Os Demônios que o Sono Não Esconde. Cap 2

1746 Words
Capítulo 2 Amizade que nasce no meio do ca0s Com o tempo, Joarez começou a abrir seu coração para o padre. Não era fácil para ele, mas Antônio tinha uma paciência infinita. A história de Joarez foi revelada aos poucos, entre um olhar perdido e outro. Ele contou sobre seu envolvimento com a máfia, sobre como queria fugir daquele mundo, e como o peso da culpa o corroía por dentro. A noite estava silenciosa na pequena sacristia da igreja no Rio de Janeiro. Joarez, com os ombros pesados e a voz carregada de dor, finalmente decidiu abrir seu coração para Padre Antônio. Sentados lado a lado, a luz branda de uma vela os iluminava, criando uma atmosfera íntima e acolhedora. — Padre, eu preciso te contar sobre mim. Não sei quanto tempo ainda tenho antes que eles me encontrem. Não posso carregar isso sozinho. Padre Antônio inclinou-se levemente para frente, os olhos fixos no jovem à sua frente. Ele sabia que Joarez carregava um fardo pesado, mas jamais o pressionou para falar. Agora, sentia que o momento havia chegado. — Tudo bem, Joarez. Estou aqui para ouvir. Fale no seu tempo. Joarez respirou fundo e começou: — Meu nome completo é Joarez Figueiredo Benedetto. Minha história começa muito antes de mim, com meus bisavós, Giuseppe Benedetto e Rosetta Morelli. Eles eram da Sicília, Itália. Vieram para o Brasil no final do século XIX, fugindo da pobreza. Se estabeleceram no interior de São Paulo e trabalharam nas plantações de café. Trouxeram consigo a cultura, as tradições italianas. Nossa família sempre foi unida, sabe? Mas algo sombrio começou a crescer com o tempo. Ele fez uma pausa, os olhos fixos no chão, enquanto continuava: — Meus avós paterno, Antonio Benedetto e Caterina Rossi, decidiram deixar o interior e foram para Santos, em busca de novas oportunidades. Meu avô começou a trabalhar no porto, mas ali... ali começou o envolvimento da nossa família com algo maior, mais perigoso. O tráfico, padre. O contrabando. Era discreto no início, mas logo se tornou parte da vida deles. Padre Antônio ouvia atentamente, sem interromper, mas seu semblante demonstrava preocupação. — Meu pai, Paolo Benedetto, cresceu nesse ambiente. Ele tentou me proteger disso, tentou me manter longe, mas era impossível. Ele era parte da máfia italiana que operava no porto. Eu era apenas uma criança, mas percebia o que acontecia. Minha mãe, Maria Luiza Morelli, era uma mulher incrível. Forte, religiosa, devota. Ela acreditava que a fé poderia salvar nossa família. Mas... — Joarez engoliu em seco, os olhos cheios de lembranças dolorosas — ela não conseguiu salvar meu pai. Ele foi assassinado quando eu tinha apenas 12 anos. Uma disputa de poder. — Sinto muito, Joarez. — Padre Antônio colocou uma mão no ombro dele, transmitindo empatia. Joarez continuou, a voz embargada: — Depois disso, minha mãe e eu tivemos que fugir de Santos. Fomos para o interior de São Paulo. Ela tentou recomeçar, tentou me criar longe desse mundo. Mas a ausência do meu pai, padre... foi como um buraco que nunca se fechou. Na adolescência, me rebelei. Me envolvi com pessoas erradas. Era como se o destino me puxasse de volta para aquele caminho. Ele respirou fundo antes de prosseguir: — Quando fiz 16 anos, eles me encontraram. Eu estava em São Paulo, trabalhando em pequenos delitos para sobreviver. Vicente Lombardi, um dos capangas de Dante Morelli, apareceu para mim. Ele me ofereceu um trabalho, um último "teste". Eu seria aceito de volta na organização se fizesse aquilo. Eles me levaram para o Rio de Janeiro. Me colocaram na frente do quarto de hotel onde estavam Alessandro Valentini e Sofia Lombardi Valentini, pais de uma menina chamada Estella. Vicente colocou uma arma na minha mão. Me obrigou a entrar no quarto. Joarez parou, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Eu não queria, padre... eu não queria fazer aquilo. Minha mão tremia, meus joelhos m*l me sustentavam. Vicente me ameaçou. Ele disse que, se eu não atirasse, ele atiraria em mim e depois neles. A mulher, Sofia, olhou nos meus olhos. Ela viu meu medo, meu desespero. E ela sussurrou: "Está tudo bem, meu filho." O silêncio na sacristia era pesado, sufocante. — Eu atirei, padre. Atirei porque fui covarde. Mas, mesmo assim, fugi. Corri sem olhar para trás. Encontrei um posto de gasolina fora da cidade. Um caminhoneiro estava abastecendo. Eu pedi ajuda, implorei por uma carona. Ele aceitou. Me levou para Santos, onde tentei recomeçar minha vida. Mas não adiantou. Eles me encontraram de novo. Padre Antônio segurava as lágrimas. Ele sabia que Joarez carregava um peso impossível de suportar sozinho. — Quando minha mãe morreu, eu tinha 22 anos. Voltei para Santos. Queria respostas, queria entender o que havia acontecido com meu pai. Foi aí que voltei a trabalhar para a máfia. No início, eram tarefas pequenas: carregar mercadorias, entregar mensagens. Mas logo fui ganhando a confiança deles. Eu achava que estava encontrando meu lugar, mas a verdade é que só estava me afundando mais. — O que te fez sair definitivamente, Joarez? — perguntou o padre, com voz suave. — Aos 30 anos, eu vi coisas que não consigo esquecer. Traições, assassinatos. Vi que eu seria o próximo, mais cedo ou mais tarde. Decidi sair, mas você sabe, padre... ninguém sai da máfia. Fui marcado como traidor. Joarez esfregou as mãos nervosamente, relembrando cada momento de sua fuga. — Fugi para Curitiba, mas eles me encontraram. Fui para o Rio, tentando desaparecer. E foi assim que encontrei sua igreja. Eu estava no fundo do poço, padre. Não sabia mais para onde ir, não tinha ninguém em quem confiar. Foi quando vi o senhor. Acho que Deus me trouxe até você. Padre Antônio suspirou profundamente, absorvendo cada palavra. — Joarez, o que você passou é... inimaginável. Mas você encontrou um refúgio. Aqui, você está seguro. — Por quanto tempo? — Joarez perguntou, a voz carregada de desespero. — Eles nunca param, padre. Eles nunca esquecem. Padre Antônio balançou a cabeça lentamente, pensando. — Talvez não possamos mudar o passado, mas podemos encontrar uma maneira de proteger seu futuro. Você é mais do que o que eles fizeram de você. Deus tem um propósito para todos nós, Joarez, mesmo nos momentos mais sombrios. Joarez olhou para o padre, pela primeira vez sentindo uma centelha de esperança em meio à escuridão. Antônio ouvia tudo, oferecendo conselhos sábios, mas nunca julgando. Ele sabia que Joarez era um homem em busca de redenção, mesmo que ele próprio não soubesse disso ainda. Com o tempo, Joarez passou a enxergar o padre como a figura paterna que nunca teve. Em troca, Antônio via em Joarez alguém com grande potencial, alguém que poderia encontrar a paz que tanto buscava, se apenas desse uma chance a si mesmo. Em uma tarde quente de janeiro, Padre Antônio sofreu um AVC repentino. Joarez estava ao seu lado, ajudando a preparar os sacramentos, quando viu o amigo desabar. Desespero tomou conta dele, enquanto tentava acordar o padre, mas já era tarde. Antônio foi levado às pressas ao hospital local, mas não resistiu. Joarez se viu sozinho, mais uma vez. O vazio deixado pela morte de Padre Antônio era imenso. Ele sentiu a perda profundamente, mas sabia que o amigo não teria desejado que ele permanecesse preso ao luto. Joarez se recolheu por dias, em silêncio, buscando um significado naquilo tudo. Ele sabia que não podia voltar para sua vida antiga, nem fugir para outro lugar. Ele estava ali, naquele momento, por um motivo. Os paroquianos começaram a procurar Joarez, buscando conforto na ausência de Padre Antônio. Eles olhavam para ele com respeito, com a expectativa de que, de alguma forma, ele pudesse preencher o vazio deixado pelo antigo padre. A decisão de assumir o lugar de Antônio não veio facilmente. Joarez sentia que não estava à altura da tarefa, mas ao mesmo tempo, sabia que não poderia abandonar aquela comunidade que tanto confiava nele. Ele passou noites em claro, lutando consigo mesmo. As memórias de Padre Antônio eram um fardo e um alento ao mesmo tempo. Ele lembrava dos conselhos do amigo, das palavras que ele sempre dizia: “Deus tem planos para cada um de nós, mesmo que não entendamos no momento.” Joarez não tinha certeza de que acreditava nisso, mas as palavras ecoavam em sua mente como um chamado. Aos poucos, Joarez começou a vestir a batina. No começo, era apenas para ajudar nas missas, para guiar os fiéis que se sentiam perdidos com a morte de Padre Antônio. Mas, com o tempo, ele percebeu que estava assumindo o papel por completo. A igreja passou a ser sua responsabilidade, e os fiéis confiavam nele como confiaram em Antônio. Joarez se tornou o padre de Santo Antônio de Jesus, mesmo sem nunca ter desejado esse destino. Ele ainda carregava consigo os medos e os pecados do passado, mas a cada dia na igreja, sentia que estava, de alguma forma, cumprindo uma missão maior. As dúvidas continuavam a atormentá-lo, especialmente quando se via cercado pelas pessoas que o admiravam, acreditando que ele era um homem santo. A ironia de sua situação não passava despercebida por Joarez. Ele, um homem fugindo de seu passado, agora vestia a batina, representando a fé e a redenção. Em momentos de solidão, ele conversava com o retrato de Padre Antônio, que agora pendia na parede do escritório da igreja. “O que você faria no meu lugar?” ele perguntava em voz baixa. As respostas nunca vinham, mas Joarez sentia, de alguma forma, que estava no caminho certo. Com o tempo, ele se adaptou ao novo papel. Passou a conduzir as missas, a ouvir as confissões, e a cuidar da pequena comunidade de Santo Antônio de Jesus. Os dias de medo e fuga foram sendo substituídos pela rotina da vida paroquial, mas Joarez nunca esqueceu quem ele realmente era. Ele sabia que a vida que levava agora era uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. A morte de Padre Antônio o havia forçado a confrontar seus próprios demônios. Agora, como padre da cidade, Joarez tentava encontrar um equilíbrio entre seu passado sombrio e o presente de redenção. Ele não sabia se conseguiria viver essa mentira para sempre, mas, por enquanto, estava disposto a tentar. A presença de Padre Antônio ainda era forte na igreja. Joarez se sentia guiado pelos ensinamentos do amigo, pelos momentos que compartilharam e pelos conselhos que jamais esqueceria. Ele continuaria, por mais que a estrada fosse difícil.
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