Capítulo 3 – O Anúncio Oficial

1475 Words
O silêncio da manhã foi quebrado pelo som insistente do celular de Helena vibrando sobre o criado-mudo. Ainda de olhos fechados, ela soltou um gemido frustrado e tateou o aparelho, destravando a tela sem nem olhar quem era. — O que foi? — Helena, você já viu as manchetes? A voz de Camila, sua melhor amiga, estava carregada de uma mistura de choque e indignação. Isso fez Helena despertar no mesmo instante. Ela se sentou na cama, sentindo o coração acelerar. — Que manchetes? O barulho de notificações explodindo no seu celular foi resposta suficiente. Com um pressentimento r**m, ela abriu a tela inicial e viu dezenas de mensagens pipocando em grupos, redes sociais e sites de fofoca. E então, lá estava. "Bomba no mundo dos negócios: Helena Montenegro e Enzo Vasconcellos anunciam casamento! União entre impérios promete fortalecer ainda mais ambas as famílias!" A notícia estava em todos os lugares. Fotos suas e de Enzo apareciam como se fossem um casal perfeito, como se tivessem escolhido um ao outro por amor, e não por uma promessa feita anos atrás. Helena sentiu um nó no estômago. — Eu vou matar o meu pai. Camila suspirou do outro lado da linha. — Eu sei que você me disse que esse casamento era um acordo, mas isso está em um nível totalmente novo. As reportagens falam como se vocês fossem um casal apaixonado. Helena apertou os dedos contra as têmporas, tentando controlar a crescente onda de raiva. — Isso é um absurdo. Eu nem sequer fui informada de que essa notícia seria divulgada hoje! — Você acha que Enzo sabia? Ela hesitou. Enzo. Ele estava sempre um passo à frente. Sempre no controle. Se ele não estivesse por trás do anúncio, pelo menos sabia que isso aconteceria e, ao contrário dela, não se importava. — Não importa — Helena respondeu, sua voz afiada. — Eu preciso falar com ele. Agora. Quando Helena entrou na sede da Vasconcellos Corporation, foi recebida por olhares curiosos e sussurros abafados. A notícia havia se espalhado como fogo, e agora todos a viam como a futura esposa do homem mais poderoso daquele prédio. Ela odiou aquilo. — Senhorita Montenegro? — A recepcionista levantou os olhos, visivelmente desconcertada com a presença dela ali. — Preciso falar com Enzo. A mulher hesitou. — Ele está em uma reunião… — Não me importo. Helena seguiu pelo corredor sem esperar permissão. As portas duplas da sala de reuniões estavam fechadas, mas isso não a impediu de empurrá-las sem cerimônia. O som grave da voz de Enzo ecoava pelo ambiente, mas parou abruptamente quando ela entrou. Vários homens de terno estavam sentados ao redor de uma imensa mesa de vidro, todos olhando para ela com surpresa. Mas Helena não se importou com eles. Seu olhar foi direto para Enzo, que estava no centro da sala, imponente como sempre. Ele a observou com calma, como se a sua presença não fosse inesperada. — Senhorita Montenegro — ele disse, a voz baixa e carregada de ironia. — A que devo a honra? Ela atravessou a sala e parou bem à sua frente, ignorando completamente os outros presentes. — Podemos conversar? Em particular? Enzo arqueou uma sobrancelha, e então virou-se para os homens à mesa. — A reunião acabou. Vocês já sabem o que fazer. Eles se levantaram sem questionar, saindo um por um. Assim que a sala ficou vazia, Enzo recostou-se na mesa, cruzando os braços. — A que devo sua visita inesperada? Helena puxou o celular do bolso e mostrou uma das manchetes. — Você sabia disso? Enzo nem sequer olhou para a tela. — Claro. Ela sentiu o sangue ferver. — E você não achou que eu deveria saber antes? — O anúncio era inevitável. A imprensa descobriria mais cedo ou mais tarde. Ela riu sem humor. — Você realmente não se importa, não é? Para você, isso tudo é apenas um contrato. Os olhos dele se estreitaram. — Não é um contrato para você também? A pergunta a pegou de surpresa. — Eu não tive escolha. — Eu também não. Helena bufou, dando as costas e passando as mãos pelos cabelos, tentando controlar a sua frustração. — Isso não significa que eu quero ser tratada como uma peça de xadrez. Enzo se aproximou por trás dela, a respiração quente roçando na sua nuca. — Eu nunca te tratei como uma peça, Helena. Ela estremeceu involuntariamente. Ele percebeu. Os dedos dele deslizaram lentamente pelo seu braço, criando um rastro de calor. — Você sente isso, não sente? Helena fechou os olhos, tentando ignorar o arrepio que percorreu a sua pele. — Eu sinto raiva. Ele sorriu contra a sua orelha. — Mentirosa. Ela virou-se abruptamente, os olhos faiscando. — Pare de dizer isso. Enzo a olhou com um brilho divertido nos olhos. — Então pare de reagir a mim. Os dois ficaram em silêncio, o ar entre eles carregado de algo denso, perigoso. Helena sentia a respiração acelerada, o peito subindo e descendo. Enzo não se moveu, mas seu olhar a queimava. Ela sabia que deveria se afastar. Que deveria sair dali e se convencer de que o odiava. Mas, por algum motivo, não conseguia. E isso a aterrorizava. Ele inclinou-se ligeiramente, e por um segundo, Helena achou que ele fosse beijá-la. O seu coração disparou. Mas então, Enzo apenas sorriu e recuou. — Nos vemos no jantar de noivado. Helena piscou, confusa. — O quê? — O meu assessor acabou de me enviar uma mensagem. Os nossos pais já planejaram tudo. Hoje à noite, haverá um jantar oficial para celebrarmos a nossa união. Ela sentiu um peso cair sobre o seu peito. Estava a acontecer rápido demais. Enzo ajeitou as abotoaduras do terno e a observou uma última vez antes de se dirigir à porta. — Ah, e Helena… Ela ergueu o olhar. Ele sorriu de lado. — Escolha um vestido bonito. E então, ele saiu. Deixando-a sozinha, com o coração acelerado e uma mistura perigosa de raiva e desejo queimando dentro dela. O relógio marcava quase sete da noite quando Helena entrou no luxuoso salão do hotel onde aconteceria o jantar de noivado. Ela não queria estar ali. Ainda sentia o gosto amargo da humilhação por ser pega de surpresa pelo anúncio do casamento, e agora, forçada a sorrir para a imprensa e para os sócios das suas famílias, a raiva dentro dela fervia como um vulcão prestes a entrar em erupção. Mas ela estava ali. Vestindo um longo vestido vinho que abraçava o seu corpo com elegância, os cabelos presos em um coque baixo e um salto que a deixava ainda mais imponente. Se tinha que suportar aquilo, faria do seu jeito: deslumbrante e inabalável. Assim que entrou no salão, os flashes dispararam e os murmúrios aumentaram. Todos queriam ver o casal do momento. Helena ergueu o queixo, mantendo uma expressão firme, mas por dentro sentia-se como uma marionete sendo exibida para o mundo. E então, os seus olhos encontraram os dele. Enzo estava parado ao lado dos pais, segurando uma taça de vinho com a usual tranquilidade que a irritava profundamente. O terno impecável, a postura relaxada, a expressão confiante. Nada nele indicava que estava sendo obrigado àquele compromisso tanto quanto ela. Ele parecia perfeitamente à vontade. E aquilo a enfureceu ainda mais. Quando ela se aproximou, Enzo entregou a taça para um garçom e estendeu a mão. — Você está linda. — Sua voz era baixa, rouca o suficiente para que apenas ela ouvisse. Helena ignorou a eletricidade que percorreu a sua pele ao toque dos dedos dele contra os seus. — Espero que esteja se divertindo — respondeu, forçando um sorriso para as câmeras enquanto seus pais se aproximavam. — Vamos fazer o anúncio oficial. — A voz do pai de Helena soou animada, como se aquela fosse a realização de um sonho. Helena sentiu o estômago revirar. Mas Enzo apenas assentiu e, sem soltar a sua mão, a puxou levemente para o centro do salão. O patriarca dos Vasconcellos ergueu a taça e sorriu para a plateia de convidados e jornalistas. — Senhoras e senhores, é com grande alegria que anunciamos a união das nossas famílias. Helena e Enzo representam o futuro de dois impérios e, mais importante, um novo começo. Brindemos ao casal! Os aplausos encheram o salão. Helena manteve o sorriso no rosto enquanto sentia a tempestade crescendo dentro de si. Então, Enzo se inclinou levemente, os lábios quase tocando a sua orelha. — Está tudo bem, Helena. Finja que estamos felizes. Ela virou o rosto para ele, os seus olhos brilhando com um misto de raiva e desafio. — Eu não finjo tão bem quanto você, Enzo. Ele apenas sorriu, aquele maldito sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo com ela. E, naquele momento, Helena percebeu algo assustador. Esse jogo entre eles estava apenas começando.
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