CONHECENDO ESMERALDA

1357 Words
CAPÍTULO 1 Narrativa da Esmeralda Oi, me chamo Esmeralda. Sim, meu nome é Esmeralda por causa da cor dos meus olhos, que são verdes — iguais à pedra esmeralda. Moro na zona sul do Rio de Janeiro. Tenho 18 anos; completei recentemente, exatamente seis dias atrás. Morei com minha avó desde os cinco anos de idade; não conheci minha mãe — dizem que ela morreu de câncer quando eu tinha dois anos. Meu pai me levou para a Itália, onde minha avó morava, e me deixou lá para viver com ela. Minha avó era pior que militar: quando ela ordenava, tinha que fazer; senão ela me botava de joelhos no milho durante três longas horas. Na semana passada ela passou m*l do coração. — resultado de três carteiras de cigarros que fumava por dia. O coração não aguentou e ela faleceu. Meu pai foi me buscar e me trouxe para o Rio de Janeiro. A casa do meu pai era linda, cheia de seguranças; eu vivo cercada de empregados — não sou nem um pingo acostumada com isso. Minha avó me criava em rédeas curtas: eu limpava toda aquela mansão, ainda lavava e passava. Aprendi a cozinhar com Marina, uma cozinheira baiana que morava com minha avó. Eu achava estranha a aproximação delas, porque dormiam no mesmo quarto; à noite dava para ouvir os gemidos vindo daquele quarto, e, quando minha avó morreu, Marina chorou copiosamente. Meu pai vendeu tudo porque ele foi um dos herdeiros. Eu também herdei a fortuna que estava em dois bancos — e não era pouca. Havia uma casa grande na Bahia e uma conta bancária numerosa, suficiente para uma pessoa viver bem pelo resto da vida. Ela também deixou uma carta endereçada para mim e outra para Marina. No testamento ficou bem claro: meu pai não podia meter a mão na minha herança; só o marido que eu um dia viesse a ter poderia mexer no meu dinheiro e ser dono da fortuna por ser meu marido. O advogado entregou a minha carta e a carta de dona Marina em nossas mãos. Meu pai só ficou com o mausoléu que eles chamavam de mansão; logo tratou de colocar a propriedade nas mãos do advogado para ser vendida. Quando o advogado foi embora, entramos para o quarto — eu e dona Marina — para ler as cartas. CARTA ABERTA PARA ESMERALDA Minha netinha querida: sei que não fui a melhor pessoa do mundo para você, mas tudo que você passou aqui foi um aprendizado, para você aprender a se virar quando estiver no aperto. Esse dinheiro que deixei é todo seu, mas a casa da Bahia e parte da fortuna são da Marina, minha companheira de sempre — esse será nosso segredo, ok? Quero que você leve Marina com você: compre um apartamento e vá morar com ela. Não a deixe sozinha; por enquanto sei que ela vai sofrer a minha falta. Não deixe seu pai se apoderar da sua fortuna. Fique atenta com seu pai e cuide de tudo por mim. CARTA TERMINADA Fiquei ali parada, com os olhos marejados, ao saber que minha vovó, apesar de tudo, tinha um bom coração. Abri a carta de dona Marina: havia a cópia da escritura de uma casa na Bahia e um cheque nominal de um milhão e meio de reais — além da fortuna que já estava depositada na conta dela. Vi os olhos dela se encherem de água e as lágrimas caírem em cascata pelo rosto; eu abracei dona Marina e choramos juntas porque vovó nos deixou bens. Meu pai ainda não precisava saber: daqui a três dias eu completaria dezoito anos e poderia mexer em tudo sem precisar de tutor. Nosso advogado comprou passagens para depois do meu aniversário de dezoito anos. Três dias depois de tudo, estávamos pousando no Rio; o nosso jatinho particular veio abarrotado de roupas e um monte de coisas — precisaram até encostar um caminhão Scania enorme para carregar tanta coisa. Haviam carros na pista nos esperando; saímos dali em direção à Barra da Tijuca. Quando chegamos, uma recepção nos esperava: todos os 15 empregados estavam ali — até os cachorrinhos. Fomos apresentados; agradeci pela recepção, dei as mãos para dona Marina e subimos para nossos aposentos. Falei para ela que íamos sair no outro dia para procurar um apartamento confortável para ela ficar. Ela me contou que tinha uma filha mais ou menos da minha idade que morava no Rio; não era casada, morava com a irmã em um morro do Rio — ela ainda não sabia qual, mas iria ao último endereço que sua irmã lhe deu. Fomos cada uma para o seu quarto. Tomei um banho demorado, vesti uma roupa fresquinha e fui dormir. Agora estou aqui sentada em uma mesa enorme tomando café sozinha, porque Marina já está morando em um apartamento na zona sul do Rio, precisamente no Flamengo, de frente para o mar — uma das melhores vistas que já vi. Ela conseguiu achar sua filha e a trouxe para morar com ela. A filha dela se chama Maria Isabel; todos a chamam de Mabel. Ela vivia em situação de risco: a tia gastava todo o dinheiro que Marina mandava. Mabel tem agora 19 anos, mas aparenta ser mais nova, de tão magra que está. Trabalhava vendendo água na praia; e virgem porque ninguém olhava para uma menina esquelética. Agora ela mora com a mãe; a tia só não foi presa porque mora em uma comunidade. Hoje vou chamar Mabel para irmos à praia — ela agora vai poder aproveitar sem vender nada para ninguém. Vesti meu melhor e menor biquíni e parti para a praia. Também não contei a vocês: comprei um carro zero, blindado, com três seguranças atrás de mim, claro. Parei o carro no estacionamento, chamei-os, dei trezentos reais para cada um e os dispensei até eu ligar — mandei que ficassem curtindo. Não demorou: ela chegou com aquele cabelão batendo na b***a — linda, cheia de charme. Já fomos logo mergulhar. Tinha uns caras nos rondando; ela parecia conhecê-los. — Digão, o que vocês querem aqui? Vou acionar um vapor lá do morro e dizer que vocês estão roubando aqui na área. — disse ela. — Qual é, Mabel? Vai arrumar confusão? Valeu, nós vamos pra outra área então. — respondeu um deles. Fiquei olhando para ela, assustada. Ela deu um sorriso e falou: — Conheço eles lá da minha antiga área; o dono de lá não gosta que roubem por aqui. — Entendi, — falei. — Mas vou ficar atenta; vai que eles voltem. Ficamos ali até o cair da tarde. Liguei para o Gonçalo e mandei acionar os outros — eu já estava esperando. Estava um barulho danado onde eles estavam: muita voz de mulher rindo; eu acho que eles estavam em um bordel. Levei Mabel em casa e parti para a minha casa. Cheguei, fui entrando sala adentro já tirando minha canga, e a empregada foi logo pegando minhas coisas — tirei minha rasteirinha e ela já a guardou. Quando entrei na sala de visitas, para subir pela escada dos fundos, meu pai estava conversando com um homem de meia-idade, tomando vinho com petisco. Ele me deu um sorriso largo — coisa que ele nunca fez nesses um mês e meio que estou no Brasil. Sou muito desconfiada; olhei para o senhor que se chama Gaspar — para mim esse é nome de bicheiro. Subi as escadas, mas voltei devagar; foi aí que eu ouvi o meu pai, com a cara mais deslavada, falando: — Essa é minha filha linda. Como te falei, você vai fazer um grande sacrifício: casar com ela, tirar o lacre e ainda sair com meio milhão de reais e o apartamento que vai ser seu porque você vai casar com ela. Se quiser continuar casado, tudo bem; se não quiser, larga-a em qualquer sarjeta por aí. Mas eu preciso dessa fortuna que ela herdou da sua avó. Se não, quem vai para a sarjeta sou eu. Daqui a três meses você anuncia seu casamento com minha filha para a cúpula. Por enquanto, você tenta se aproximar dela.
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