ela, finalmente vendo o pânico nos olhos de Lívia. — Isso… não é possível — disse, a voz quase engolida pelo eco do corredor. Ela sentiu uma pressão invisível empurrando contra seu peito, tornando cada respiração um esforço. Olhou ao redor, tentando encontrar uma explicação racional, mas não havia nenhuma. Só o corredor, a escuridão e o sussurro constante de seu nome. Foi quando a porta, que havia batido momentos antes, começou a se mover. Devagar. Um rangido profundo atravessou o corredor, como se a madeira estivesse viva. A maçaneta girou sozinha, lentamente, e a porta começou a se abrir, revelando apenas escuridão. Uma escuridão tão profunda que parecia absorver a luz do isqueiro, engolindo cada fragmento de realidade ao seu redor. Eles se aproximaram, com o coração disparado, o medo quase tangível, pesado no ar. No centro do quarto, iluminado por uma única e fraca faixa de luz, uma cadeira antiga se destacava. Sobre ela, uma boneca sentada, com o corpo rígido, a cabeça levemente inclinada, os olhos de vidro fixos e penetrantes. Algo nela parecia familiar a Lívia. Um reconhecimento antigo, inexplicável, que a fez tremer da cabeça aos pés. — Daniel… — sussurrou, a voz quase um gemido. — O que tem? — ele perguntou, tentando manter a calma, mas sua própria tensão era evidente. — Aquela boneca… — Lívia engoliu em seco. — Eu… eu conheço essa boneca. Daniel se aproximou para observar melhor, e ao inclinar o rosto, percebeu que algo estava gravado no corpo da boneca: um nome. Um nome que Lívia não lembrava conscientemente, mas que despertou uma memória profunda, quase esquecida. Uma memória de infância, de um lugar que ela jurava nunca ter visitado… mas que agora parecia familiar, dolorosamente familiar. — Lívia… você já esteve aqui — disse ela, mais para si mesma do que para Daniel. — Quando era criança… eu… eu não lembrava. Mas agora… agora tudo parece… certo. O corredor parecia reagir. As sombras se alongaram, os sussurros se multiplicaram, e a sensação de ser observada cresceu ao ponto de doer nos olhos, na pele, na mente. A casa inteira parecia saber que ela estava ali. Esperando. Reconhecendo. Chamando-a de volta. Daniel engoliu em seco, percebendo que aquela não era apenas uma casa assombrada. Era algo mais antigo. Algo vivo. Algo que havia guardado o passado de Lívia, escondido seus segredos, e agora finalmente despertava para revelar o que nunca deveria ter sido esquecido. E enquanto o vento frio atravessava o corredor, trazendo os sussurros cada vez mais próximos, Lívia sentiu que sua vida jamais seria a mesma. A casa sabia seu nome. Conhecia sua história. E, mais importante… não pretendia deixá-la ir embora tão facilmente.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD