Capítulo 7 – A Primeira Noite

1431 Words
O silêncio no quarto era pesado. Precisava apagar da mente o toque dele, o beijo diante de todos, o olhar intenso que a desarmava pouco a pouco. Fechou os olhos por um instante e respirou fundo. Era sua primeira noite como esposa de Enzo Vasconcellos. Mas isso não significava nada. Ela jamais se entregaria a ele. Foi então que um som ecoou no quarto. Um barulho seco, preciso. Ela abriu os olhos rapidamente e virou-se. A maçaneta girava. Alguém tentava entrar. Seu coração deu um salto. — Enzo. — Seu nome saiu como um aviso, mas sem força. — Você acha que uma porta trancada vai me impedir, Helena? — A voz dele atravessou a madeira, carregada de um humor sombrio. Ela prendeu a respiração, recuando um passo. O silêncio veio antes do clique. A tranca foi aberta. Seus olhos se arregalaram quando a porta foi empurrada lentamente. Ele entrou. Fechou a porta atrás de si com uma calma assustadora, sem desviar o olhar dela. Helena sentiu o corpo inteiro endurecer. — Saia. Enzo ignorou o comando. Apenas caminhou lentamente pelo quarto, sem pressa, como se já fosse dono de tudo ali. Inclusive dela. — Está com medo? — Sua voz era baixa, provocante. Helena ergueu o queixo. — Eu não tenho medo de você. Os lábios dele se curvaram levemente. — Tem certeza? Ela cruzou os braços, tentando manter a postura firme. — Você pode ter conseguido esse casamento, mas nunca terá nada de mim. Ele parou a poucos passos dela, o olhar escuro queimando sua pele. — Nunca? — Sua voz saiu como um desafio. Ela sentiu o ar fugir dos pulmões. A presença dele era esmagadora. Ele não precisava encostar nela para que seu corpo sentisse o impacto. E isso era ainda pior. — Me diz, Helena… — Ele inclinou a cabeça, observando-a com um olhar afiado. — Por que você treme toda vez que eu me aproximo? Ela abriu a boca, mas nenhuma resposta veio. — Por que sua respiração falha quando eu falo seu nome? Helena engoliu em seco. Odiava o jeito que ele lia cada reação sua. Odiava que ele estivesse certo. — Isso não significa nada. — Sua voz saiu fraca. — Não? — Ele deu mais um passo, invadindo ainda mais seu espaço. O perfume dele envolveu seus sentidos. O calor irradiava de seu corpo, preenchendo o espaço entre os dois, fazendo a pele de Helena arder. — Então, me diga… — Enzo murmurou, os olhos descendo para os lábios dela. — Se isso não significa nada, por que você ainda não me mandou embora? Os dedos dela se fecharam ao lado do corpo. Ele estava perto. Perto demais. E ela não conseguia se mover. — Eu deveria te odiar… — A voz dela saiu baixa, quase um sussurro. Os olhos de Enzo brilharam. — E odeia? Ela queria dizer que sim. Queria gritar que sim. Mas o silêncio dela disse tudo. Ele sorriu. Um sorriso perigoso. — Você pode me odiar o quanto quiser, Helena… — Sua voz era um veneno doce, deslizando pela pele dela. — Mas isso não muda o fato de que eu estou em sua mente. Ela sentiu o corpo inteiro tremer. — E o pior de tudo… — Ele se inclinou ainda mais, os lábios quase roçando sua orelha. — Você gosta disso. A respiração dela falhou. O calor dele a envolveu completamente. A forma como seu corpo reagia ao toque invisível dele era insuportável. O pior de tudo era que ele sabia. Sempre soube. — Você está enganado. — Foi tudo o que conseguiu dizer. Enzo riu baixinho, um som carregado de satisfação. — Estou? Ela apertou os olhos, tentando lutar contra as sensações que a dominavam. — Você nunca vai me ter. A resposta dele veio imediatamente. — Quem disse que eu preciso te ter… para que você me deseje? Helena sentiu o mundo girar. Porque era a verdade. Uma verdade c***l e implacável. Ela podia lutar, podia negar, podia se esconder atrás de sua raiva. Mas Enzo Vasconcellos já estava dentro dela. E ela odiava isso mais do que qualquer coisa. Ele se afastou lentamente, os olhos ainda fixos nos dela. — Durma bem, esposa. E então, como se soubesse que já havia vencido aquela batalha, virou-se e saiu, deixando-a sozinha. Deixando-a consumida pelo desejo, pelo ódio… e pelo medo do que viria a seguir. Porque sabia que aquela guerra estava apenas começando. O silêncio que Enzo deixou para trás foi ainda mais ensurdecedor do que sua presença. Helena sentia o peso do quarto ao seu redor, como se as paredes estivessem se fechando sobre ela, prendendo-a dentro de seus próprios pensamentos confusos. Ela odiava aquele homem. Odiava a forma como ele a desafiava, como a desarmava com um simples olhar, como fazia seu corpo trair sua mente. Com um suspiro irritado, Helena levou as mãos ao rosto, tentando dissipar as sensações que ele havia deixado para trás. Seu coração ainda pulsava de forma errática, e a lembrança da voz rouca dele, tão próxima, fez sua pele formigar. Ela não podia ceder. Não podia permitir que ele a controlasse daquele jeito. Seu olhar vagueou pelo quarto, luxuosamente decorado para a noite de núpcias. As velas aromáticas ainda queimavam em cima da cômoda, e a enorme cama com lençóis de cetim parecia uma armadilha esperando para engoli-la. Cada detalhe daquele ambiente gritava romance e desejo. Mas para Helena, tudo aquilo era um teatro. Um jogo perigoso onde ela não podia se dar ao luxo de perder. Com passos firmes, caminhou até o banheiro. Precisava de um banho, de algo que aliviasse a tensão crescente dentro dela. Ligou a torneira da banheira, deixando a água quente encher o espaço enquanto se despia lentamente. A renda delicada de sua lingerie roçou sua pele enquanto a removia, e por um breve momento, o toque fantasma dos dedos de Enzo voltou a assombrá-la. Ela fechou os olhos com força. Não. Ele não a teria. Não dessa forma. Afundou-se na água quente, sentindo o calor relaxar seus músculos. Permaneceu ali por longos minutos, tentando afastar cada lembrança daquela noite. Mas era impossível. A presença de Enzo estava marcada nela. No ar, na pele, nos pensamentos. Quando finalmente saiu do banho, envolveu-se em um robe de seda e caminhou de volta para o quarto. Precisava dormir, precisava recuperar o controle sobre si mesma. Mas ao se aproximar da cama, encontrou algo que a fez parar. Uma garrafa de vinho e duas taças. Franziu a testa. Ela não se lembrava de ter pedido aquilo. Então, a porta se abriu. Helena congelou. Enzo entrou no quarto com a mesma calma predatória de sempre, os olhos escuros analisando cada detalhe dela. Estava sem o paletó, a camisa branca aberta no colarinho, as mangas dobradas revelando os antebraços fortes. Ele era a personificação da confiança e do poder. — O que você está fazendo aqui? — A voz dela saiu mais fraca do que pretendia. Enzo ergueu uma sobrancelha, pegando a garrafa de vinho e derramando o líquido escarlate em uma das taças. — Achei que poderíamos brindar ao nosso casamento. — Seu tom era casual, mas seus olhos brilhavam com algo mais profundo. Helena cruzou os braços, mantendo-se firme. — Não há nada para celebrar. Ele sorriu de lado, oferecendo a taça a ela. — Então brinde à sua liberdade… a taça de sua mão e levou aos lábios, sem desviar o olhar do dele. O vinho deslizou quente por sua garganta, mas não tanto quanto o fogo que queimava dentro dela. — Você acha que me conhece, Enzo. — Sua voz era baixa, firme. — Mas não faz ideia de quem eu sou. Ele inclinou a cabeça, apreciando cada palavra como se fossem um presente. — Ah, minha esposa… Eu m*l comecei a te conhecer. — Afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, o toque leve demais para ser ignorado. — Mas garanto que teremos tempo para isso. Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas manteve a postura. — Você não pode me possuir, Enzo. Nem agora, nem nunca. Os olhos dele brilharam com algo perigoso. Lentamente, ele tomou um gole de seu vinho antes de murmurar: — Quem disse que eu quero te possuir? Ele se inclinou, os lábios roçando a curva do maxilar dela, e sua respiração quente fez o estômago de Helena se revirar. — Eu prefiro algo muito mais interessante… — sussurrou. — Quero que seja você a me desejar. Helena prendeu a respiração. Porque, no fundo, ela sabia que esse era exatamente o seu maior medo.
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