A igreja estava cheia.
Os vitrais imponentes filtravam a luz do sol, tingindo o chão de cores suaves, enquanto o murmúrio dos convidados preenchia o ambiente com expectativa.
Mas para Helena, aquilo era apenas um cenário.
Um teatro cuidadosamente montado.
Ela estava ali, vestida de branco, envolta em um vestido luxuoso que abraçava suas curvas com perfeição. O véu caía sobre seus ombros, e as joias cintilavam como se tentassem compensar o vazio que sentia por dentro.
Seus olhos estavam fixos na longa nave da igreja, mas seu coração batia furioso.
Ela não queria estar ali.
Não queria dar aquele passo.
Mas não tinha escolha.
Prendeu a respiração quando sentiu a mão de seu pai tocar a sua. O olhar severo que ele lançou em sua direção foi o suficiente para fazê-la seguir em frente.
Cada passo ecoava como um lembrete c***l de que estava sendo entregue a um homem que não escolheu.
A um homem que a desafiava.
Que a dominava.
E que, de alguma forma, fazia seu corpo traí-la.
Quando finalmente chegou ao altar, seus olhos encontraram os de Enzo.
Ele estava ali.
Imponente, vestindo um terno n***o impecável. O rosto esculpido em mármore, frio, inalcançável.
Ele sequer piscou ao vê-la.
Helena sentiu o sangue ferver.
Ele não demonstrava nada.
Nenhum sinal de hesitação, de incerteza. Nenhuma emoção.
Era apenas um homem assinando um contrato.
Odiou-o por isso.
Odiou-se ainda mais por querer arrancar alguma reação dele.
O padre começou a cerimônia, mas Helena m*l ouvia as palavras. Seu olhar estava cravado no de Enzo, desafiando-o em silêncio.
Se ele esperava que ela fosse uma noiva submissa, estava enganado.
Se ele pensava que poderia possuí-la sem luta, ele teria uma guerra.
— Helena Montenegro, aceita Enzo Vasconcellos como seu legítimo esposo?
O silêncio pesou na igreja.
Ela não respondeu de imediato.
Sentiu os olhares sobre si, a tensão crescente, a inquietação dos convidados.
Então, moveu os lábios, a voz carregada de veneno:
— Sim.
A palavra saiu quase como um desafio.
Um aviso.
O olhar de Enzo permaneceu inalterado, mas algo brilhou em seus olhos escuros.
Algo indecifrável.
— Enzo Vasconcellos, aceita Helena Montenegro como sua legítima esposa?
Ele não hesitou.
— Sim.
A resposta foi firme, sem falhas.
Mas, por um breve instante, seu olhar se aprofundou no dela.
Helena sentiu um arrepio correr por sua espinha.
Ele escondia algo.
O que era?
O padre continuou a cerimônia, selando a união entre eles. Mas Helena não conseguia mais se concentrar em nada ao redor.
Seu corpo estava rígido.
Seu coração pulsava forte demais.
E Enzo…
Ele apenas observava.
Sempre observava.
O beijo.
Ela havia se esquecido desse detalhe.
Os convidados estavam ansiosos.
O murmúrio crescia.
Enzo virou-se para ela, e seus lábios se curvaram levemente.
Não era um sorriso.
Era uma provocação silenciosa.
Helena sentiu a raiva ferver.
Antes que pudesse protestar, ele segurou sua cintura e a puxou para si.
O toque foi firme, autoritário.
O calor de seu corpo a envolveu por completo.
E então, seus lábios tomaram os dela.
Foi um beijo breve.
Sem pressa, sem urgência.
Mas intenso.
Não houve ternura, nem romantismo.
Apenas poder.
Apenas controle.
Quando ele se afastou, Helena estava sem ar.
Os aplausos explodiram ao redor, mas ela m*l os ouviu.
Seus olhos estavam fixos nos de Enzo, e pela primeira vez, percebeu algo diferente ali.
Não era apenas frieza.
Não era apenas indiferença.
Era posse.
E isso a assustava mais do que qualquer outra coisa.
O salão da recepção estava luxuosamente decorado, e os convidados celebravam a união dos dois.
Helena segurava uma taça de champanhe, tentando ignorar os olhares e os sorrisos forçados.
Ela estava oficialmente casada.
Presa a Enzo.
Odiava cada segundo daquilo.
Mas o que mais a incomodava era a presença dele ao seu lado.
Sempre ali.
Sempre observando.
— Você está tensa, esposa — ele murmurou, aproximando-se.
Helena lançou-lhe um olhar cortante.
— Não me chame assim.
Os lábios de Enzo se curvaram levemente.
— Mas agora é exatamente isso que você é. Minha esposa.
Ela sentiu os músculos do corpo se retesar.
— Isso não significa nada.
Ele inclinou-se, os lábios próximos de seu ouvido.
— Ah, Helena… isso significa tudo.
O arrepio que percorreu sua pele foi imediato.
Seu corpo reagia a ele de uma forma que odiava admitir.
— Não pense que esse casamento te dá algum direito sobre mim — ela sussurrou, mantendo o olhar fixo à frente.
A risada baixa de Enzo fez seu coração disparar.
— Engraçado você dizer isso… porque tudo em você grita o contrário.
Helena prendeu a respiração.
Os dedos de Enzo deslizaram levemente pela curva de suas costas, como um toque acidental.
Mas ela sabia que não era.
Nada em Enzo Vasconcellos era acidental.
O jogo entre os dois estava apenas começando.
E, no fundo, Helena sabia que estava perigosamente perto de perder o controle.
A recepção seguia como um espetáculo cuidadosamente ensaiado.
Casais dançavam sob o brilho dos lustres de cristal, enquanto garçons circulavam com bandejas de champanhe e canapés refinados. Risos ecoavam pelo salão, brindes eram erguidos, e os flashes das câmeras capturavam cada momento como se fossem retratos de um conto de fadas.
Mas Helena sabia a verdade.
Aquela não era uma celebração. Era uma sentença.
Ela ainda sentia a mão de Enzo pousada levemente na base de suas costas. Um toque sutil, mas presente. Um lembrete constante de que agora ela lhe pertencia.
Respirando fundo, forçou um sorriso ao perceber o olhar atento de algumas socialites, ávidas por qualquer deslize seu.
— Helena.
A voz baixa e grave de Enzo a trouxe de volta à realidade. Ela se virou para encará-lo, encontrando aqueles olhos escuros que pareciam sempre ver além do que ela queria mostrar.
— O que foi? — murmurou, sustentando o olhar.
— Vamos dançar.
A sugestão soou mais como uma ordem.
Helena arqueou uma sobrancelha.
— Eu passo.
O canto da boca dele se ergueu em um meio sorriso, mas não havia humor ali.
— Não é uma opção.
Antes que pudesse protestar, sentiu a mão firme dele segurar a sua, conduzindo-a até o centro do salão. Os olhares curiosos dos convidados se voltaram para eles, e Helena soube que não havia saída.
A orquestra iniciou uma melodia suave, e Enzo a envolveu em seus braços, guiando-a com destreza.
— Está gostando do espetáculo, esposa? — ele provocou, a voz baixa o suficiente para que só ela ouvisse.
Helena manteve a expressão impassível.
— Isso aqui não passa de uma farsa, Enzo.
— Engraçado… porque você está se saindo muito bem no papel. — Os dedos dele apertaram levemente sua cintura. — Quase convincente.
Ela inspirou fundo, controlando a onda de fúria que subia por sua garganta.
— Não se engane — sussurrou. — Isso pode parecer um casamento, mas eu nunca serei sua.
Os olhos dele brilharam com algo perigoso.
— Nunca diga nunca, Helena. Você pode se surpreender com as voltas que a vida dá.
Helena sentiu o corpo ficar rígido. Cada palavra de Enzo carregava uma promessa velada. Um aviso. E, pior do que isso, uma certeza.
Mas ela não estava disposta a ceder.
A música chegou ao fim, e ele a soltou devagar, mas não sem antes deslizar os dedos por seu braço, deixando um rastro de calor indesejado.
Os convidados aplaudiram, e Helena recuou um passo, tentando recuperar o controle sobre si mesma. Mas antes que pudesse se afastar completamente, Enzo segurou sua mão, puxando-a levemente para perto.
— Não fuja — disse ele, em um tom baixo, apenas para ela. — Você pode não perceber agora, mas fugir de mim nunca foi uma opção.
Helena sentiu um arrepio percorrer sua pele.
O jogo entre eles estava apenas começando. E, no fundo, ela temia que, por mais que lutasse, no final, fosse ela quem acabaria perdendo