Anne Valencourt
O meu quarto, que sempre foi o meu santuário, o lugar onde o cheiro de jasmim costumava me acalmar, agora parece uma cela de luxo revestida de seda e melancolia. As paredes, pintadas naquele tom de creme que escolhi com tanto carinho, parecem estar se fechando sobre mim, apertando-me à medida que a madrugada avança. O silêncio da mansão Valencourt é pesado, quase sólido, interrompido apenas pelo som rítmico da chuva fina que açoita as janelas.
Estou sentada no meu divã de veludo azul-marinho, olhava o vestido de seda champanhe do noivado. Ele é uma obra-prima de alta costura, eu sei, mas agora pesa toneladas penduradas em um cabide. Sintia que o espartilho não está apenas moldando a minha cintura; ele está esmagando os meus pulmões, impedindo que o ar chegue onde a angústia se instalou: bem no centro do meu peito.
Ouço uma batida leve e familiar na porta. Antes que eu consiga responder, Valquíria entra. Ela é o meu oposto agora. Enquanto eu me sinto como uma estátua de porcelana prestes a trincar, Val exala uma energia vibrante, embora eu veja a nuvem de preocupação nos olhos dela.
— Eu tentei falar com você a noite toda — ela diz, fechando a porta em silêncio. — Mas aquele lugar estava um hospício. Flashs, taças de champanhe e aquela gente hipócrita... Anne, meu Deus, você está pálida.
Eu olho para ela e sinto a minha máscara de "herdeira perfeita" começar a derreter. Sinto o meu rosto queimar.
— Eu não consigo, Val. Eu simplesmente não consigo.
Ela senta ao meu lado e segura as minhas mãos. Estão geladas.
— Respire, Anne. Me conte. O que aquele desgraçado do Robert fez dessa vez?
Eu solto um riso amargo. Não há alegria nenhuma nele, apenas o gosto de bile.
— O que ele não fez? Val, ele se comportou como se eu fosse um acessório de segunda mão. Um m*l necessário. No meio do salão, enquanto o meu pai fazia aquele discurso pomposo sobre a "união das nossas linhagens", Robert estava debruçado sobre o ombro de uma loira da família Holloway. Ele sussurrava coisas no ouvido dela e ela ria... de um jeito vulgar. Ele nem se deu ao trabalho de disfarçar.
Sinto o aperto de Valquíria nas minhas mãos aumentar.
— Quando ele se aproximou de mim, perto da mesa de bebidas, eu tentei manter a classe. Pedi, quase implorei, que ele fosse mais discreto, pelo menos pela honra do meu pai. Sabe o que ele fez? Ele se inclinou, cheirando a uísque e desprezo, e disse: "Anne, não tente agir como se esse anel significasse algo além de números em uma planilha. Você é uma pedra no meu caminho, uma obrigação que eu pretendo ignorar no momento em que sairmos da igreja. Não espere amor, não espere fidelidade. Apenas fique bonita e calada."
Cubro o meu rosto com as mãos. Os soluços saem sem que eu consiga controlar.
— Ele me odeia, Val. Ele deixou claro que eu sou um estorvo, um fardo que ele só aceita carregar para garantir a herança dos Rockwell.
Valquíria suspira e me puxa para um abraço. Eu queria me perder ali, voltar a ser criança, mas o mundo real é c***l demais.
— Anne... eu preciso te contar uma coisa. E eu juro que dói ser eu a pessoa a dizer isso — ela começa, e o tom de voz dela faz o meu sangue congelar de vez.
Eu me afasto um pouco, limpando as lágrimas.
— O que foi? O que pode ser pior do que a humilhação que eu já passei nesse noivado?
Val suspira.
— Eu ouvi um grupo de mulheres conversando no toalete. Havia uma mulher lá, uma tal de Elena. Ela estava ostentando um colar de diamantes que, segundo ela, ganhou de Robert na noite que ele estava noivando com você. Ela estava rindo, dizendo que o Robert jurou que ela é o "único amor da vida dele" e que esse casamento com você é apenas um "teatro financeiro". Ela disse que eles já têm até um apartamento em Paris, para onde ele vai fugir sempre que o "dever" com você o cansar.
O ar desaparece. Eu abro a boca, mas nada sai. Um apartamento em Paris. Um amor verdadeiro. E eu? Eu sou o "dever". O teatro. A farsa que vai sustentar a vida de luxo dele com outra pessoa.
— Um apartamento em Paris... — sussurro, sentindo o peso da traição antes mesmo do "sim". — Enquanto eu fico aqui, fingindo ser a esposa feliz para salvar as empresas do meu pai? Isso é uma sentença de morte, Val. O meu casamento vai ser o funeral da minha dignidade.
Eu me levanto e começo a andar pelo quarto. Meus passos são abafados pelo tapete persa, mas o caos na minha mente é ensurdecedor. Paro diante da janela e olho para a escuridão. Lá longe, a propriedade dos Rockwell brilha como uma fortaleza de gelo.
— Por que ele tem que ser assim? — pergunto para o nada. — Eu me lembro de quando éramos crianças... Havia momentos em que eu achava que existia algo bom naquela família. Eu lembro de um menino... um menino ferido no jardim, há muitos anos. Eu limpei o braço dele. Eu achei que, por trás daquela frieza, houvesse uma alma. Mas o Robert que eu vejo hoje... ele é oco. É o menino, esse é o meu cunhado, não meu futuro marido.
Valquíria me observa com tristeza.
— Anne, se o contrato for quebrado, o que acontece de fato?
— O meu pai perde tudo. Os credores estão batendo na porta. O império Valencourt é uma casca vazia sustentada por aparências. Se os Rockwell retirarem o investimento, meu pai vai à falência, será processado... talvez preso. Ele é um homem orgulhoso demais, Val. Ele não sobreviveria à queda. Eu sou o preço da sobrevivência dele.
— É um sacrifício c***l demais — Val lamenta. — E o Ryan? Ele é o cérebro daquela empresa. Ele não pode fazer nada? Ele sempre me pareceu... diferente. Mais humano.
Eu balanço a cabeça. Lembro-me de Ryan no noivado. O cuidado que ele mostrou enfrentando o meu pai.
— Ryan é a sombra do irmão. Ele faz o que o pai manda, ele limpa a sujeira que o Robert deixa no caminho. Ele nem apareceu no noivado. Eles são todos iguais, feitos de dinheiro e gelo.
Volto-me para o espelho. A mulher que me olha de volta não tem mais o brilho nos olhos ruivos que eu costumava orgulhar-me de ter. Eu vejo uma estranha. Uma mulher que está aprendendo a odiar.
— Eu vou ser a noiva perfeita — digo, e minha voz soa estranhamente firme, desprovida de emoção. — Eu vou subir aquele altar, vou dizer "sim" para o homem que me despreza e vou garantir que o meu pai tenha o seu contrato. Mas Robert Rockwell não terá a minha alma. Ele pode ter o meu nome, pode ter o meu corpo nos eventos sociais, mas eu nunca mais vou dar a ele o poder de me ver chorar.
— Você está se fechando, Anne — Valquíria diz, preocupada. — Isso vai te destruir por dentro.
— Eu já estou destruída, Val. Agora, só resta a performance.
Valquíria acaba pegando no sono na poltrona, exausta. Eu continuo aqui, na varanda, sentindo o vento frio arrepiar a minha pele. Olho para o anel no meu dedo — um diamante monumental que Robert me deu com a mesma indiferença com que se joga uma moeda para um mendigo.
Eu não sei o que o futuro reserva. Eu só sinto esse vazio. O contrato dita os próximos cinco anos da minha vida. Quarenta páginas que decidem quando eu acordo, onde eu moro e com quem eu devo sorrir.
Sinto uma pontada de saudade daquela menina no jardim, que acreditava que um beijo no pulso e um "arzinho" podiam curar qualquer ferida. Que tola eu fui.
— Que Deus me ajude — sussurro para a noite escura. — Porque eu estou entrando em uma toca de lobos, e não sei se sobrará nada de mim quando esse contrato terminar.
Deito-me na cama, ainda de vestido, e fecho os olhos. Meus sonhos são povoados por altares que parecem guilhotinas e pelo riso de Robert ecoando em um apartamento em Paris. Mas, no fundo da minha mente, há um sussurro. Um sopro frio no meu braço. Uma lembrança que eu não consigo apagar, de um par de olhos que me olhavam com uma dor que não era de Robert.
Mas agora, isso não importa. O espetáculo vai começar, e eu sou apenas a atriz principal de uma tragédia anunciada.