Ryan Rockwell
— Você não pode fazer isso — sussurrei, a voz embargada por um terror que eu nunca permiti que ninguém visse. — Você está entregando a Anne a um monstro.
Era a pior decisão de todas, como ela iria sobreviver há ele?
— O seu trabalho — Richard interveio, colocando a mão no meu ombro com uma falsa empatia que me deu náuseas — é garantir que esse monstro chegue ao altar com aparência de príncipe. Você já começou o trabalho hoje com os alemães. Continue. Seja o estrategista, Ryan. Continue limpando o caminho para que o Robert passe.
— E se eu me recusar? — perguntei, desafiando meu pai.
Charles Rockwell deu as costas para mim, olhando novamente para a janela.
— Se você se recusar, a fusão cai. Os Valencourt declaram falência na próxima segunda-feira. O pai dela vai para a cadeia por fraude fiscal — porque nós sabemos que as contas dele não resistem a uma auditoria sem o nosso aporte — e a "ruivinha", como você diz, acabará na sarjeta, sem sobrenome e sem proteção. É isso que você quer para ela?
Eu senti como se o chão tivesse desaparecido. Eles me tinham nas mãos. Sabiam que eu era o suporte. Sabiam que eu não permitiria que Anne caísse. Eles usavam a minha decência e o meu amor secreto por ela como correntes para me manter escravizado aos erros do meu irmão.
— Eu vou cuidar disso — disse, a voz oca, desprovida de qualquer esperança.
— Ótimo — meu pai disse, sem se virar. — Saia. Richard e eu temos detalhes de Singapura para discutir.
Saí da sala sentindo o peso do mundo nas costas. Fui até o meu próprio escritório, a poucos metros dali, e bati a porta. Meus olhos caíram sobre as flores que eu tinha acabado de ordenar para Sarah enviar a Anne. Flores sem cartão. Flores que agora pareciam um insulto.
O jantar com os alemães tinha sido um sonho breve e c***l. Por algumas horas, eu tinha dado a ela a ilusão de que o casamento poderia ser algo bom. Eu tinha sido o "Robert Perfeito". E agora, a realidade estava batendo à porta com a força de um martelo.
O Robert real se casaria com ela. O Robert das fotos. O Robert que bebia até perder os sentidos e que odiava a própria existência. Ele seria o homem a tocá-la, a dormir ao lado dela, a carregar o nome dela.
Eu caminhei até o bar e servi-me de um uísque puro, sem gelo. Minhas mãos tremiam.
Eu tinha que protegê-la. Mas como proteger alguém do próprio destino quando o destino é um Rockwell? Se eu contasse a verdade a ela, se mostrasse as fotos, ela fugiria, e o pai dela seria destruído. Se eu continuasse mentindo, ela caminharia direto para a jaula do lobo.
— Eu sou o estrategista — murmurei para o vidro frio da janela, repetindo as palavras de Richard como uma maldição.
Mas qual era a estratégia para salvar a alma da mulher que você ama quando o preço da salvação dela é o seu próprio silêncio enquanto ela é entregue a outro?
Eu bebi o uísque de um gole só, sentindo o líquido queimar a minha garganta. A fúria contra Robert, contra meu pai e contra a minha própria covardia era quase insuportável.
Amanhã, eu teria que olhar nos olhos de Anne novamente. Teria que fingir que o jantar foi apenas um "sucesso comercial". Teria que assistir Robert se recuperar da ressaca e assumir o papel de noivo, enquanto eu voltaria a ser o cunhado que observa tudo das sombras.
Mas enquanto eu olhava para as luzes da cidade, uma ideia sombria e desesperada começou a tomar forma. Se meu pai queria que Robert se casasse com Anne para salvar a empresa... e se Robert era o problema... talvez estivesse na hora de o "suporte" se tornar o protagonista.
Se eu tivesse que me transformar em um monstro maior do que meu pai para tirar Anne das mãos de Robert, eu o faria. Se eu tivesse que trair o meu próprio sangue para garantir que ela nunca mais tivesse que limpar o sangue de ninguém, eu aceitaria a condenação.
— Aguente firme, Anne — sussurrei para o reflexo no vidro. — O espetáculo começou, mas o final... o final ainda não foi escrito. E eu juro pela minha vida que Robert Rockwell nunca terá a chance de quebrar o que eu passei a vida inteira tentando proteger.
O silêncio do escritório foi interrompido apenas pelo estalo do copo de cristal que eu apertei com força excessiva. Eu era Ryan Rockwell. O homem que conserta. O homem que paga a penitência. E a partir de hoje, o homem que iria destruir qualquer um que se atravessasse entre Anne Valencourt e a liberdade dela — mesmo que esse "qualquer um" tivesse o meu próprio sobrenome.