O preço das dívidas

890 Words
A noite de Olívia foi marcada por reviravoltas em sua mente inquieta. Assim que amanheceu, ela estava sentada à mesa da cozinha, uma xícara de café nas mãos, mas sem disposição para beber. Pensava na ousadia de Vicente e na própria situação financeira da empresa. Como ela havia chegado a esse ponto? Chegou ao escritório mais cedo do que de costume, determinada a revisar cada centavo que entrava e saía. A empresa era a herança de sua família, mas, sob sua administração, parecia mais um navio à deriva. No meio da manhã, enquanto organizava as contas no computador, foi interrompida pelo som de passos apressados. Dona Estela, a fiel secretária que trabalhava ali há mais de vinte anos, entrou com o rosto pálido e um envelope nas mãos. — Dona Olívia... chegou isso agora há pouco. Olívia pegou o envelope, notando o selo do banco que havia negado o empréstimo dias atrás. Seus dedos hesitaram antes de abri-lo. Assim que leu o conteúdo, seu coração disparou. Era uma notificação formal: uma das maiores dívidas da empresa havia vencido e, sem pagamento imediato, a empresa seria levada a leilão. — Isso não pode estar certo... — murmurou, sentindo o chão sumir sob seus pés. Ela olhou para Estela, que parecia tão desconcertada quanto ela. — Estela, por favor, entre em contato com o contador. Eu preciso de explicações! Estela assentiu e saiu apressada. Olívia permaneceu sentada, o documento ainda em suas mãos, enquanto o pânico crescia dentro dela. "O que eu faço agora? Não há dinheiro suficiente nem para cobrir as despesas básicas, quanto mais essa dívida monstruosa!" O dia parecia ter parado no tempo enquanto ela aguardava respostas. Mas o contador confirmou: era real. A dívida existia, e o prazo estava esgotado. No final da tarde, sozinha em sua sala, Olívia se permitiu chorar. Lágrimas silenciosas escorriam enquanto ela encarava a janela, pensando em todas as vezes que tentou alertar seus pais, em todas as festas desnecessárias, os luxos que não podiam mais sustentar. Agora, o peso das decisões erradas recaía inteiramente sobre seus ombros. Ela pensou na proposta de Vicente. A ideia a enojava, mas era difícil ignorar que ele tinha o poder para salvá-la daquela situação. — Não... — disse em voz alta, enxugando as lágrimas. — Eu vou encontrar outra saída. Mas, no fundo, uma voz insistente sussurrava que não havia outra saída. A cada segundo que passava, o contrato de Vicente parecia mais inevitável. Olívia estava sentada em sua cadeira, o olhar vazio fixo em um ponto qualquer da mesa. A notificação do banco ainda estava ali, junto com os relatórios financeiros que ela revisara até à exaustão. Não importava o quanto tentasse, todas as suas tentativas de resgatar a empresa falhavam. Ela tinha ido de banco em banco, conversado com possíveis investidores, até considerado vender parte dos bens pessoais. Nada disso era suficiente. As portas pareciam fechar na sua cara antes mesmo de conseguir bater nelas. Enquanto tentava recompor-se, a porta do escritório abriu-se com um estrondo. Seu pai entrou, o rosto vermelho, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. — Você conseguiu, Olívia! — ele gritou. — Conseguiu afundar o trabalho de toda uma vida! Ela o encarou, surpresa com o tom. — Pai, eu estou tentando... — Tentando? — ele interrompeu, batendo na mesa com força. — Desde que você assumiu, tudo desmoronou! Você não foi capaz de controlar nada. Só trouxe vergonha para essa família! As palavras cortaram fundo, mas Olívia manteve a cabeça baixa. Não havia mais o que argumentar. Os números não mentiam. — Você não tem ideia de como gerir um negócio! — ele continuou, a voz carregada de raiva. — Talvez devêssemos ter deixado tudo nas mãos do Leonardo. Ele nunca teria permitido que as coisas chegassem a esse ponto! A menção ao irmão mais novo foi o golpe final. Olívia sentiu as lágrimas ameaçando escapar, mas engoliu o choro. — Leonardo nunca se importou com a empresa — ela respondeu, a voz baixa, mas firme. — Ele só quer aproveitar os luxos que ela proporciona. — E quem é você para julgar? Olhe onde estamos! — o pai rebateu, apontando para os papéis na mesa. Ela não respondeu. Não havia como argumentar com alguém que se recusava a ver a realidade. O problema não era apenas a má gestão, mas também o estilo de vida irresponsável da própria família. — Se você não resolver isso, eu vou tomar as rédeas novamente. Não importa como — ele disse antes de sair, batendo a porta com força. Olívia ficou sozinha, sentindo-se menor do que nunca. Ela sabia que não era totalmente culpada pela situação, mas era mais fácil ser o alvo da raiva do pai do que fazê-lo enxergar seus próprios erros. Por um momento, considerou desistir. Deixar a empresa ir a leilão, abandonar tudo e começar do zero em algum lugar longe dali. Mas a ideia durou pouco. Aquela empresa era parte de sua vida, algo que ela amava e queria proteger, mesmo que isso lhe custasse caro. Enquanto encarava o vazio, a proposta de Vicente voltou à sua mente. Ele havia oferecido uma saída. Uma saída humilhante, é verdade, mas era uma solução. — Será que eu realmente não tenho outra escolha? — murmurou para si mesma, sentindo o peso da decisão começar a esmagá-la.
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