Capítulo 1
Amara
Cinco anos de casamento e eu ainda tentava impressionar um homem que nem lembrava a cor dos meus olhos.
Patética? Talvez. Mas naquela noite eu estava decidida. Vesti o vestido vermelho que ele nunca me viu usar, passei o perfume caro que ele me deu no Natal, provavelmente escolhido pela secretária, e dirigi até o prédio da empresa dele com uma garrafa de vinho no banco do carona.
Era nosso aniversário de casamento. Anthony tinha esquecido, claro. Mandou uma mensagem seca de manhã:
— "Vou chegar tarde. Reunião importante."
Reunião importante. Eu devia ter desconfiado só pela pontuação perfeita.
Subi de elevador até o último andar. O segurança me conhecia, sorriu, deixou passar. O corredor estava escuro, mas a porta da sala dele tinha uma fresta de luz. Meus saltos não faziam barulho no carpete grosso, e eu já ensaiava a surpresa no rosto quando parei com a mão a poucos centímetros da maçaneta.
Foi quando eu ouvi.
Uma risada de mulher.
Meu estômago afundou na hora. Cheguei mais perto da fresta, segurando a respiração, e espiei.
Anthony estava sentado na beirada da mesa. E entre as pernas dele, com o vestido amassado e a mão passeando pelo peito do meu marido, estava Vanessa. A ex. A famosa ex do passado que ele jurava nem lembrar que existia.
— Você não sente falta de nada? — ela perguntou, rindo baixinho. — Casado com aquela boneca de porcelana...
— Sentir falta do quê? — Anthony riu também. Aquela risada que eu um dia achei charmosa. — Vanessa, eu casei com um contrato. O pai dela vale dois bilhões. A Amara é só... o brinde.
O brinde.
Eu apertei a garrafa de vinho contra o peito pra ela não escorregar das minhas mãos. Meu corpo inteiro gritava pra eu escancarar aquela porta, jogar o vinho na cara dos dois e fazer o escândalo do século.
Mas eu não me mexi.
Cinco anos dormindo do lado daquele homem. Cinco anos ouvindo desculpa pra ele não me tocar. Dor de cabeça. Cansaço. Estresse. Cinco anos me perguntando o que havia de errado comigo, se eu era feia demais, chata demais, pouco demais.
E eu era só o brinde.
Uma coisa estranha aconteceu dentro de mim naquele momento. Eu esperava chorar. Juro que esperava. Mas o que subiu pela minha garganta não foi choro.
Foi raiva. Daquelas que queimam limpo, sem fumaça.
E raiva pensa rápido.
Se eu entrasse ali agora, o que eu ganhava? Um escândalo. Um divórcio apressado. Anthony correndo pro meu pai primeiro, com a versão dele pronta, ensaiada, embrulhada pra presente. Ele era bom nisso. Ele era bom em transformar as pessoas no que ele precisava que elas fossem.
Não.
Se ele passou cinco anos me fazendo de boba, eu podia fingir por mais um tempo. O suficiente pra ele cair sem ter onde se segurar.
Dei um passo pra trás. Depois outro. Voltei pelo corredor escuro com o coração batendo no ouvido e desci de elevador abraçada com aquela garrafa de vinho como se fosse a última coisa honesta da minha vida.
No estacionamento, sentei no carro e fiquei um minuto inteiro olhando pro volante.
— Você merece coisa melhor do que aqueles dois — falei pra garrafa no banco do carona. Sim, eu estava conversando com uma garrafa. A noite tinha sido longa.
Liguei o carro sem saber pra onde ir. Pra casa é que não era. Aquela casa tinha o cheiro dele, os ternos dele, o lado da cama que ele fingia ocupar. Se eu entrasse lá agora, eu ia quebrar alguma coisa. Provavelmente algo caro. Provavelmente na cabeça dele, quando chegasse.
Então eu fiz o que qualquer mulher recém-traída e furiosa faria.
Procurei o bar mais próximo pra encher a cara e planejar uma vingança.
O destino, engraçadinho como sempre, me colocou na porta do Onyx. O bar mais exclusivo de Toronto, aquele tipo de lugar onde a dose de uísque custa o salário de uma pessoa normal e ninguém faz pergunta. Entrei de vestido vermelho, salto alto e coração em pedaços, e sentei no balcão como quem senta num trono.
— O que a senhora vai querer? — o barman perguntou.
— O uísque mais caro que você tiver. Duplo. E pode deixar a garrafa por perto, porque hoje eu estou comemorando.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Comemorando o quê, se não for indiscrição minha?
— Meu divórcio — sorri. — Ele só ainda não sabe.
O barman riu, achando que era piada, e serviu a dose. O primeiro gole desceu queimando, e eu recebi a queimação como um abraço.
Peguei o celular e abri as mensagens do Anthony.
— "Vou chegar tarde. Reunião importante."
Digitei a resposta com o maior sorriso falso da história:
— "Tudo bem, amor. Descansa. Te espero acordada."
Te espero acordada. Ele ia adorar essa. Homens como Anthony adoram uma esposa paciente.
— Aproveita a reunião — sussurrei, guardando o celular. — Aproveita muito. Porque vai ser das últimas.
O plano ainda não existia direito. Era mais um desenho borrado na minha cabeça… descobrir tudo, juntar prova, falar com meu pai na hora certa, do meu jeito, com as minhas palavras. Fazer Anthony assistir o castelo dele desmontar tijolo por tijolo, sem nunca saber por onde começou a rachadura.
Eu só precisava de tempo. E de mais uma dose.
Foi no segundo gole que eu senti.
Aquela sensação esquisita de estar sendo observada.
Olhei pelo espelho atrás do balcão e encontrei dois pares de olhos verdes me encarando de uma mesa reservada no canto. Dois homens. E que homens, meu Deus.
Um era ruivo, grande, ombros largos, com cara de quem resolve problema quebrando dedo. Ele não desviou o olhar quando me pegou olhando. Pelo contrário. Inclinou a cabeça devagar, como um predador estudando o jantar, e o canto da boca dele subiu num sorriso que deveria ser proibido por lei.
O outro era loiro, elegante, terno perfeito, girando o copo entre os dedos com uma calma irritante. Esse sorriu diferente. Um sorriso lento, debochado, de quem já sabia o final da história e estava só esperando eu descobrir.
Voltei os olhos pro meu copo. Meu coração estava batendo num lugar estranho.
— Não olha — sussurrei pra mim mesma. — Você acabou de sair de um desastre. Não olha.
Olhei de novo, é claro.
E dessa vez o loiro ergueu o copo na minha direção, num brinde silencioso. O ruivo falou alguma coisa com ele sem tirar os olhos de mim, e os dois riram baixo, daquele jeito de quem acabou de fechar um acordo.
Eu devia ter sentido medo. Qualquer mulher com juízo sentiria.
Mas eu tinha deixado meu juízo na porta da sala do Anthony, junto com meu casamento.
Terminei a dose de um gole só e fiz sinal pro barman.
— Outra.
— A senhora tem certeza?
— Moço, hoje eu tenho certeza de pouquíssimas coisas — falei, empurrando o copo. — Mas dessa aqui eu tenho.
Foi quando ouvi a cadeira ao meu lado sendo puxada. Um perfume amadeirado, caro, invadiu o ar antes mesmo da voz.
— Comemorando o divórcio sozinha? — a voz era grave, com um fio de deboche. — Isso é quase um crime.
Virei o rosto devagar. Era o loiro. De perto, ele era ainda pior. Bonito daquele jeito injusto, com olhos verdes que pareciam me despir e me analisar ao mesmo tempo.
— E você é o quê? A polícia? — perguntei.
Ele sorriu, e eu odiei o arrepio que subiu pela minha nuca.
— Não — respondeu, se acomodando na cadeira como se fosse dono dela. — Eu sou o problema que a sua noite estava precisando.
Atrás dele, o ruivo se levantou da mesa. E começou a vir na nossa direção.