Henrique não conseguira dormir naquela noite, assim como Valentina também não… Ela culpou-se de diversas maneiras, sabia que o marido zelava por sua reputação e talvez tivesse estragado isso, torcia apenas para que o marquês não dissesse nada ao duque. Torcia para que não tivesse estragado tudo que Marcos construirá em um simples momento de fraqueza.
Não era fraca e não se daria ao luxo de fraquejar novamente na frente de outra pessoa que não fosse o próprio espelho.
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23 de Maio de 2022
Vanessa fechou o livro e respirou fundo, por Deus, a quem devia agradecer por aquele presente incrível? Era uma jornalista, amava histórias e agora teria o prazer de desvendar uma dentro de sua própria casa. Não se contentaria com meias informações, iria atrás de cada detalhe, por menor que fosse, afinal, se formara para isso.
Mas antes de continuar a leitura, algumas coisas precisavam ser feitas. Ainda havia muito a ser posto no lugar.
Ela começou pelo quarto, colocou na parede um quadro que amava, o pai e a mãe a abraçavam de maneira amorosa e era assim que sempre se lembraria deles. Na escrivaninha um porta-retrato com sua melhor amiga e revirando a caixa, no finalzinho dela, encontrou uma foto com seu ex-namorado, Mateus era de longe uma das pessoas mais incríveis que já conhecera. Ele era doce e gentil na medida exata, era inteligente e engraçado, era bonito também, não que fosse de suma importância para Vanessa, mas os olhos verdes do garoto haviam sido de grande ajuda quando no ensino médio decidira lhe dar uma chance. Sabia que provavelmente nunca encontraria alguém como ele, mas o amava tanto a ponto de chegar a conclusão que ele merecia mais, merecia alguém inteiro, que pudesse fazê-lo feliz e para sua maior infelicidade, esse alguém não era ela.
Vanessa colocou a foto dos dois na escrivaninha ao lado de sua cama e abriu um sorriso nostálgico, quem sabe em algum outro momento? Não esperava que ele a esperasse se curar, talvez ele encontrasse outro alguém e ela seria a última pessoa a julga-lo, mas ninguém pode prever os segredos que guarda o futuro.
Em seguida, esvaziou as caixas de roupa e cuidadosamente arrumou cada uma no closet. Tinha levado algumas peças de roupa de seus pais, não queria esquecê-los ou supera-los como todos diziam que devia fazer, mudara de casa e de cidade fugindo de si mesma e de seus pensamentos, jamais deles. Os levaria consigo até o fim de sua vida.
Nessas horas, lamentava ter sido filha única. Na verdade, se vangloriara disso a vida toda, amava ter a atenção de seus pais exclusivamente para ela, mas agora sentira na pele como fora imatura e estava totalmente sozinha no mundo - em quesito família - um tio ou outro fingia se importar, mas ela já era uma mulher adulta o que certamente os levava a pensar que daria conta sozinha e na realidade, todos estavam ocupados demais com suas próprias vidas, deveres e afazeres. O mundo atual não era nada como nos livros fantasiosos que gostava de ler em suas horas vagas e tampouco como fora anos atrás, quando família tinha um significado diferente, quando todos se uniam e se ajudavam …
Anos atrás…
Tal pensamento a remeteu a condessa Valentina, estava curiosa para saber que rumo a história daquela mulher tomara afinal. Tinha um casamento falido, mesmo que as fotos mostrassem o contrário, certamente não havia felicidade em seu matrimônio e algo lhe dizia que lendo aquele diário descobriria muito mais do que podia imaginar.
Sentindo a curiosidade crescer dentro de si, Vanessa colocou o restante das roupas sem muito cuidado no closet, jogou o corpo pesado na cama e alcançou novamente o pequeno livro escrito em uma letra desenhada e perfeitamente alinhada.