Capítulo 4 – O Jogo de Poder

1500 Words
O relógio marcava exatamente 20h quando Helena desceu as escadas da mansão Montenegro. O jantar de noivado já havia começado, e o salão principal estava lotado de convidados importantes. Empresários, políticos e a alta sociedade estavam ali para testemunhar a união entre dois impérios. Mas, para Helena, aquilo não passava de uma prisão luxuosa. O seu vestido vermelho-sangue moldava-se ao corpo como uma segunda pele, e os saltos realçaram cada movimento seu. Se fosse condenado a esse jogo, ao menos não entraria nele de cabeça baixa. Ela avistou Enzo do outro lado do salão, rodeado por alguns homens de negócios. Ele estava impecável, o terno n***o ajustado à perfeição, os primeiros botões da camisa desabotoados, revelando parte do peito. Mesmo no meio de tantas pessoas, ele exalava poder. E isso a irritava profundamente. Como ele conseguia parecer tão indiferente? Como conseguia agir como se tudo aquilo fosse apenas mais um negócio? Ela caminhou até ele, ignorando os olhares curiosos. Assim que parou ao seu lado, Enzo virou-se para encará-la. Os seus olhos escuros percorreram o seu corpo sem pressa, demorando-se em cada curva, cada detalhe do tecido que grudava na sua pele. Helena sentiu um arrepio percorrer a sua espinha. Ele sorriu de canto. — Você me obedeceu. Ela franziu a testa. — O quê? — Pedi que escolhesse um vestido bonito. Você superou as minhas expectativas. A audácia dele a fez estreitar os olhos. — Não fiz isso por você. Ele inclinou-se ligeiramente, a boca próxima demais da sua orelha. — Claro que não. Helena sentiu os dedos formigarem. Deus, como queria acertar um tapa naquele rosto presunçoso. Mas ele não merecia esse prazer. Com um sorriso forçado, ela se afastou e ergueu a taça de champanhe que um garçom acabara de lhe entregar. — Espero que esteja aproveitando a noite, porque não vou facilitar as coisas para você. Enzo arqueou uma sobrancelha, interessado. — É mesmo? — Sim. E se você pensa que algum dia eu vou te amar, está muito enganado. Houve um breve silêncio. Então, um sorriso perigoso surgiu nos lábios dele. — Ah, Helena… Ele deu um passo à frente, forçando-a a inclinar a cabeça para encará-lo. — Você quer me provocar, não é? Quer me fazer acreditar que pode me desafiar. Ela abriu a boca para responder, mas ele ergueu a mão, roçando os dedos pelo seu rosto. O toque foi leve, mas fez a sua pele arder. — Mas sabe qual é o problema? — Ele continuou, a voz baixa e carregada de um tom ameaçadoramente sedutor. — Você não tem ideia do que está fazendo. Helena prendeu a respiração. Enzo inclinou-se ainda mais, os lábios pairando próximos demais dos dela. — Brincar comigo pode ser perigoso. O coração dela martelava. Ela queria afastá-lo. Queria gritar. Mas seu corpo estava paralisado. Ele a fazia sentir coisas que odiava admitir. Ela umedeceu os lábios, tentando recuperar o controle. — Você pode ser perigoso, Enzo… mas eu não tenho medo de você. Dessa vez, foi ele quem ficou em silêncio. Seu olhar escuro percorreu cada detalhe do rosto dela, analisando, estudando. Então, como se tivesse todo o tempo do mundo, ele sorriu. — Veremos. E, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Enzo pegou a sua mão e a guiou para o centro do salão. A música mudou, e Helena percebeu que os convidados estavam esperando por isso. Era o momento da dança do casal. Ela sentiu o estômago revirar. Ele planejou isso. O toque de Enzo era firme, possessivo. Uma mão na sua cintura, a outra segurando os seus dedos com força suficiente para lembrá-la de que estava presa ali, de que aquele jogo agora pertencia a ele. — Você joga sujo — ela sussurrou. Ele sorriu, aproximando o rosto do dela enquanto guiava os passos. — Eu jogo para vencer. Os movimentos eram lentos, calculados. Helena sentia cada músculo do corpo dele contra o seu, cada mínima variação da sua respiração. Era como se Enzo estivesse marcando território, mostrando para todos ali que ela era dele. Mas ela não era. E nunca seria. Então, fez algo ousado. Aproximou-se ainda mais, diminuindo o espaço entre eles, e deslizou os dedos pelos cabelos da nuca dele. O corpo de Enzo ficou tenso. Foi rápido, quase imperceptível. Mas Helena percebeu. E isso lhe deu poder. Ela sorriu, encarando-o nos olhos. — Eu também sei jogar, Enzo. Os olhos dele se estreitaram. E, por um instante, Helena teve a sensação de que havia acendido um incêndio perigoso. A música terminou, e os convidados aplaudiram. Enzo soltou a sua mão lentamente, mas antes que ela pudesse se afastar, ele segurou a sua cintura com mais firmeza. — Você não tem ideia do que acabou de fazer. A voz dele era pura ameaça. Mas Helena apenas ergueu o queixo, desafiadora. — Ótimo. Porque eu quero ver até onde você vai. E então, afastou-se, deixando-o ali, sozinho no centro do salão. O olhar de Enzo a seguiu, escuro e intenso. E Helena soube, naquele momento, que havia acabado de declarar guerra. Uma guerra perigosa. Uma guerra que poderia consumi-los por completo. Mas, no fundo, uma parte dela ansiava por isso. Helena caminhou pelo salão com a cabeça erguida, sentindo os olhares sobre si. Alguns eram de admiração, outros de curiosidade. Mas o único olhar que parecia realmente pesar sobre a sua pele era o de Enzo. Ela não precisava virar para ter certeza de que ele a observava. Podia sentir. Cada passo que dava, cada curva do seu corpo no vestido justo, era uma provocação silenciosa. E ela queria que fosse. Porque, por mais que aquele casamento fosse um jogo de poder, ela não pretendia ser apenas uma peça movida conforme a vontade dos outros. Se era para jogar, então jogaria de igual para igual. — Impressionante, Helena — uma voz feminina disse ao seu lado. Ela se virou e encontrou Isabella Vasconcellos, uma das socialites mais influentes da cidade, segurando uma taça de champanhe. — Você fez o impossível — Isabella continuou, com um sorriso afiado. — Desestabilizou Enzo Montenegro em público. Helena arqueou uma sobrancelha, tentando esconder a sua surpresa. — É mesmo? Isabella riu suavemente, levando a taça aos lábios. — Não se faça de desentendida. Vi a forma como ele olhou para você. Como se tivesse encontrado alguém que finalmente pudesse desafiá-lo. Helena soltou uma risada baixa. — Se ele gosta de desafios, então encontrou o adversário errado. — Ou talvez o certo. — Isabella inclinou a cabeça. — Você pode até achar que está no controle, Helena, mas Enzo não é um homem que perde facilmente. Helena encarou a mulher por um instante, analisando as suas palavras. Isabella era esperta, sabia das dinâmicas de poder melhor do que ninguém. Mas Helena não permitiria que isso a intimidasse. — Então ele vai ter que se acostumar — respondeu, erguendo a sua taça em um brinde silencioso antes de se afastar. Ela caminhou até um dos terraços da mansão, onde o ar estava mais fresco e os sons do salão se tornavam um ruído distante. A noite estava limpa, e as luzes da cidade brilhavam ao longe. Helena apoiou-se no corrimão, respirando fundo. Por mais que tentasse manter a fachada, a tensão da noite começava a pesar sobre os seus ombros. — Fugitiva? — A voz rouca de Enzo soou atrás dela. Ela se virou devagar, encontrando-o encostado no batente da porta, as mãos nos bolsos, a expressão predatória. — Apenas apreciando um pouco de silêncio — respondeu, mantendo a voz firme. Ele se aproximou, seus passos lentos e calculados. Helena se recusou a recuar, mesmo quando ele parou perto demais, próximo o suficiente para que o perfume amadeirado dele invadisse seus sentidos. — Você é perigosa, Helena — murmurou, os olhos escuros cravados nos dela. — Engraçado, porque eu poderia dizer o mesmo sobre você. Enzo sorriu de canto, mas havia algo diferente dessa vez. Algo que ia além da provocação. — Você quer jogar comigo, mas não sabe as regras — ele disse, a voz baixa, quase um sussurro. — Então me ensine. — As palavras saíram antes que Helena pudesse impedi-las. O sorriso dele se alargou, mas seus olhos estavam mais sombrios. — Cuidado com o que deseja, princesa. Você pode acabar aprendendo da pior forma. O coração dela bateu forte contra as costelas, mas Helena se recusou a demonstrar qualquer hesitação. Manteve o queixo erguido, o olhar firme. — Eu não tenho medo de você, Enzo. Ele inclinou-se ligeiramente, a sua respiração quente contra a pele dela. — Ainda não. Por um segundo, o mundo pareceu encolher, reduzindo-se àquele instante, àquela tensão entre os dois. Então, como se tivesse todo o tempo do mundo, Enzo se afastou. — Aproveite a sua noite, Helena. — E, sem esperar resposta, virou-se e desapareceu de volta para o salão. Helena permaneceu imóvel, sentindo o sangue pulsar nas suas veias. Ela havia entrado em um jogo perigoso. E, no fundo, sabia que já não havia mais volta.
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