Anne Valencourt
O sol de Nova York nasceu hoje com uma claridade ofensiva, filtrando-se pelas frestas das minhas cortinas de seda como se o mundo lá fora não soubesse que, dentro deste quarto, uma mulher estava sendo preparada para o seu próprio abate. Eu não precisei de despertador; o barulho da animação vindo do corredor foi o suficiente para estraçalhar o pouco de paz que o sono induzido por exaustão me proporcionara.
Minha mãe entrou no quarto como um furacão de entusiasmo fútil. Ela não caminhava, ela flutuava sobre a desgraça da minha autonomia.
— Acorde, Anne! — a voz dela, aguda e vibrante, cortou o ar como uma lâmina. — Temos um milhão de coisas para fazer. O champanhe não vai se escolher sozinho, e a Maison precisa das suas medidas finais. Quero ostras de primeira, caviar beluga e aquele champanhe que só os Rockwell conseguem importar sem restrições.
Olhei para ela da cama, sentindo o peso do meu corpo como se estivesse enterrada em areia movediça. Minha mãe, Madeline, estava radiante. Para ela, este casamento não era o fim da minha liberdade, mas o renascimento do seu prestígio social. Ela via diamantes onde eu via correntes. Ela via um banquete onde eu via a última ceia.
— É um casamento, mamãe, não a coroação da rainha — murmurei, minha voz rouca e sem vida.
— Para os Rockwell, é a mesma coisa — ela rebateu, abrindo as cortinas com um gesto teatral. — E para nós, é a salvação. Agora, levante-se. Não quero uma noiva com cara de funeral no café da manhã.
Desci as escadas sentindo cada degrau como uma descida ao inferno. Quando cheguei à sala de jantar, o cenário era perturbadoramente diferente do que tínhamos vivido nos últimos meses.
A mesa não estava apenas posta; ela estava obscena. Havia frutas exóticas, pães artesanais ainda fumegantes, geleias importadas e uma prataria que eu não via brilhar há muito tempo. Mas o que mais me atingiu não foi a comida. Foram os rostos.
Jean, o mordomo que tinha sido dispensado há três meses sob o pretexto de "aposentadoria antecipada" (leia-se: falta de verba para salários), estava lá, impecável em seu uniforme, servindo o café. Duas camareiras que eu sabia que tinham sido cortadas da folha de pagamento também circulavam pela sala.
Toda a estrutura da mansão Valencourt, que estava definhando em um silêncio empoeirado, tinha sido subitamente reanimada. E eu sabia exatamente qual era a eletricidade que corria por aqueles fios: o dinheiro dos Rockwell. O meu preço.
Meu pai, Henri Valencourt, estava sentado à cabeceira da mesa, lendo o Wall Street Journal. Ele parecia dez anos mais jovem. O vinco de preocupação que habitava sua testa desde a queda das ações da nossa empresa têxtil tinha desaparecido, substituído por uma expressão de triunfo contido.
— Bom dia, Anne — ele disse, sem tirar os olhos do jornal. — Coma algo. Você precisa recuperar a cor. Temos uma agenda cheia hoje.
Puxei a cadeira, o som da madeira raspando no chão ecoando como um grito. Olhei para a mesa farta e senti uma náusea profunda.
— É uma mesa bonita, papai — comecei, minha voz carregada de um sarcasmo que eu não conseguia mais filtrar. — Os empregados voltaram. O caviar já está encomendado. É incrível como o silêncio e o conforto custam exatamente o peso de uma filha, não é?
O silêncio que se seguiu foi cortante. Minha mãe parou de falar sobre arranjos de flores no meio da frase. Jean, o mordomo, retirou-se discretamente. Meu pai baixou o jornal lentamente, e o brilho nos olhos dele mudou. Não era mais o empresário vitorioso; era o homem que eu conhecia nas sombras daquela casa.
— Anne, não abuse da sorte — ele disse, sua voz baixando para aquele tom gélido que sempre me fazia querer encolher os ombros. — Você está garantindo que este sobrenome continue significando algo. Deveria estar orgulhosa de sua contribuição.
— Contribuição? — eu ri, uma risada seca e sem alma. — Você me vendeu, papai. Charles Rockwell comprou uma noiva para o filho problemático dele para limpar a imagem da família, e você usou o cheque para recontratar o mordomo. Não me peça para ser radiante enquanto sou leiloada.
Meu pai levantou-se. O movimento foi brusco, fazendo o café na sua xícara de porcelana oscilar. Por um segundo, vi o reflexo do homem que ele realmente era quando as portas se fechavam e as aparências não eram mais necessárias.
Henri Valencourt é um mestre na arte da dissimulação. Para o mundo, ele é o aristocrata polido, o patrono das artes, o pai dedicado. Mas eu carrego na minha memória — e às vezes na minha pele — a verdade sobre o seu temperamento.
— Você deveria agradecer — ele sibilou, aproximando-se da minha cadeira. — Sabe o que o Ryan me disse ontem à noite? — o irmão, o estrategista, o cão de guarda daquela família — deixou bem claro que eu não poderia deixar você ir para a mansão deles com um único arranhão. Parece que eles valorizam a "mercadoria" intacta. Se não fosse por essa exigência técnica do contrato, eu juro que ensinaria a você um pouco de respeito agora mesmo.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. A menção ao contrato e à minha integridade física não era um gesto de carinho dos Rockwell; era uma cláusula de qualidade. Eu tinha que estar perfeita para as fotos.
Minha mente foi arrastada, contra a minha vontade, para o porão desta mesma casa. Lembrei-me de quando eu tinha catorze anos e quebrei um vaso Ming por acidente. Lembrei-me do som do cinto de couro sendo puxado das fivelas das calças dele. O estalo no ar seco do depósito. A dor que não era apenas física, mas uma humilhação que queimava mais que o próprio couro.
Meu pai nunca foi homem de gritos. Ele batia em silêncio. Ele batia com método. E depois, ele me mandava para o quarto e dizia que "um Valencourt nunca mostra suas fraquezas através do choro".
Agora, ele me olhava com o mesmo ódio contido daquelas noites. Mas ele não podia me tocar. O dinheiro dos Rockwell me protegia dele, apenas para me entregar a outro monstro: Robert.
— Ryan Rockwell disse isso? — perguntei, tentando manter minha voz firme apesar do tremor nas mãos abaixo da mesa. — Que bom que ele se preocupa com a estética da noiva do irmão. É um alívio saber que sou protegida por uma cláusula de seguro.
— Ryan é um homem de negócios — meu pai retrucou, voltando a se sentar. — Ele sabe que qualquer escândalo, qualquer sinal de que este casamento não é "por amor", destruiria o valor do acordo. Portanto, Anne, você vai sorrir. Você vai gastar o dinheiro que eles nos deram. E você vai entrar naquela igreja parecendo um anjo, ou eu farei você se arrepender de cada palavra de insolência quando os cinco anos de contrato terminarem.