Capítulo 3
Narrativa de Esmeralda
Quando ouvi meu pai falar aquilo, fiquei apavorada. Descobrir que ele estava armando pra tirar minha fortuna me deixou sem chão. Coisa que nem ligo... se ele me pedisse pra fazer uma doação, eu faria. Mas fazer isso?
Vou tomar meu banho e ir direto pra cama. Hoje vou ficar quietinha aqui em cima. Tomara que ninguém me chame. Entrei no banheiro, tirei minhas roupas cheias de areia, entrei no box, abri o chuveiro e fiquei ali — nem sei quanto tempo — chorando. Pensando na vida, decidi que iria curtir a vida adoidado.
Liguei pra Mabel, fiquei conversando com ela um pouco e marquei com ela e Marina que eu ia pra lá almoçar, jantar e dormir. Não contei o que estava acontecendo.
Acordei cedo, fiz minha higiene pessoal, tomei banho e passei na cozinha. Só estavam as empregadas. Perguntei pelo meu pai:
— Odete, onde está meu pai? Ele já foi pra empresa?
Ela respondeu sem me encarar, com medo:
— Seu pai não dormiu em casa essa noite.
Respondeu meio sem graça. Olhei pra ela, chamei discretamente e perguntei rápido, antes que os outros serviçais voltassem do café deles:
— Você tem alguma coisa pra me dizer? Se tiver, tem que ser agora.
Ela começou a falar rápido:
— Então, patroa, seu pai já tem três meses que não paga nossos salários. Estamos quase sendo despejados de nossas casas porque estamos atrasados com tudo. Eu já estou sem energia elétrica, cortaram faz um mês. Então, estamos nos reunindo pra pedir demissão. Por enquanto, quero te pedir ajuda pra mim e meus companheiros de trabalho.
Ouvi aquilo, respirei fundo e chamei Gonçalo. Perguntei sobre o que estava acontecendo. Ele falou que meu pai estava jogando todos os dias em uma casa de jogos clandestina. Perguntei por que ele continuava trabalhando com meu pai se ele não estava pagando a ninguém. Ele simplesmente respondeu:
— Ele nos paga além do que pedimos, porque o nosso serviço é todos os dias e é mais perigoso. Tem vezes que ele não ganha nada, só perde.
Gonçalo olhou pra um lado e pro outro, me puxou pra um canto e disse:
— Seu pai já perdeu tudo, até a dignidade. Perdeu a empresa pra um dos sócios e está quase perdendo essa casa aqui. Não sei o que a senhora vai fazer, mas, se for fazer, é bom fazer logo.
Fiquei ali parada, pensando. Chamei Gonçalo e saímos dali para o banco. Conversei com meu gerente, fiz uma retirada de uma grande quantia em dinheiro e deixei claro que voltaria pra negociar e resgatar a hipoteca da casa, mas falei que seria tudo no meu nome. Quando disse isso, o gerente ficou branco.
— Como a senhorita soube da hipoteca da casa? Ela já venceu faz três meses e iria a leilão — perguntou ele.
Fiquei paralisada olhando pro gerente. Como ele sabia disso e não mandou nenhum aviso? Claro, ele ia arrematar a casa no leilão, pagar barato e viver como se fosse um magnata. Arrematei a dívida na hora. Ia voltar depois, mas acabei fazendo tudo na hora. Nunca se deixa pra depois o que se pode fazer hoje.
Fui pra casa, subi pro meu quarto, separei os três meses atrasados dos funcionários, desci, paguei a todos e ainda dei um salário a mais, porque eles acumularam dívidas por causa do meu pai.
Quando comecei a subir as escadas, meu pai entrou igual a um furacão, gritando feito um louco:
— Sua filha da p**a, vagabunda do c*****o! Por que você foi no banco e tomou minha casa pra você? Você não tinha esse direito, v***a! Essa casa é minha, nem você nem ninguém vai tirar ela de mim!
Continuei em pé na escada, esperando ele terminar de falar. Quando terminou, desci calmamente, olhei pra ele, fiz sinal pra ele sentar, segurei suas mãos e disse:
— Por que o senhor está jogando desse jeito? Perdeu o gosto pela vida? Está acontecendo alguma coisa que queira me contar?
Ele não respondeu, apenas baixou a cabeça e começou a chorar copiosamente. Pensei em deixar ele ali, mas não consegui. Continuei falando:
— Se o senhor estava precisando de dinheiro, era só pedir que eu lhe ajudaria com prazer. O que o senhor ia fazer com as dívidas acumuladas? Como iria resgatar a hipoteca da casa, papai?
— Se o senhor não sabe, vou te falar: sua casa estava cotada pra ir a leilão na semana que vem, e ninguém mandou nenhuma notificação avisando. Sabe por quê? Porque o gerente do banco estava querendo arrematar ela fora do leilão. Ele estava planejando pagar as dívidas da hipoteca. O senhor tem noção da gravidade disso?
Meu pai me olhou de um jeito que não consegui decifrar. Mas minha parte estava feita.
Cheguei na cozinha, cumprimentei os empregados:
— Bom dia a todos.
Tomei meu café, peguei meu carro e fui pra casa da Marina. Chegando lá, elas já estavam me esperando. Mabel estava eufórica, porque foi convidada pro aniversário do dono do morro.
Ela me chamou pra ir à festa. Disse que o morro ia estar em peso.
— Não sei se vou, não — respondi, um pouco tensa. — Vou pensar no seu caso, Mabel. Estou com problema demais pra pensar em festas, principalmente em um lugar totalmente fora do meu padrão de vida. Não sei como lidar com essa situação. Deixa pra próxima, ok?
Ela insistiu mais uma vez. Depois de tanto negar, falei, já cansada:
— Vou ver se dá pra eu ir, tá bom.
Marina franziu a testa, olhou pra mim, veio até mim, segurou minhas mãos, sentou na poltrona e disse, com aquele olhar de preocupação:
— Maria Isabel, o que está acontecendo com você? Por que está com esse olhar triste e ao mesmo tempo preocupado?
Tentei não falar nada, mas não aguentei e disse tudo pra ela. Contei até do casamento que ele estava arrumando pra me tomar a fortuna que minha avó deixou. Marina me olhou com preocupação e tentou me tranquilizar, mesmo sem ter tranquilidade alguma.
— Se você ver alguma movimentação diferente naquela casa, sai de lá imediatamente, tá me ouvindo, minha menina? Seu pai não presta, pelo que sua avó me contou. Com o tempo, contarei tudo pra você. Fica aqui hoje, dorme aqui com a gente.
Era uma sexta-feira. Mabel não estava pensando em dormir cedo. Falou com Marina que íamos num pagode no morro. Na hora, dei um pulo da cama negando, dizendo que não iria a lugar algum. Mas, como sempre, Mabel foi insistente.
Cedi e saímos pro pagode no pavilhão da Pedreira. Fomos de Uber. Chegando perto, o motorista não quis passar da tal barreira. Ainda bem que eu vim de tênis. Subimos aquela rua cheia de homens armados. Mabel cumprimentando todos os “garotos”, como ela chama, e subimos.
Chegando no tal galpão, o pagode estava comendo solto. Mabel me apresentou a todos que conhecia, até o tal do Medusan (risos). O sub dá pedreira.
Que nome ridículo! Agora sei por que ela queria vir pro pagode — ela está saindo com medusan. Deus me livre e guarde de sair com um cara desses. Fiquei sabendo de coisas horríveis que eles fazem com as mulheres que gostam.
Ficamos até às quatro da manhã. Estávamos indo embora quando passou aquele homem enorme em cima de uma moto caríssima, musculoso, tatuado. Falou com Medusan e saiu com uma garota na garupa. Que homem lindo...
Chegamos em casa, caímos na cama, mas eu não dormi — fiquei com o cara da moto na cabeça.