Padre Antônio e Joarez. Sob a Proteção da Fé. cap.1

1747 Words
Capítulo 1 A Amizade que Deu Vida a um. Novo Destino. 5 anos antes... O vento frio cortava o rosto de Joarez enquanto ele se escondia na boleia de um caminhão em movimento. A Sicília, com suas ruas de paralelepípedos e seus segredos sussurrados, estava atrás dele. Mas o peso de seu passado o seguia como uma sombra. Ele sabia que a máfia não perdoava traições, mesmo que ele nunca tivesse traído ninguém. Era o nome que carregava — Benedetto — que o condenava. Um nome que ele não escolheu, mas que trazia consigo uma sentença de morte. Ao longe, as luzes do Rio de Janeiro brilhavam como um farol. Era sua última esperança, um lugar onde poderia desaparecer. Quando o caminhão parou em um posto de gasolina, Joarez esperou o momento certo e saltou, escondendo-se nas sombras. Ele caminhou sem rumo até encontrar uma comunidade apertada e caótica. As ruas eram estreitas, com casas empilhadas umas sobre as outras, e as vozes ecoavam como um mar de murmúrios. Era perfeito para alguém que precisava se esconder. Cansado, faminto e com a mente atormentada, Joarez se deparou com a pequena igreja no coração da comunidade. A porta estava aberta, e a luz fraca do interior parecia um convite. O sino balançava suavemente, emitindo um som metálico que ecoava em sua alma. Ele hesitou, mas algo dentro dele o impulsionou a entrar. Padre Antônio estava na entrada, observando o movimento das pessoas na rua. Quando viu Joarez, notou de imediato o semblante abatido e o olhar perdido. Sem dizer uma palavra, o padre fez um gesto para que ele entrasse. Joarez atravessou o limiar como se estivesse entrando em outro mundo. — Padre... eu preciso me confessar — disse Joarez, com a voz tremendo. Padre Antônio assentiu, guiando-o até o confessionário. O silêncio entre eles era profundo, mas acolhedor. Joarez respirou fundo antes de começar a falar. — Eu sou um homem marcado para morrer. A máfia me quer morto. Fugi da São Paulo porque eles acham que traí a organização... mas eu nunca quis esse mundo. Era a vida do meu pai, não a minha. Quando ele morreu, eu pensei que estava livre, mas eles... — Joarez fez uma pausa, os olhos marejados. — Eles não esquecem. Padre Antônio ouviu tudo com atenção, sua expressão serena nunca vacilando. Quando Joarez terminou, houve um longo silêncio antes de o padre falar. — Você acredita em redenção, meu filho? — perguntou o padre. — Eu... não sei. Eu quero acreditar. — Então você já deu o primeiro passo. Você pode ficar aqui. A igreja é um lugar de refúgio. Ninguém vai tocar em você enquanto estiver sob este teto. Joarez não acreditou que alguém pudesse ser tão generoso. Ele balançou a cabeça, ainda relutante. — Não posso colocar sua vida em risco, padre. Eles não têm limites. — A minha vida está nas mãos de Deus. E agora, a sua também. Joarez aceitou a oferta, mas nunca relaxou completamente. Ele passou dois anos vivendo na igreja, ajudando com as tarefas do dia a dia e tentando encontrar alguma paz. Padre Antônio se tornou um amigo e mentor, alguém que nunca julgava e sempre estava disposto a ouvir. Joarez começou a sentir que, talvez, pudesse ter um futuro. Mas a máfia não desistiu. Eles o rastrearam até o Rio de Janeiro, e em uma noite silenciosa, enquanto a comunidade dormia, a igreja foi invadida. Joarez estava no pequeno quarto onde dormia, quando ouviu os passos pesados e o som de vozes sussurradas em italiano. — Ele está aqui. Não o deixem escapar. O sangue de Joarez gelou. Ele correu para o corredor, onde deu de cara com Padre Antônio, que segurava uma pequena bolsa. — Vamos, meu filho. Não temos tempo. Padre Antônio guiou Joarez pelos corredores escuros da igreja até uma saída lateral que dava para uma viela. Eles correram como nunca, os gritos dos homens da máfia ecoando atrás deles. Joarez sabia que não poderia continuar fugindo para sempre, mas, por enquanto, precisava sobreviver. Com a ajuda de conhecidos, Padre Antônio conseguiu levar Joarez para Santo Antônio de Jesus, na Bahia. A viagem foi longa e cheia de tensão, mas quando chegaram à pequena cidade, Joarez sentiu algo que não experimentava há anos: esperança. — Aqui, você pode recomeçar — disse Padre Antônio, enquanto olhava para a pequena igreja da cidade. — Este lugar será o seu refúgio. Joarez olhou para o padre, percebendo que aquele homem havia arriscado tudo por ele. Não era apenas um abrigo que ele havia recebido, mas uma segunda chance de viver. Mas ele sabia que a máfia não desistiria tão facilmente. A noite caiu pesada sobre Santo Antônio de Jesus, mas para Joarez, o verdadeiro peso estava em sua mente. O sono finalmente o alcançou, mas, ao invés de descanso, trouxe consigo um redemoinho sombrio de memórias e medos. Ele se viu novamente criança, no porto de Santos, brincando inocentemente com uma bola velha. O som das ondas era interrompido por gritos. Ele virou a cabeça e viu homens discutindo violentamente. No meio deles, estava seu pai, Paolo, gesticulando com raiva. As palavras eram inaudíveis, mas o tom ameaçador era claro. Joarez deu alguns passos na direção deles, mas seu pai o avistou. — Vai para casa, Joarez! Agora! — a voz de Paolo cortou o ar, tão afiada quanto o olhar que lançava. Joarez hesitou, mas antes que pudesse se mover, ouviu tiros. Ecoaram pelo porto, altos e ensurdecedores. Ele congelou. O som dos passos apressados, gritos abafados e o impacto dos corpos caindo ao chão o cercavam como uma melodia macabra. Seu pai apareceu correndo, com o rosto pálido, e agarrou Joarez pelo braço. — Não olhe para trás, filho. Apenas corra. A cena mudou abruptamente, como um filme sendo cortado para o próximo ato. Agora, Joarez estava em casa, sentado na mesa da cozinha. Sua mãe, Maria Luiza, estava ao telefone. Ele não ouvia o que ela dizia, mas o rosto dela dizia tudo. Lágrimas escorriam, e a mão que segurava o telefone tremia. — Seu pai... — ela começou, mas a voz falhou. — Ele se foi, Joarez. Eles o mataram. A cozinha ficou mais escura, as sombras nas paredes pareciam crescer, engolindo tudo. Joarez queria correr, queria fugir daquele lugar, mas seus pés estavam presos ao chão. Ele era apenas um menino, mas o peso da morte do pai caiu sobre seus ombros como uma pedra. Outra mudança brusca. Ele era adolescente agora, rebelde, andando pelas ruas escuras de uma cidade pequena no interior paulista. A escuridão parecia viva, como se os becos estivessem respirando. Joarez sentia a presença de olhos o observando de cada canto. Ele andava com outros jovens, rindo e bebendo, mas o riso deles soava distorcido, como se viesse de um lugar distante. De repente, ele estava de volta a Santos, carregando pacotes no porto. Cada pacote parecia mais pesado que o anterior, e ele sabia que não deveria abrir nenhum deles. A culpa era sufocante. Ele tentou largar o trabalho, mas os homens ao redor o cercaram. Um deles, com um sorriso c***l, se aproximou e sussurrou: — Você não pode fugir, Joarez. Ninguém foge. Ele tentou correr, mas as pernas não respondiam. Ele estava preso, as sombras do porto o engoliam. Os rostos das pessoas ao seu redor derreteram em formas grotescas, os olhos brilhando com um ódio que ele não conseguia compreender. De repente, ele estava em Curitiba, escondido em um pequeno apartamento. A respiração ofegante preenchia o silêncio. Joarez olhou pela janela e viu homens de terno preto parados na rua, olhando diretamente para ele. A campainha tocou. Ele não atendeu, mas o som se transformou em batidas fortes e constantes, como um coração acelerado. As paredes do apartamento começaram a se fechar, e ele m*l conseguia respirar. Outro salto no tempo. Ele estava no Rio de Janeiro, ajoelhado diante de Padre Antônio, confessando seus pecados. As palavras saíam da sua boca, mas soavam como se viessem de outra pessoa. A igreja, que deveria ser um refúgio, se tornava um labirinto escuro e opressivo. O rosto de Padre Antônio parecia calmo, mas as sombras ao redor dele dançavam, sussurrando segredos que Joarez não queria ouvir. E então, mais tiros. Desta vez, dentro da igreja. Homens mascarados invadiam o lugar, destruindo tudo no caminho. Padre Antônio gritou para Joarez correr, mas ele não conseguiu se mover. Ele viu o padre cair, o sangue se espalhando pelo chão da igreja. Joarez queria gritar, mas nenhum som saía. De repente, ele estava em Santo Antônio de Jesus, mas a paz do lugar não existia. A igreja estava em chamas, e os moradores da cidade o olhavam com olhos acusadores. Estella estava entre eles, mas seu rosto estava coberto de sombras. Ela estendeu a mão para ele, mas quando ele tentou segurá-la, ela se desfez em pó. Joarez acordou com um salto, o coração batendo tão forte que ele sentia como se fosse sair do peito. O quarto estava escuro, mas ele sentia o suor frio cobrindo sua pele. Ele colocou as mãos na cabeça, tentando se acalmar, mas as cenas ainda estavam vivas em sua mente. Cada tiro, cada grito, cada sombra parecia estar ali, no quarto com ele. Ele sentou na cama, as lágrimas escorrendo silenciosamente. Levantou-se, cambaleando, e caiu de joelhos no chão. Com as mãos juntas em oração, começou a sussurrar: — Deus, até quando? Até quando serei assombrado por esse passado? Eu fiz escolhas ruins, eu sei. Mas eu estou tentando, Senhor. Estou tentando ser alguém melhor. Por favor, me ajude. Tire essas sombras de mim. Me diga, Deus, quando vou me ver livre de tudo isso? O silêncio respondeu. Mas, mesmo assim, ele permaneceu ali, ajoelhado, implorando pela paz que parecia nunca vir. Padre Antônio havia se tornado mais que um mentor para Joarez, ele era a única pessoa em quem ele confiava de verdade. A amizade deles começou de maneira simples, mas logo se tornou um laço inquebrável. Quando Joarez chegou ao Rio de Janeiro, fugindo da máfia, encontrou em Padre Antônio um refúgio, tanto físico quanto espiritual. Padre Antônio o acolheu sem questionar seu passado, oferecendo abrigo em sua pequena paróquia. Joarez era um homem atormentado, e Padre Antônio parecia entender isso, sem nunca pressioná-lo a falar sobre o que o afligia. Eles passavam tardes longas em silêncio, trabalhando lado a lado na igreja, cuidando dos preparativos das missas ou apenas compartilhando uma refeição simples.
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