Capítulo 1: Autoleon
O espelho do banheiro antigo refletia o preço exato da minha audácia na Sicília. Passei os dedos devagar pelo lado esquerdo do rosto, sentindo o relevo áspero da cicatriz que começava perto da orelha e morria no meio da bochecha, repuxando sutilmente a pele quando eu tentava cerrar os dentes.
Eleonora Trovato, a Donna de Enna na ilha ao oeste, quase abrira minha jugular com aquela faca de cozinha, e o tiro nas minhas costelas, cortesia da Beretta de Dante Rossi, ainda latejava quando o clima mudava na Calábria.
Três meses de recuperação clandestina me devolveram os músculos e o fôlego, mas me transformaram em um pária dentro da minha própria ’ndrina.
Meu pai aceitara o veredito de Cesare Nirta para salvar o próprio pescoço, trancando-me naquela propriedade isolada em Aspromonte para cumprir uma espécie de reabilitação humilhante, cercado pelas paredes frias de pedra que cheiravam a mofo e a abandono.
A primeira pretendente havia chegado pontualmente às nove da manhã, trazida por um carro que partira antes que ela pudesse sequer se acomodar no saguão. Olhei para a mesa de madeira rústica, onde o reflexo do sol de abril iluminava apenas a jarra de argila.
Um vinho para esquentar a alma e uma bala para a minha cabeça. Era isso o que eu queria. No entanto, morrer estava fora dos meus planos. Dante teria que pagar primeiro, o maldito. Apenas após a minha vingança, eu poderia descansar em paz.
— Para o inferno você e sua esposa, Dante — virei o copo de água de uma vez. Não tínhamos bebidas na casa. Parte do meu castigo.
— Quem é Dante, Signor Autoleon?
— O quê? — Eu encarei os olhos castanhos de Miranda Mancini, sentada diante de mim. — Você está me dizendo que não conhece Dante Rossi, garota?
— Não senhor, não conheço. Foi me ensinado apenas sobre as famílias da nossa terra, o que está além do Sul, de nada sei.
— Então não sabe nada sobre mim e do porquê está aqui? — Sentei-me para assistir melhor aquela mocinha inocente. — Você tem quantos anos?
— Vinte anos completos em janeiro, senhor — Miranda ajustou sua postura. — E sim, sei que estou aqui para nos conhecernos com o intuito de um noivado. Quanto ao senhor, sei apenas que se chama Autoleon de Estefano e que deve seguir as regras que Il Crimine decretou.
— A regra é: não f***r as minhas pretendentes, apenas nos conhecermos por três dias. E depois de você virão mais nove, uma palhaçada que vai durar um mês e depois eu me caso com uma e nunca mais saio de casa. Quer saber como eu consegui essa sentença?
— Se for do seu agrado, serei sua ouvinte atenta — ela assentiu.
— Se for do meu agrado — repeti, avaliando-a. Seria tão fácil corrompê-la que eu nem precisaria dos três dias. — Ótimo. Não me interrompa.
Apoiei os cotovelos nos joelhos, inclinando o corpo para a frente para garantir que ela observasse detalhadamente o contorno avermelhado da marca que desfigurava minhas feições.
Ela pertencia aos Mancini, um clã de periferia que claramente oferecera a filha na esperança de morder alguma migalha da nossa influência, o que significava que o comitê da organização estava me empurrando para o refugo da província.
Miranda usava um vestido de algodão escuro com gola alta, perfeitamente engomado, demonstrando a típica pose decorativa que as anciãs ensinavam nos vilarejos do interior.
— Há três meses, eu estava em Enna colhendo os frutos de um acordo que colocaria a Sicília no nosso bolso, mas decidi pegar algo que o filho caçula do Don Vittorio Rossi considerava propriedade dele. O erro deles foi achar que o chumbo no meu estômago me enterraria de vez, porque agora estou aqui, e a cúpula resolveu que meu castigo é passar trinta dias assistindo ao desfile de dez mulheres para escolher uma que provavelmente nem pura é mais.
Miranda piscou, mantendo as mãos cruzadas sobre o colo, embora os nós dos seus dedos estivessem ligeiramente esbranquiçados pela pressão interna. Ela não recuou diante do meu tom, o que me causou uma pontada de curiosidade enquanto o vento da montanha assobiava contra os vidros velhos da janela.
— Se as ordens do conselho são tão rígidas, o senhor deveria ter mais cuidado com as suas palavras — ela falou, a voz mansa, quase didática. — Meu pai me garantiu que este lugar estaria protegido contra fofocas, mas não contra os ouvidos dos homens que vigiam a estrada lá embaixo.
— Deixe que escutem — retruquei, levantando-me com calma e caminhando até o limite da mesa. — Eles criaram essa encenação para me ver rastejar, esperando que eu implore pelo perdão da família aceitando a primeira coleira que me oferecerem. Mas a verdade é que eu já quebrei protocolos maiores do que essa proibição medíocre antes mesmo de você aprender a rezar o terço na igreja da sua paróquia.
Aproximei-me o suficiente para notar o aroma suave de alfazema que subia dos cabelos dela, um contraste absurdo com a atmosfera ácida que eu cultivava desde a minha queda.
Ela ergueu um pouco o queixo, sustentando o meu olhar enquanto eu estendia a mão direita para tocar a lateral do seu pescoço, sentindo a pulsação acelerada sob a minha pele fria. A sensação da resistência dela apenas atiçou a linha que eu já cruzara mentalmente no momento em que o primeiro carro entrou no pátio.
— O senhor está violando o primeiro dia — ela sussurrou, embora não fizesse a menor menção de se afastar do meu toque.
— Vou violar todos eles, Miranda. Se eles querem um herdeiro obediente, vão ter que assistir enquanto eu transformo essa penitência exatamente no oposto do que planejaram.