Capítulo 16

1082 Words
Robert Rockwell O grave da música eletrônica não era apenas um som; era uma vibração que eu sentia na base do crânio, um pulso que ditava o ritmo do sangue nas minhas veias, entorpecido por uísque de cinco mil dólares e carreiras de pó que brilhavam como poeira estelar sobre as mesas de vidro da minha cobertura. Minha casa era um monumento ao excesso. Luzes neon em tons de roxo e azul cortavam a fumaça de narguilé e o suor de corpos que dançavam sem direção. Eu não sabia o nome de metade daquelas pessoas, e não dava a mínima. Eles estavam ali pelo meu nome, pelo meu álcool e pela aura de "Rockwell" que eu emanava como um rei de um império em ruínas. Eu estava no meu ápice. O mundo lá fora — o mundo de contratos, de reuniões com alemães chatos, da cara de enterro de Anne Valencourt e das cobranças gélidas do meu pai — não existia. Ali, entre as paredes de isolamento acústico da minha suíte master, eu era intocável. Elena estava sob mim, os cabelos loiros espalhados pelos lençóis de seda n***a como fios de ouro em um mar de sombras. Ela gemia meu nome, ou talvez o som do meu dinheiro, não importava. Ela era real. Ela era quente. Ela não era uma "missão de salvamento" ou uma peça de xadrez. Com Elena, eu não precisava ser o herdeiro perfeito. Eu podia ser o animal que meu pai sempre suspeitou que eu fosse. Eu estava quase lá. O prazer estava nublando minha visão, a euforia final subindo como uma onda de calor que prometia apagar o resto de sanidade que me sobrava. Eu fechei os olhos, os dedos cravados nos quadris dela, pronto para me perder no único momento em que eu não sentia o peso do sobrenome Rockwell esmagando meu peito. E então, o mundo explodiu. Não foi um som de tiro. Foi pior. Foi o som da minha porta sendo arrombada com uma violência que o metal não deveria permitir. Antes que eu pudesse sequer processar o que estava acontecendo, antes que o meu cérebro frito pudesse comandar um xingamento, senti uma mão de ferro agarrar meu ombro. Fui arrancado do meio das pernas de Elena com uma força bruta. Meu corpo, ainda em espasmo pelo prazer interrompido, foi lançado para trás. Eu não tive tempo de cobrir minha nudez, não tive tempo de piscar. PÁ! O impacto foi seco, certeiro, uma explosão de luz branca e o gosto metálico de sangue inundando minha boca instantaneamente. Meu rosto foi jogado para o lado e o meu corpo voou, caindo do outro lado da cama, derrubando uma garrafa de cristal que se estilhaçou contra o chão de madeira. — Que p***a é essa?! — Elena gritou, a voz estridente de pavor. Ela rolou para o lado, puxando o lençol para se cobrir, os olhos arregalados enquanto corria em direção ao closet, tropeçando nas próprias pernas. Eu estava no chão, a cabeça girando, a mão pressionada contra a mandíbula que parecia ter sido deslocada. Olhei para cima, o sangue escorrendo pelo meu lábio, e vi o demônio. Não era o meu pai. Não era um segurança. Era o Ryan. Mas não era o Ryan que eu conhecia. Não era o "garoto de ouro", o "suporte", o irmão que limpava meus vômitos e subornava policiais para me tirar da cadeia. Ele estava parado no centro do quarto, o terno perfeitamente alinhado — o mesmo que ele provavelmente usou para fingir ser eu no jantar —, mas a expressão no seu rosto... era algo que eu nunca tinha visto. Ele estava rindo. Mas não era uma risada de alegria. Era uma risada seca, rouca, algo que vinha das entranhas de um homem que tinha acabado de cruzar a linha da sanidade. Uma risada diabólica que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem, mesmo com o álcool no meu sistema. — Que merda é essa, Ryan?! — gritei, tentando me levantar, mas minha perna ficou presa em um lençol. — Você ficou maluco?! Entrar assim, me bater... eu vou acabar com você! Ryan deu um passo à frente, e o riso parou subitamente. O rosto dele se tornou uma máscara de ódio frio, os olhos brilhando com uma promessa de violência que me fez retroceder, mesmo estando no chão da minha própria casa. — Você vai acabar comigo, Robert? — a voz dele era um sussurro letal. — Você não consegue nem terminar de t*****r sem que eu tenha que segurar a sua mão para o império não cair. Você é um verme. Um parasita que vive do sangue que eu derramo naquele escritório todos os dias. — Vai se ferrar! — cuspi sangue no chão. — Você adora esse papel de mártir. Adora ser o preferidinho do papai, o gênio estrategista. Pois saiba que eu não pedi pra você ir naquele jantar. Eu não pedi pra você ser o herói! Ryan se inclinou sobre mim, agarrando o colarinho do roupão que eu tinha acabado de puxar do chão. Ele me sacudiu como se eu fosse um boneco de pano. — Você não pediu? Você nunca pede, Robert! Mas você sempre espera que eu esteja lá. Pois escute bem, porque eu não vou repetir. O papai descobriu tudo. As fotos de Miami, a Elena, as orgias, as dívidas de jogo. Richard está aqui. O jornalista do Chronicle estava na nossa sala há uma hora com o dedo no botão de "publicar". Senti um frio súbito na barriga. Richard? O irmão "santo" de Singapura tinha voltado? E o velho sabia das fotos? — O que ele disse? — perguntei, minha voz perdendo a bravura. Ryan me soltou com um empurrão que me fez bater as costas na moldura da cama. Ele começou a caminhar pelo quarto, chutando as roupas de grife jogadas no chão com um desprezo palpável. — O papai deu o veredito — Ryan disse, parando diante da janela que dava para as luzes da cidade. — Você vai se casar com a Anne Valencourt. Nem que ele tenha que arrastar o seu cadáver até o altar. E se você se recusar, se você fizer qualquer coisa para sabotar esse casamento, ele vai te deserdar. Você vai ser um ninguém, Robert. Sem cobertura, sem carros, sem Elena, sem o nome Rockwell. Você vai morrer de fome em um beco e ninguém vai sentir a sua falta. Eu soltei uma risada nervosa, tentando recuperar meu orgulho.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD