Capítulo 12
Narrativa do autor
Já fazem dois dias que ninguém tem notícia de Esmeralda — nem suas próprias amigas. Ela simplesmente se calou, desapareceu; ninguém sabe para onde foi. O italiano foi embora, mas deixou um aviso para o pai de Esmeralda:
— Vou te dar 10 dias para encontrá-la. Se não encontrar, o primeiro a morrer será você, e depois o resto. Se eu te matar já está de bom tamanho — ele continuou — já está paga a dívida e ela vai continuar bilionária, porque eu deixo para ela um bom dinheiro. Quer queira ou não queira, ela já é minha esposa. Entendeu, Lourenço? Agora é com vocês: procura-a até achar. Quando achar, manda um telegrama para mim que eu mandarei os meus soldados virem buscá-la. Não tente me enganar, porque eu tenho olhos em todos os lugares. Entendeu?
Esmeralda, se escondeu, está em uma ilha que arrumou através de uma amiga que conheceu num posto de gasolina. Ela contou uma história dizendo que era geóloga, e a moça a levou para essa ilha. Ela está lá, sem comunicação, quieta, até saber o que vai acontecer com ela e com a família dela. Marina e Mabel estão guardadas no alto do morro da Pedreira. Quem está exposto é o pai dela, mas ela não tem pingo de pena; já falou: — Todo castigo para o meu pai é pouco. Ele me vendeu por causa da minha fortuna. Eu não entendia até agora por que ele quer a minha fortuna, mas tudo bem — disse ela — ninguém precisa saber. Vou ficar aqui quietinha até resolverem o que tem que resolver.
Dezoito dias se passaram. Esmeralda continua desaparecida para os seus. Seu pai está à beira da loucura procurando por ela; ele nunca vai imaginar que ela está escondida em uma ilha. Não há nenhum vestígio dela. Onde ela deixou suas coisas — a casa que alugou em Cabo Frio — está quieta, em silêncio, esperando a poeira baixar. Até quando ela vai ficar escondida? Tentando viver nesse esconderijo que é pacífico e bom, ela não esquece o FalCão: está sempre com a imagem dele na cabeça — como ele a possuiu, como foi carinhoso, os beijos que eles deram. Ela imagina: foi lindo. Mas ela não pensa em voltar para aquele lugar, porque sabe que FalCão é possessivo e fará da vida dela um inferno. Ela continua descondida.
Mas algo aconteceu: o italiano Damasceno, na Itália, sofreu uma parada cardíaca e veio a falecer, deixando um testamento milionário para Esmeralda — sem ao menos conhecê-la. Antes disso, porém, ele mandou que matassem Lourenço por ter tentado enganá-lo. Quando se completaram dois meses do sumiço de Esmeralda, FalCão só combinou desespero. Mabel e Marina também estão desesperadas procurando Esmeralda. Cálculo realmente está apaixonado por ela: não a tira da cabeça, não consegue ficar com outra mulher. Quando vai ficar com alguém, lembra de Esmeralda — lembra do seu corpo, do seu cheiro, do seu sorriso, até mesmo do seu choro na hora de perder a virgindade. Tudo vindo de Esmeralda foi lindo para ele; ele está amando.
Medusan está rondando Mabel — ele se encontra apaixonado por ela. Mabel percebeu o que ele sentia por Lúcia não era amor, era possessão, porque foram criados juntos e ele não deixava que ninguém se aproximasse da sua amiga; por isso confundiu as coisas. Verdadeiramente, ele está apaixonado por Mabel. Marina, percebendo, chamou Mabel e falou:
— Você toma cuidado, esse rapaz não é flor que se cheire, sabe? É traficante; a sua vida não vai ser boa com ele. Mas se você o ama, tudo bem. Eu estive quase na mesma situação que você, só que eu escolhi viver. Não demorou muito tempo para a polícia ceifar a vida do teu pai, então eu me sinto melhor assim. Nunca mais arrumei ninguém e nem sinto falta, porque não sabemos quem é bom e quem é r**m. Então pense bem o que você quer fazer. Eu vi as marcas roxas que estavam no seu braço e nas suas pernas, e ouvi você falando com ele — que ele te bateu porque você cobrou dele por que ele estava te traindo. Eu ouvi.
Mabel respondeu:
— Tá certo, vamos ver se achamos a Esmeralda. Vou sair pelo Rio de Janeiro para procurá-la: eu por um lado e você por outro. Vamos procurar até encontrar. Pede ao seu parceiro para designar alguns soldados da boca para irem conosco e para alguém rastrear o seu número de telefone — que eu sei que é o telefone que está com ela — e o dela está com você. Então vou mandar rastrear o seu número de telefone, certo. Posso?
Mabel disse:
— Sim, mamãe, pode pedir para rastrear.
Foi o que Marina fez: subiu na boca, chamou Medusan e disse:
— Por favor, tem como você mandar rastrear esse número? Sim, eu sei o que você está vendo: é o número da Mabel. Ele está com a Esmeralda. Eu preciso deste número porque quero saber onde ela está. Ok? Quando você descobrir, ligue para esse número. Estarei esperando. Agora saio para procurar; qualquer coisa, me liga, por favor.
Quando Marina olhou para o canto da sala, lá estava FalCão sentado contando notas. Olhou para ela com o ar gélido e perguntou:
— O que a senhora está olhando para mim?
Marina ficou sem graça e disse nada. Saiu quase correndo. Chegando em casa, falou para Mabel:
— Minha menina, quem é aquele homem dos olhos quase verdes, cheio de tatuagens, enorme, bonito, que estava sentado na sala perto do Medusan?
Mabel respondeu:
— Ele é o FalCão, mamãe. Foi com ele que Esmeralda perdeu a virgindade, e ele está igual a um louco procurando por ela — também fugiu dele. Ela só queria perder a virgindade para não ter que entregar para o mafioso.
Uma rua em Copacabana deserta. O pai de Esmeralda caminhava, não tranquilo — ele se vigiava. De repente, uma moto com ronco altíssimo aproximou-se; dois estampidos, pá pá — foram dois tiros à queima-roupa. Ali caiu o pai de Esmeralda. Todos vieram correndo, mas não puderam fazer mais nada: ele estava morto. Algumas pessoas perguntaram — “Conhece esse homem?” — e todos disseram que não. Um porteiro passou, olhou e disse:
— Eu já vi esse homem entrando no prédio. Ele parece ser o pai de uma moça que mora aqui, mas já tem uns três meses que eu não a vejo.
Esse porteiro tinha o número da Marina; ligou para ela.
— Alô, dona Marina? O pai da Esmeralda está aqui no chão, levou dois tiros e está morto. Tem como a senhora achar ela para fazer o enterro?
Dona Marina tomou um susto e disse:
— Como assim, morto?
— Sim, dona Marina — continuou o porteiro — ele estava caminhando na calçada, indo para o seu prédio. De repente, dois homens em uma moto encostaram e deram dois tiros na cabeça do seu Lourenço. Ele caiu já sem vida; nem viu quem foi. Como eu também não vi, só sei que a moto era vermelha — mas sabemos nós que essa moto deve ter sido roubada para fazer esse serviço. Por favor, vá para o IML fazer reconhecimento do corpo. Se a senhora tiver algum documento dele ou da filha, faça o reconhecimento e faça o enterro. Ok? Obrigado e desculpa pela má notícia.
Esmeralda estava em cima de uma rocha, quebrando um pedaço da pedra fingindo ser geóloga. Ela catava amostras e botava em uma bolsa de couro. À tarde, ia para a casa onde estava hospedada, juntamente com alguns geólogos — ela não conversava com eles. Chegava, tomava seu banho, jantava, entrava no seu quarto e ia dormir. Mas, nesse dia, ela deixou o telefone em um canto que tinha área; foi ali que o telefone tocou, e ela viu o nome: Esmeralda sabia que era Mabel. Atendeu num pulo e falou:
— Fala, Mabel.
Lá do outro lado do telefone, uma voz disse:
— Não é a Mabel. Sou eu, Marina. Por favor, volta para casa. Mataram o seu pai em frente ao nosso prédio; não sei o que fazer. Já fui lá, fiz o reconhecimento do corpo, mas para enterrar tem que ser você — ou ele será enterrado como indigente.
Esmeralda, com o coração duro, disse:
— Deixa ele ser enterrado como indigente. Porque, para mim, esse homem nunca foi nada.
— Tá bom, Esmeralda — respondeu Marina. — Tá bom, minha filha, tu tá onde?
Esmeralda respondeu:
— Não posso dizer ainda. Tchau, Marina. Fica com Deus.
Esmeralda desligou o telefone, deitou na cama, olhou para o teto e desabou em lágrimas. Chorou como se fosse uma criança, porque, mesmo que seu pai não a amasse, ela tinha sentimento por ele — mas ele não tinha nenhum por ela; por duas vezes a vendeu.