Decisões

1102 Words
A sala de reuniões do Grupo Falcão era um ambiente moderno e imponente, com paredes de vidro que ofereciam uma vista deslumbrante da cidade. Vicente estava sentado à cabeceira da longa mesa de mármore, seus olhos percorrendo cada rosto ali presente. Os principais acionistas e membros da diretoria estavam reunidos, mas o ar era tenso, quase sufocante. Enquanto um dos diretores apresentava os resultados do último trimestre, Vicente mantinha uma expressão séria, mas sua mente estava em outra coisa. Ele havia notado, nos últimos meses, pequenos sinais de descontentamento entre alguns membros da família e investidores. No entanto, naquela manhã, esses sinais tornaram-se evidentes. — É importante reconhecer que os números do último trimestre foram excepcionais. Sob sua liderança, Vicente, alcançamos um aumento de 15% no lucro líquido. — O diretor de finanças sorriu, tentando suavizar o clima. Apesar do elogio, Vicente percebeu as expressões discretas de descrédito entre alguns dos presentes. Seu tio, Marcelo Falcão, em particular, estava inclinado na cadeira, os braços cruzados, como se esperasse algo que pudesse usar contra ele. — Excelente apresentação, César. — Vicente falou quando o diretor terminou. Sua voz era firme, carregando o peso da autoridade que ele ainda detinha. — Alguém tem algo a acrescentar? Marcelo se endireitou na cadeira, ajustando o paletó. — Na verdade, sim. Embora os resultados sejam satisfatórios, alguns de nós acreditamos que o Grupo Falcão precisa de uma liderança que priorize os valores familiares que construíram esta empresa. Vicente ergueu uma sobrancelha, mas manteve o rosto inexpressivo. — Interessante. Poderia elaborar? — Claro. — Marcelo sorriu, mas era um sorriso falso. — Não se trata apenas de números, meu sobrinho. Trata-se de continuidade, de manter a tradição que fez deste grupo um dos maiores do país. Muitos aqui concordam que talvez seja hora de considerar um líder com raízes mais sólidas na família. Vicente sentiu o sangue ferver, mas não deixou transparecer. Ele sabia que isso era mais do que uma crítica; era uma tentativa clara de minar sua posição. — A tradição do Grupo Falcão sempre foi a excelência nos negócios. — Vicente respondeu, sua voz firme e controlada. — E os resultados que acabamos de ver provam que estamos no caminho certo. — É verdade. — Marcelo concordou, mas havia sarcasmo em seu tom. — Ainda assim, há quem diga que um líder casado, com uma família estruturada, representaria melhor os valores que promovemos. O silêncio que se seguiu foi pesado. Vicente sabia que aquilo era um golpe direto. Ele não tinha dúvidas de que Marcelo havia plantado essa ideia entre os outros diretores e acionistas. — Vamos encerrar a reunião por aqui. — Vicente disse, levantando-se. — Tenho certeza de que cada um de vocês tem muito trabalho a fazer. Os diretores começaram a se levantar, mas Vicente manteve os olhos fixos em Marcelo, que saiu da sala com um sorriso satisfeito. Quando todos saíram, Vicente permaneceu na sala, encarando a vista da cidade. Ele fechou os punhos, frustrado, mas ao mesmo tempo determinado. Ele precisava agir. E rápido. Pegou o telefone e ligou para sua secretária. — Traga Sávio à minha sala imediatamente. Dentro de poucos minutos, Sávio entrou na sala, carregando uma pasta de documentos. Ele olhou para o amigo e viu em seu rosto a mistura de tensão e determinação. — O que houve? — perguntou, fechando a porta atrás de si. — Eu preciso desse contrato com Olívia assinado o mais rápido possível. — Vicente disse sem rodeios, sua voz firme. Sávio sentou-se na cadeira em frente à mesa de Vicente, colocando a pasta sobre ela. — Eu imaginei que fosse dizer isso. Já trouxe algumas informações adicionais sobre ela, caso precise. Vicente folheou os papéis rapidamente, mas sua mente já estava decidida. Ele sabia que Olívia era a escolha certa, tanto por sua situação quanto por sua elegância e postura que agradariam aos acionistas mais exigentes. — Ela tem até amanhã para dar a resposta. — Vicente disse, levantando-se e olhando para a vista da cidade novamente. — E, se não aceitar... — Ela vai aceitar. — Sávio interrompeu, confiante. Vicente virou-se para ele, um leve sorriso no rosto. — É bom que aceite. O tempo não está ao nosso favor. Vicente estava em sua cobertura, uma taça de uísque na mão, os olhos fixos na imensidão da cidade iluminada. A noite estava silenciosa, mas sua mente não. Ele nunca havia pensado em se casar. Para ele, o casamento sempre fora uma ideia distante, uma prisão disfarçada de compromisso. Gostava de sua liberdade. Viajando pelo mundo, conhecendo mulheres diferentes, aproveitando tudo o que a vida podia oferecer sem amarras. Sua agenda era preenchida por negócios durante o dia e diversão à noite. Não havia espaço para obrigações familiares ou sentimentos que pudessem prendê-lo. Agora, no entanto, sua realidade era outra. Um contrato, um acordo frio e calculado, colocaria um fim, mesmo que temporário, à sua tão estimada liberdade. Ele tomou um gole da bebida e deixou-se cair no sofá de couro. A conversa com Marcelo na reunião ainda ecoava em sua cabeça. Os olhares desconfiados dos outros diretores, as palavras cuidadosamente escolhidas para atacá-lo. Vicente sabia que não podia perder o controle do Grupo Falcão. Não agora, quando a empresa estava em sua melhor fase. "Casar-me por obrigação... que ironia do destino", pensou, passando a mão pelos cabelos. Ele sempre teve tudo sob controle. Cada movimento, cada decisão era calculado. Mas isso? Isso o colocava numa posição desconfortável, vulnerável até. Ele pegou o celular e olhou a foto que Sávio havia incluído no relatório sobre Olívia. Ela era bonita, não havia como negar. Tinha um ar elegante, apesar da aparente simplicidade. Sua expressão na foto revelava uma mistura de determinação e cansaço, algo que Vicente não pôde ignorar. "Será que ela vai aceitar?" Vicente sabia que a proposta era absurda, mas também sabia que Olívia estava em uma situação delicada. Se ela fosse tão inteligente quanto parecia, entenderia que aquele acordo poderia ser a solução para os dois. Ele precisaria convencê-la, é claro, mas, no fundo, confiava no próprio charme. — Um ano. — murmurou para si mesmo, como se quisesse se convencer. — É só isso. Ele terminou o uísque e levantou-se, caminhando até o quarto. Tirou a camisa e olhou-se no espelho por um instante. Era jovem, poderoso e, na opinião de muitos, irresistível. Mas naquele momento, sentiu o peso da responsabilidade sobre seus ombros. Dormir seria impossível. Vicente sabia que as próximas semanas seriam decisivas, e, de uma forma ou de outra, ele precisava estar preparado para abrir mão de algumas coisas. Pelo bem do Grupo Falcão.
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