O ar do salão estava pesado.
Helena sentia os olhares sobre si, os sorrisos falsos, os cumprimentos vazios. Todos ali a viam como a noiva perfeita para Enzo Vasconcellos.
Mas ela não era perfeita.
E nunca seria dele.
O peso da noite estava sufocando-a. O jogo que havia começado entre os dois estava se tornando cada vez mais perigoso. Ela precisava sair dali. Precisava respirar.
Aproveitando um momento em que Enzo estava distraído conversando com um empresário, Helena pegou a saia do vestido e caminhou para os fundos da mansão.
Seu coração batia rápido.
Cada passo era uma promessa de liberdade.
Assim que encontrou a porta que dava acesso aos jardins, empurrou-a sem hesitação.
O vento frio da noite a envolveu, fazendo-a estremecer, mas ela não parou. Caminhou pela trilha de pedras, sentindo o cheiro das rosas misturando-se ao aroma fresco da grama.
Ela só precisava de alguns minutos longe daquele circo.
Longe de Enzo.
Mas sua ilusão de fuga durou pouco.
Apenas alguns passos depois, uma voz grave cortou o silêncio.
— Fugindo de mim, Helena?
Ela parou abruptamente, o coração disparando.
Virou-se lentamente e encontrou Enzo parado à entrada do jardim.
Ele estava ali.
Na escuridão, apenas a luz da lua iluminava o seu rosto. Os olhos negros estavam fixos nela, intensos, dominadores.
Ele sabia.
O seu corpo ficou tenso quando Enzo deu um passo à frente, e então outro. Cada movimento dele era preciso, letal. Como um predador encurralando a sua presa.
Mas ela não era uma presa.
Helena ergueu o queixo, tentando disfarçar a inquietação dentro de si.
— Eu só precisava de ar.
Enzo riu baixo, um som carregado de ironia.
— Ar? Ou distância de mim?
Ela estreitou os olhos.
— Se já sabe a resposta, por que pergunta?
Agora ele estava perto o suficiente para que ela sentisse o seu perfume, para que sua presença se tornasse esmagadora.
— Porque eu quero ouvir você dizer.
A voz dele era baixa, um sussurro que parecia deslizar sobre a sua pele.
Helena apertou os punhos.
— Sim. Eu queria distância de você.
Os olhos de Enzo brilharam com algo perigoso.
Ele levantou uma das mãos e deslizou os dedos pelo braço dela, lentamente.
O seu toque era quente. Intenso.
— Que engraçado… — Ele inclinou-se ligeiramente, aproximando-se ainda mais. — Porque parece que quanto mais tenta fugir, mais perto eu fico.
O corpo dela ficou rígido.
Ela sentiu o calor dele, a energia que emanava de cada centímetro de seu ser.
Era sufocante.
Era viciante.
— Você não pode me obrigar a ficar — Helena murmurou, tentando ignorar a forma como seu coração martelava contra o peito.
O sorriso de Enzo se ampliou, mas era sombrio, cheio de promessas silenciosas.
— Mas eu posso te fazer querer ficar.
Ela abriu a boca para responder, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele segurou o seu pulso e a puxou contra si.
O choque do contato fez o ar escapar dos pulmões dela.
— O que você está fazendo?! — Ela tentou se afastar, mas ele segurou firme.
Os olhos dele estavam vidrados nela, cada traço do seu rosto analisado com precisão.
— Me diz, Helena… — Enzo inclinou-se até que os seus lábios quase roçassem os dela. — Por que você treme toda a vez que eu toco em você?
Ela prendeu a respiração.
Ele sentiu. E gostou.
— Isso não significa nada — ela disse, a voz falhando levemente.
Enzo sorriu, os lábios perigosamente próximos.
— Não? Então por que você não me empurra?
Helena queria empurrá-lo.
Queria chutá-lo, bater nele, gritar que o odiava.
Mas seu corpo não obedecia.
O calor dele era viciante. O seu cheiro, inebriante.
Os dedos de Enzo deslizaram lentamente pelo braço dela, descendo até a sua cintura.
Helena engoliu em seco.
Cada célula do seu corpo gritava que aquilo era errado.
Mas então, ele segurou sua nuca com firmeza, inclinando-a levemente para trás, e sussurrou contra os seus lábios:
— Você pode correr, Helena… mas nunca vai escapar de mim.
O corpo dela ardeu.
A respiração ficou entrecortada.
Ela sentia-se perdida, confusa… e perigosamente tentada.
E Enzo sabia.
Ele sentia cada reação dela.
Sabia que, por mais que sua boca dissesse uma coisa, o seu corpo dizia outra.
— Eu odeio você… — foi tudo o que conseguiu dizer.
Enzo riu baixinho, roçando os lábios de leve na pele sensível do seu pescoço.
— Continue a dizer isso. Quero ver até quando vai durar.
E então, como se nada tivesse acontecido, ele soltou-a lentamente e deu um passo para trás.
Helena piscou, desnorteada.
— Volte para a festa — ele ordenou, a voz firme.
— Agora.
Ela deveria desafiá-lo.
Deveria se virar e sair dali, provar que não estava sob o seu controle.
Mas seu corpo ainda tremia.
A sua mente ainda girava.
Então, sem outra escolha, ela endireitou os ombros e caminhou de volta para o salão.
Mas a cada passo, sentia o olhar de Enzo queimando a sua pele.
E sabia, no fundo, que essa batalha estava longe de terminar.
Helena atravessou o salão com passos firmes, ignorando os olhares curiosos que se voltavam para ela. O seu coração ainda pulsava descontrolado, a pele formigava onde Enzo a havia tocado. Ele conseguia desestabilizá-la com uma facilidade irritante, mas ela não cederia.
Não poderia ceder.
Assim que entrou novamente na mansão, procurou um local afastado da multidão. Encontrou refúgio próximo a uma das imponentes janelas de vidro, de onde podia observar a noite estrelada lá fora.
— Bela noite, não acha? — A voz suave de Leonardo, primo de Enzo, a tirou de seus pensamentos.
Helena se virou, forçando um sorriso.
— Sim, é uma bela noite.
Leonardo era um homem charmoso, de feições marcantes e olhos claros que transmitiam uma tranquilidade que, naquele momento, era um alívio. Ele analisou-a por um instante, então baixou a voz.
— Está tudo bem?
Helena hesitou. Poderia confiar nele? Leonardo sempre fora educado com ela, nunca a tratava como uma mercadoria como os outros faziam.
— Apenas me acostumando com… tudo isso. — Respondeu evasivamente.
Ele sorriu de lado, compreendendo a sua reserva. Então, ergueu a taça de champanhe em um brinde silencioso.
— Se precisar de um aliado, sabe onde me encontrar.
Antes que Helena pudesse responder, sentiu uma presença forte atrás de si. O ar ao seu redor pareceu pesar, e um arrepio percorreu a sua espinha.
Enzo.
Ela virou-se devagar e encontrou os seus olhos escuros fixos nela. A expressão dele era ilegível, mas a tensão na sua mandíbula denunciava o seu estado de espírito.
— Leonardo. — Ele cumprimentou o primo com um tom impassível.
— Enzo. — Leonardo retribuiu, sem se intimidar.
O silêncio que se instalou entre eles foi denso, carregado de subentendidos. Por fim, ele virou-se para ela novamente e sorriu.
— Foi um prazer conversar com você, Helena.
E então, com uma tranquilidade irritante, ele se afastou.
Assim que ficaram a sós, Enzo cruzou os braços, observando-a com atenção.
— Se eu não soubesse que você é inteligente, pensaria que está brincando comigo.
Helena bufou, exasperada.
— Ah, então agora eu não posso nem conversar com alguém sem a sua permissão?
Enzo deu um passo à frente, reduzindo o espaço entre eles. Sua presença era sufocante, sua expressão, indecifrável.
— Leonardo não é confiável. — Sua voz saiu baixa, quase um rosnado.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E você é?
A tensão entre eles cresceu. Enzo sorriu de lado, um sorriso perigoso.
— Eu nunca disse que era. Mas pelo menos eu jogo limpo.
Helena riu, um som sem humor.
— Você manipula tudo ao seu redor e ainda tem a audácia de dizer que joga limpo?
Ele inclinou a cabeça levemente, estudando-a com aquele olhar que fazia a sua pele arrepiar.
— Manipular não é trair. Mas, se quiser testar a minha lealdade, vá em frente.
Ela sentiu o desafio nas palavras dele, e isso a irritou ainda mais.
— Não preciso testar nada. Eu já sei exatamente quem você é, Enzo.
Ele sorriu, como se as suas palavras apenas o divertissem.
— Então me diga… quem sou eu?
Helena engoliu em seco. Ele sempre fazia isso. Sempre a empurrava para os limites, obrigando-a a encará-lo, a enfrentá-lo.
Mas dessa vez, ela não desviaria.
— Você é um homem acostumado a ter tudo do seu jeito. Um homem que acredita que pode controlar as pessoas como peças em um tabuleiro de xadrez. Mas eu não sou uma peça, Enzo. E você não vai me mover à sua vontade.
Por um instante, ele ficou em silêncio. Então, com um movimento rápido, tomou a sua mão e a puxou para perto. O contato foi eletrizante.
— Você está certa sobre uma coisa, Helena. — A voz dele era baixa, mas intensa. — Eu sempre consigo o que quero.
Os olhos dele prenderam os dela, e naquele instante, Helena soube que essa guerra estava apenas começando.